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Mort Rainey vai para a casa do lago com a disposição de quem quer deixar a vida em suspensão. Em “A Janela Secreta”, ele é um escritor separado da mulher depois de flagrá-la com outro homem, sem muito apetite para o trabalho, para a higiene da rotina ou para qualquer conversa que exija compostura. A casa deveria lhe dar distância. David Koepp não precisa transformar esse lugar em cenário ameaçador desde a primeira aparição. Basta deixá-lo habitado por hábitos ruins, sono demais, comida improvisada e uma solidão que Mort tenta tratar como descanso.

John Shooter entra nesse espaço sem pedir licença moral. Ele acusa Mort de ter roubado uma história. A situação poderia seguir um caminho simples: procurar uma publicação antiga, conferir datas, apresentar uma prova. Shooter, porém, não aparece como alguém disposto a aceitar uma explicação rápida. Ele volta, exige, encurta as saídas de Mort. Para um escritor que já perdeu o casamento e parece ter perdido também a disciplina mínima para escrever, a acusação não fica restrita ao conto. A pergunta sobre quem publicou primeiro começa a atingir o nome que aparece na página.

Visitas à cabana

John Turturro faz Shooter com uma secura que evita espalhafato. O personagem não precisa de grandes arroubos para ameaçar. Ele aparece com fala dura, postura fixa e uma certeza que antecede qualquer prova. Esse modo de entrar e sair da vida de Mort cria uma rotina de invasão: o escritor tenta explicar, tenta procurar, tenta reagir, mas cada retorno de Shooter diminui um pouco sua autoridade dentro da própria casa. A acusação deixa de ser assunto externo. Passa a circular no sofá, na porta, no quarto, nos papéis que Mort precisa encontrar.

Johnny Depp dá a Mort um abatimento físico que combina com o homem largado à beira do lago. Ele não interpreta o escritor como vítima limpa de um perseguidor estranho. Mort parece irritado antes de ser ameaçado, cansado antes de ser acuado, desorganizado antes que a situação saia de controle. Quando reage, a explosão vem torta, como se a raiva tivesse passado tempo demais guardada num corpo sem descanso. Esse detalhe ajuda a sustentar o interesse pelo personagem mesmo quando o roteiro se aproxima de caminhos familiares do gênero.

Koepp trabalha com poucos ambientes e poucas relações. Amy Rainey, vivida por Maria Bello, e Ted Milner, interpretado por Timothy Hutton, mantêm por perto a humilhação que empurrou Mort para o isolamento. A cabana, então, não vira o refúgio criativo de um escritor ferido. É o lugar para onde ele levou o casamento desfeito, a preguiça, o rancor e uma rotina que não se organiza. Shooter só chega depois, mas encontra um homem já gasto.

Essa concentração dá ao filme seus melhores trechos. Mort precisa provar algo objetivo, mas cada tentativa esbarra numa vida sem ordem. A procura por uma revista antiga, a necessidade de comprovar uma data e as aparições de Shooter formam uma repetição que aperta o espaço sem depender de grandes cenas de ação. A música de Philip Glass e Geoff Zanelli acompanha esse movimento sem transformar toda entrada de Shooter em susto. A fotografia de Fred Murphy e a montagem de Jill Savitt mantêm a casa e seus arredores como lugares de retorno: Mort sai, procura, volta, adia, e a acusação continua ali.

A prova que falta

A origem em Stephen King, na novela “Secret Window, Secret Garden”, oferece uma ideia direta e boa para o cinema: um escritor isolado precisa provar que uma história lhe pertence. Koepp não trata isso como aula sobre literatura, o que favorece o filme. “A Janela Secreta” lida melhor com itens concretos do que com explicações sobre criação. Há um texto, uma data, um acusador, uma ex-mulher, uma casa afastada. O plágio deixa de ser apenas uma falta profissional porque Mort já não parece dono de quase nada em sua vida.

O percurso, porém, carrega sinais conhecidos. O escritor sozinho, o visitante insistente, a mente cansada e a promessa de uma explicação final pertencem a um tipo de suspense que o filme usa sem disfarçar muito. Isso não anula o interesse, mas diminui a surpresa de algumas passagens. A história se inclina demais para a solução que virá, e parte do mal-estar anterior acaba reorganizada para servir ao fechamento. A perda é clara: aquilo que parecia sujo, doméstico e mal resolvido passa a caber numa resposta.

Mesmo assim, “A Janela Secreta” conserva bons motivos para ser revisto. Depp faz Mort parecer sempre um pouco atrasado em relação ao próprio desastre, e esse atraso é mais convincente do que muitas explicações do roteiro. Turturro dá a Shooter um jeito desagradável de homem que já decidiu a sentença. Koepp não aumenta a escala do drama para compensar suas limitações. A casa, os retornos do acusador e a prova ausente bastam para manter o filme em movimento durante boa parte de seus 96 minutos.

A parte mais rica está nos momentos em que Mort tenta defender a autoria de um conto enquanto mal consegue governar o próprio dia. A acusação de Shooter encontra uma vida que já vinha cedendo. Por isso, quando o filme fica perto dos papéis, das visitas, da separação mal digerida e das reações tortas de Mort, ele produz algo mais incômodo que uma charada. Já perto da explicação final, torna-se um suspense mais comum, conduzido com competência, mas menos sugestivo.

“A Janela Secreta” sai melhor quando observado como um thriller de estúdio de alcance médio, com boa atuação central, um acusador eficiente e uma premissa que liga plágio a perda de identidade. Também carrega uma rota previsível e um final que arruma demais a sujeira acumulada. A imagem que permanece é a de Mort Rainey procurando a prova de que uma história é sua dentro da casa escolhida para desaparecer por alguns dias.


Filme: A Janela Secreta
Diretor: David Koepp
Ano: 2003
Gênero: Psicológico/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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