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Ontem fui ao cinema assistir a “Backrooms”, novo suspense da A24, dirigido por Kane Parsons e que transforma em longa-metragem um folclore digital surgido inicialmente em 2019, no 4chan, por meio de um usuário anônimo. A lenda continuou a ser desenvolvida por outros usuários, cresceu de forma exponencial e se transformou em uma mitologia maior que qualquer pessoa que reivindique sua autoria. Tudo começa quando se supõe que existe uma dimensão física em que as paredes são amareladas, o chão é feito de carpete gasto e tudo o que existe se reproduz como se houvesse algo errado na “Matrix”.

Não, o filme não tem a menor relação com a mitologia das irmãs Wachowski. A comparação é totalmente minha responsabilidade. E acrescento mais. Em “O Clube da Luta”, de David Fincher, adaptado do livro de Chuck Palahniuk, o narrador diz que, quando se tem insônia, tudo vira uma cópia da cópia da cópia. No universo de “Backrooms” é mais ou menos assim, mas sem a insônia. Os backrooms são infinitos e vão se construindo a partir da memória. Assim, como em “O Clube da Luta”, tudo vai se tornando uma cópia da cópia da cópia. E talvez nada disso faça realmente sentido. Só estou tentando organizar meus pensamentos depois de ter visto esse filme que ainda estou tentando digerir.

Do fórum anônimo à A24

Não sou familiarizada com a história. Na verdade, a primeira vez que ouvi falar dos backrooms foi ontem, horas antes do filme, quando pesquisei na internet para entender melhor a sinopse. Nenhuma pesquisa profunda, algo apenas para me ambientar. Daí soube que a teoria virou até jogo de videogame e que Kane Parsons fez uma série de curtas no YouTube sobre o tema aos 16 anos. Agora, com 20, ganhou a confiança da A24 para um longa-metragem coescrito por Will Soodik.

Assim, não tô dizendo que o filme foi feito na garagem de casa por um adolescente e patrocinado por uma produtora independente sem o menor critério. É, sim, o primeiro longa de Parsons. Mas seus curtas são muito bem-feitos e consolidados na internet. A A24 provavelmente incluiu Soodik, roteirista experiente, para garantir que a massa tivesse consistência.

Clark, Mary e os corredores da mente

Chiwetel Ejiofor, como o protagonista Clark, garante que alguém de envergadura carregue mais da metade da história com competência. Renate Reinsve, como a terapeuta de Clark, Mary, carrega a outra parte, assumindo protagonismo no eixo final. Ambas as atuações são dignas de ovação. Clark é dono de uma loja de móveis. Um arquiteto profissionalmente frustrado, solitário, que não consegue controlar muito bem sua raiva e que recentemente se separou da esposa, que ficou com a casa que ele trabalhou para pagar. Agora, Clark vive em sua loja de móveis e desabafa com Mary, uma terapeuta que, no comercial da televisão, promete tornar as pessoas melhores versões de si mesmas, mas que guarda traumas profundos de uma infância problemática, em que sua própria mãe tinha transtornos e precisou ser internada.

Em um pequeno espaço da parede do andar de baixo da loja, Clark consegue noclipar para os backrooms. Ou seja, ele atravessa para essa dimensão secreta onde a lógica parece não ter muita vez. Tudo é copiado da realidade, mas de uma forma falhada. Alguns objetos estão fora do lugar, outros parecem faltar pedaços, pessoas aparecem com quatro olhos. São pessoas reais, que ficaram guardadas na memória de alguém de forma imprecisa e acabaram sendo duplicadas pelos backrooms, um ambiente que se alimenta das memórias de quem consegue adentrá-lo.

Quando a memória vira arquitetura

No entanto, há uma força obscura que se move lá dentro e é fatal. Clark pensa ter feito as pazes com esse monstro que vive dentro de si e que foi replicado pelos backrooms, mas as coisas vão se revelar mais complexas quando Mary encontrar a passagem e encarar o lado monstruoso de seu paciente, com o qual Clark pensa poder conviver em paz.

“Backrooms” não revela tudo por trás dos salões labirínticos, porque tenta guardar munição para possíveis continuações. Esteticamente, lembra uma mistura de “Ruptura”, com espaços de escritório infinitos, e “Viveiro”, que transforma realidades em distorções e aberrações. A história dos personagens confunde propositalmente o espectador, porque parece se tratar de alucinações, quando tudo é, na verdade, realidade. Ainda aguardo mais desdobramentos sobre “Backrooms” e possíveis sequências para saber se vale a pena explorar o tema. Até aqui, me sinto satisfeita com o resultado do filme de Parsons.


Filme: Backrooms
Diretor: Kane Parsons
Ano: 2026
Gênero: Ficção Científica/Mistério/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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