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Das bets ao posicionamento político patife da maior parte dos jogadores, não faltam motivos para nos colocarmos contra o futebol nestes tempos de onipresença midiática alavancada pela catártica Copa do Mundo. E no balaio aziago podemos incluir o excesso de marketing que ofusca o esporte, o comportamento crianção irresponsável que faz com que uma penca de marmanjos seja rotulada como “meninos”, as músicas de gosto duvidoso, o proselitismo religioso fora de hora e, vá lá, o Trump ganhando uma pantomima de Nobel da Paz galardeada pela Fifa.

Eu mesmo, outrora fã de futebol, não sei escalar nem metade do escrete canarinho. Tampouco conseguiria reconhecer, se trombasse na rua, a maior parte dos selecionados, com seus nomes compostos e poses de Instagram. Por certo saberia ser um ludopedista — posto que quase certo o espécime vestiria moletom de grife esportiva, exibiria centímetros exagerados das meias entre o final superior do calçado e o início inferior das calças, ostentaria um tênis visualmente maior do que os pés, teria fones de ouvido gigantescos e andaria em bando, ladeado por parças.

Em minha defesa — ou acusação, a depender do ponto de vista —, lembro que a última Copa do Mundo a que realmente assisti de forma obcecada, varonil e ritualística foi a de 2002, a do penta. Depois me tornei jornalista e as agruras e os prazeres da profissão passaram a incluir uma TV ligada apenas para ser espiada de canto de olho enquanto o deadline permanecia como incólume contagem regressiva, fosse o assunto do texto algo ligado ao futebol, fosse apenas as consequências de algum assassinato fora do comum em São Paulo — por fora do comum, entenda: a ponto de merecer algumas linhas no jornal.

Mas quando quero também sou dado a maledicências e, à medida que fui me desconectando do manto sagrado daquele que já fora o suprassumo do futebol-arte e, ao mesmo tempo, vendo essas vestes antes patrimônio sendo apropriadas, indebitamente, pela seita extremista que chegou a comandar o país, apelei para o jocoso. Seleção se tornou selecinha, bom mesmo era o Evair — um injustiçado em copadomundologia, aliás — e que falta faz um Nelson Rodrigues para cronicar, cegueta, sobre os lances dentro das quatro linhas.

Então veio meu degredo e esta de agora é minha terceira Copa do Mundo consecutiva em um país não participante, a segunda em um país de gente que nem se importa, que está mais preocupada com o campeonato mundial de escalada ou com o ciclista que vai ganhar o rolezinho lá na França este ano do que com o maior esporte que a humanidade já inventou e jamais inventará algo melhor, superlativo, magnânimo, mais incrível: essa idiotice linda de dois times, onze de cada lado, buscando anotar tentos e, entre o caminho para um gol e o trajeto para livrar-se de ser vazado, conseguindo dançar, escorrer, bailar. Um esquadrão fabricando artimanhas belas. O futebol que amamos, afinal, é aquele das antigas, em que um drible era um poema, um cruzamento tinha requintes de rima, uma bola na trave significava aquele silêncio retumbante de um ponto final colocado fora de lugar em uma estrofe aguda.

O futebol que amamos não é o do qual se locupletam empresas de apostas, meninos Neys, interesses escusos e organizações transnacionais. O futebol que amamos é aquele do qual nos locupletamos — não os bolsos, mas o coração; e o tesão.

Por isso, e porque ainda há espaço para uma nostalgia saborosa no meu rancoroso âmago — que não consegue perdoar quem dizimou o prazer do futebol e quem roubou até mesmo o direito de vestir a amarelinha feliz — assisto a esta Copa.

Se o Brasil se sagrar hexa, ao menos no dia da taça vou me esquecer das bets, da turma do Neymar, dos bolsominions de camisa amarela e coração estadunidense, do marketing exacerbado, das frases bíblicas inapropriadas ao momento. Vou fingir que tenho uma vuvuzela e dormir com um sorriso desenhado no rosto.

Mas, porque antes de mais nada a Copa do Mundo precisa ser enfatizada como uma festa fraterna e humana, ficarei ainda mais feliz se o caneco dourado for levantado por um time ainda não alçado ao panteão dos vencedores. Mais do que simbólico, o ineditismo pode vir a coroar aqueles que sempre foram vistos como irrelevantes.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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