Liguei o rádio. Tocava “Lady in red”, de Chris de Burgh. Uma canção antiga, assim como eu, porém, boa. Sentia-me mal. Que diabo de mundo era aquele onde as pessoas tinham parado de dançar de rosto colado, dentre outras cositas más? Se bem que não fazia tanta diferença. Deixara de ser romântico nas primeiras porradas que a vida real me presenteou. Já fazia muito tempo que não me sentia a última Coca-Cola do deserto.
Sintonizei aquela tranqueira radiofônica. Há meses, a antena tinha quebrado. Foi numa noite de esbórnia, quando cheguei ébrio em casa e caí sobre o rádio, sobre a pia, sobre o caralho-a-quatro. Eu ouvia música em qualquer circunstância. Na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença. Por todos os dias da minha vida, até que um norte se me apresentasse. Tirei a roupa. Deitei sobre o tapete do banheiro. Aquela droga pinicava mais que grama cuiabana. Abri a embalagem. Retirei a canopla de plástico. Enfiei a bisnaga no rabo e injetei todo o conteúdo. 130 ml. Conforme orientava a bula. Sentia-me desorientado nos últimos dias. Feliz o homem que tem uma bula com a qual se orientar. Aguardei os cruciais cinco minutos. Bateu aquela vontade. A iminente sensação de que explodiria em segundos sucedeu conforme o previsto. Então, avancei rapidamente como um atacante pelas beiradas e… Vocês sabem. Finito est.
Tomei uma ducha. Passei perfume. Vesti roupa boa, roupa de fazer exame médico sofisticado. Dirigi o carro até a clínica, ouvindo música no 12, só para variar. “Convênio ou particular?”, perguntou a atendente simpática. O mundo estava tomado por mulheres bonitas. Cada uma mais bela que a outra. Parecia uma espécie de pandemia boa. Por que isso, Senhor? Por quê? Informei à atendente que faria o exame pelo plano de saúde. Um plano de saúde mequetrefe, eu supus, tendo em vista que ela torceu o nariz. Era um nariz invulgar, delicado, bem acabado. Pertenceria à anatomia original da moçoila? Tive vontade de perguntar, mas não fui trouxa o bastante. Em seguida, respondi a um interrogatório minucioso, interminável, aplicado por uma enfermeira. Deus abençoe as enfermeiras. Todas vão para o céu; já os médicos, só a metade. “O senhor tem algum tipo de alergia?”. Eu disse que era alérgico a extremistas da direita, em especial, os mais jovens. Nunca tinha visto tanta gente nova propalando discursos conservadores eivados de preconceito, de ódio e de misoginia. Parecia um déjà vu da pior qualidade. A enfermeira sorriu com todos os dentes, com todas as letras, deixando-me não apenas conformado, mas muito mais tranquilo.
Vesti uma camisola descartável. A enfermeira primordial pediu que eu me deitasse sobre a maca do equipamento. Daí, ela quis saber se eu faria o exame com ou sem contraste. Perguntei qual deles era o mais arriscado. Ela respondeu: “Com contraste”. “É nesse que eu vou”, eu disse, tentando me passar por um homem não apenas destemido, mas divertido. Pessoas divertidas levavam vantagem em quase tudo nessa vida, exceto quando postadas de frente a pelotões de fuzilamento. Podia me orgulhar. Eu possuía veias incríveis. Até um cego as puncionaria. “É só uma picadinha”, ela disse, perfurando a pele na dobra do meu cotovelo. Então, recomendou que eu colocasse os tampões de borracha nos ouvidos. “Vou dar um mergulho?”. Dessa vez, ela não riu. Devia estar de saco cheio com o meu inesperado bom humor. “Vamos começar o exame”, avisou.
Alguém acionou o botão. Deslizei para dentro do túnel estreito e barulhento, onde permaneci por alguns minutos. Por incrível que pareça, tanto barulho fez-me dormir. Cheguei a sonhar, vejam só. Só não me lembro com o quê. Detesto esquecer os sonhos, principalmente, os bons. A enfermeira-padrão me acordou, quis saber se eu me sentia bem. Eu respondi que não, mas não era culpa dela, muito menos do aparelho de ressonância magnética. “Deu tudo certo, moça?”. “Deu tudo certo. O senhor já pode se vestir. Cuidado para não deixar nenhum pertence no vestiário. Não nos responsabilizamos por objetos esquecidos”. O alerta fazia sentido, embora a vida, a despeito de parecer boa algumas vezes, não fizesse nenhum.

