Há personagens que não conseguem atravessar a vida com a distração dos outros. Eles analisam uma conversa depois que ela acabou, voltam a uma humilhação antiga como quem reabre uma gaveta, medem o próprio talento contra alguém inalcançável, trocam a convivência por livros, a ação por justificativas, o trabalho por uma recusa sem futuro, a ciência por uma pergunta que não cabe mais em relatório. Não são necessariamente sábios, nem melhores do que ninguém, e talvez sofram justamente porque confundem inteligência com abrigo.
A lista reúne livros de países diferentes, todos com tradução publicada no Brasil, alguns ainda encontrados com relativa facilidade, outros mais dependentes de sebo ou biblioteca. O recorte passa por romance europeu, ficção científica, autobiografia torta e mangá japonês, sem procurar nomes óbvios para o assunto. O que interessa aqui são figuras que percebem demais e, mesmo assim, não conseguem viver melhor por causa disso.
Auto de Fé, de Elias Canetti
Peter Kien mora cercado por livros e trata a biblioteca como se ela fosse uma extensão de seu corpo, sua casa e sua única forma aceitável de companhia. Sinólogo, erudito, fechado em hábitos rígidos, ele se acredita distante das confusões miúdas da vida diária, até que o casamento com a governanta transforma o espaço doméstico em disputa por dinheiro, poder e posse. O romance acompanha essa queda sem piedade, fazendo do conhecimento de Kien uma coisa quase inútil diante de necessidades que ele desprezou durante anos, como desejo, medo, negociação, vaidade e sobrevivência. A biblioteca continua ali, mas já não protege ninguém.
O Náufrago, de Thomas Bernhard
Em Salzburgo, três jovens estudam piano e convivem com Glenn Gould, cuja presença basta para modificar a vida dos outros dois. Wertheimer entende que jamais alcançará aquele nível, e essa descoberta passa a organizar sua derrota com uma precisão cruel. O narrador recompõe a história em frases que voltam, corrigem, insistem e não deixam a comparação morrer, como se a admiração por Gould tivesse virado também uma forma de ressentimento. O livro não precisa transformar a música em espetáculo, porque seu assunto está na cabeça de quem sabe reconhecer o gênio alheio e não encontra, depois disso, um lugar aceitável para si mesmo.
A Consciência de Zeno, de Italo Svevo
Zeno Cosini escreve por sugestão do psicanalista e faz das próprias memórias um terreno pouco confiável, no qual o cigarro que nunca abandona, a morte do pai, o casamento, as amantes e os negócios aparecem sempre atravessados por explicações convenientes. Ele se observa com atenção, mas essa atenção não o torna mais honesto; apenas lhe dá mais recursos para justificar fraquezas, adiar decisões e transformar cada falha numa versão razoável de si. Svevo cria um personagem que entende bastante do próprio ridículo e continua usando esse entendimento para escapar de mudanças reais, como se conhecer o problema fosse uma maneira aceitável de não resolvê-lo.
Os Irmãos Tanner, de Robert Walser
Simon Tanner passa por empregos, quartos alugados, ruas e paisagens sem conseguir transformar a própria vida numa sequência estável. Ele trabalha, abandona, recomeça, conversa com desconhecidos, observa o mundo ao redor e parece sempre levemente deslocado do lugar em que deveria permanecer. Walser acompanha esse movimento com uma delicadeza que não torna Simon mais prático, apenas mais difícil de reduzir a fracasso simples. Sua inteligência aparece no modo como percebe as pessoas, as obrigações e as promessas de estabilidade, mas essa percepção não lhe dá uma profissão, uma casa, uma rotina ou uma resposta. O personagem continua andando.
Bom-Dia, Meia-Noite, de Jean Rhys
Sasha Jansen volta a Paris com pouco dinheiro, muita bebida, roupas escolhidas com cuidado e uma coleção de lembranças que reaparecem nos quartos de hotel, nos cafés e nos encontros com homens que a olham antes de ouvi-la. Jean Rhys não afasta a personagem de sua vergonha, nem a protege das pequenas humilhações que chegam em frases educadas, convites ambíguos ou silêncios longos demais. Sasha sabe como está sendo vista, sabe o que perdeu e calcula cada gesto de defesa, mas essa vigilância constante não impede novas quedas. O livro permanece nessa Paris de espelhos, cansaço, álcool e dinheiro contado.
O Homem sem Talento, de Yoshiharu Tsuge
O protagonista foi desenhista de mangá, mas se afasta da profissão e tenta vender pedras retiradas do rio, uma ocupação quase sem compradores, enquanto a mulher cobra dinheiro, o filho acompanha a pobreza da casa e a vida familiar vai ficando cada vez mais estreita. A recusa do trabalho não aparece como gesto heroico, porque há preguiça, orgulho, desalento e teimosia misturados no mesmo homem. Tsuge observa esse fracasso sem enfeitá-lo, mantendo perto o constrangimento doméstico, a falta de dinheiro e a insistência do personagem em preferir um caminho que parece não levar a lugar algum. As pedras continuam encalhadas.
Solaris, de Stanislaw Lem
Kris Kelvin chega à estação espacial para estudar Solaris, planeta coberto por um oceano vivo que desafia há décadas as tentativas de explicação dos cientistas. Quando o planeta começa a devolver aos pesquisadores presenças ligadas a culpas antigas, Kelvin se vê diante de Harey, mulher morta que ele não conseguiu deixar para trás. A investigação científica continua, mas a estação se torna também um lugar de retorno forçado, onde fórmulas, hipóteses e relatórios convivem com aquilo que nenhum pesquisador gostaria de ver materializado diante de si. Kelvin queria entender um planeta e acaba preso ao rosto de alguém que voltou sem ter voltado.

