Quem viveu, viu. A geração de Romário, Bebeto, Raí, Branco e Leonardo não era tão glamourizada quanto pregam nos dias de hoje. Olhando para trás, a glória do tetra parecia ser óbvia, diante de uma geração de jogadores aclamados e apaixonados por futebol. Que desleal é o olhar da nostalgia. A saudade mente, assim como a memória engana. Nem tudo eram flores. Como diria meu pai: “O futebol brasileiro está em decadência desde que eu era criança”. Hoje, o homem tem 61 anos. A infância passou há muito tempo. Mas ele tem razão: sempre desfizemos dos nossos jogadores, que nunca estão em sua melhor fase. Sempre são heróis apenas quando se aposentam.
No documentário escrito e dirigido por Luis Ara, o mesmo de “Ronaldinho Gaúcho”, ambos pela Netflix, “Tetra: Acreditar de Novo” recapitula a seleção brasileira desde a década de 1990, quando o Brasil não ganhava uma taça havia mais de 20 anos e ainda diziam que a seleção não tinha paixão. O mesmo papo de hoje. Se Neymar está mais preocupado em ser influencer do que jogador, eu não sei, mas sei que o time do italiano Ancelotti não é formado por jogadores inexperientes ou bobos. Ali tem nome novo bom. “Ah, mas a graça se foi com Ronaldo Nazário, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Roberto Carlos”, dizem eles. Dia desses vi um meme no Instagram falando que “não se fazem mais ‘Enzos’ como Kaká”.
Descrença generalizada
Não sou torcedora que acompanha a liga europeia, ou sequer a brasileira. Não sou lá especialista em novos talentos e muito menos comentarista profissional de futebol. Deixo isso para os aposentados Denílson e Paulo Nunes, que sabem como ninguém as glórias e as mazelas dos campos. O que sou é torcedora amadora. A Copa de 1994 foi minha primeira memória desse torneio mundial. Na minha cabeça, a seleção canarinho vivia dias de louros. Mas Luis Ara desmente minha memória fraca. No documentário da Netflix, ele repassa toda a humilhação, o descrédito e a negatividade dos torcedores e da imprensa.
Parreira foi questionado por levar Branco para aquela Copa, que, inclusive, também se passa nos Estados Unidos, como a atual. O homem estava machucado e só conseguia correr dentro de uma piscina, porque seus pés não tocavam o chão. Mas foram esses mesmos pés que, dias antes, se contorciam de dor e marcaram um gol na fatídica semifinal contra a Holanda. Romário era considerado indisciplinado. Sequer iria para a Copa. Assim como Neymar, foi para confortar os corações dos torcedores e jogou muito. Deu para Bebeto a bola do gol contra a Holanda que deu origem à icônica comemoração balançando o bebê.
O erro que nos concedeu a vitória
As memórias são boas. O sofrimento foi real e só acabou porque Roberto Baggio chutou a bola para a lua. Um exímio cobrador de pênaltis que, por crueldade do destino e uma pincelada de nervosismo, chutou com pé de alface, como diria minha mãe sobre minha mão quando eu sempre deixava algo cair.
Com entrevistas de vários jogadores da época, vídeos caseiros de bastidores e imagens da mídia daquele período, o documentário resgata a verdadeira emoção brasileira em relação ao time: a descrença. Todo mundo falava mal da seleção. E foi nesse clima de completo descrédito que eles fortaleceram seu espírito de equipe e calaram a boca dos críticos. Quem sabe nossa seleção de Endrick, Raphinha, Neymar e Vini Jr. não faça o mesmo? Sorte aos meninos!

