Desenho de  Wendy MacNaughton
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Eberth Vêncio

POR EM 03/02/2012 ÀS 01:41 PM

A pior coisa que já escrevi na vida

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Tamburello... Narcisa tem sobrenome de curva assassina e — graças às vinte e três cirurgias plásticas realizadas com o famoso cirurgião anabolizado Doutor Roliúde  cultivou um corpo também curvilíneo, moldado com vários emiéles de silicone, lipoesculturas que deixariam Michelangelo estupefato e as massagens do Gustavão.

Atenta às tendências consumistas do mercado, às avalanches de lixo dos realiti-chous e às irrelevâncias do viver, aliada ainda a minha evidente falta de criatividade e do que escrever, a Revista Bula escalou este cronista para permanecer 24 horas (sem direito a pedir para sair...) ao lado da mulher rica Narcisa Tamburello (Nota: antes de se casar com o senil e milionário Comendador Apolinário, Narcisa sonhava em ser modelo, escritora, atriz, cantora, bailarina, apresentadora de televisão ou famosa).

Eu preferia ter sido escalado para Alcatraz, Carandiru, As Curvas da Estrada de Santos, ou mesmo para o Congresso Nacional. Mas, como os dois primeiros já estão desativados, Roberto Carlos não abre mão dos direitos autorais, o Congresso é muito perigoso, e eu precisava de dinheiro para comprar meus antidepressivos, aceitei encarar mais esta pedreira. Se eu fui capaz de ler o livro do Eique Batista até o final, por que não poderia enfrentar uma realiti-crônica com aquela socialiate? Então, com vocês, um meu dia desperdiçado ao lado mulher rica Narcisa Tamburello.  


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POR EM 27/01/2012 ÀS 12:17 PM

Saiu do cinema pra comprar pipoca e nunca mais voltou

publicado em

Confesso que não vou muito ao cinema. E não o faço por vários motivos, dentre os quais, o frio que eu sinto dentro das salas de projeção (meu corpo magricelo não suporta o ar congelante) e a pipoca cara à beça (por acaso, utilizam milho transgênico importado dos esteites ou manteiga de leite de cabras montesas dos Alpes suíços?). 

A alta tecnologia provoca em mim outro entrave gravíssimo: os filmesem três-dê. Bastacolocar os óculos na cara para começar a vertigem, mãos frias e a sudorese. São reações físico-emocionais de um careta, sem dúvida. Cruéis, meus filhos riem de mim. 

Há outros transtornos pouco relevantes que também me afugentam, como o medo de tropeçar no escuro e me estatelar no chão carpetado. Prefiro não arriscar, então sofro com a bexiga cheia. Ser obrigado a comentar o filme através de cochichos ao pé do ouvido, para não incomodar as outras pessoas, é outro grave desafio. Na sala de casa a verbalização é livre. Além do mais, quem fica com o controle remoto nas mãos sou eu. Porém, verdadeiramente, o que mais me repele dos cinemas é o risco de cair em ciladas.com, como aquela do Bruno Mazzeo em 2011.  Em quarenta e seis anos de vida, somente duas ocasiões eu presenciei a saída de pessoas de uma sala de cinema, antes que o filme chegasse ao fim. Na primeira vez, fui eu próprio o protagonista, juntamente com um colega da escola. Apesar de moleques, penetramos (Sem duplo sentido, por favor! Não sou Marcelo Madureira! Não sou Hubert! Não sou um casseta! Não quero cansá-los!) num filme pornográfico do antigo Cine Casablanca, no centro da cidade.  


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POR EM 20/01/2012 ÀS 10:53 AM

Até Obama se rende ao sucesso de Michel Teló

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“Engulam: os Estados Unidos mandaram o homem à lua, e nós enviamos o nosso homem para falar com o Obama!”. Foi com estas palavras, sentado em sua cadeira reclinável de tecido puído, com os pés cruzados sobre a mesa, os cantos da boca espumando como um cão raivoso, que o editor da Revista Bula provocava um concorrente da imprensa, vangloriando-se pela entrevista que Obama concedera a mim em Nova Iorque. 

Quando a gente conta, o povo nem acredita: “Como assim, você e o... Obama?!”. Como diria Katilaine Suellen (cujo nome no érre-ge é Maria Aparecida da Silva), estriper da gaiola de número 3 do Buraco Azul Entretenimentos: “A vida é feita de contatos, tigrão. Relacionamento é tudo. Com uma agendinha azul nas mãos se vai longe, gracinha”. É de fazer muitos deputados federais tremerem nas bases. 

Nova Iorque é realmente uma metrópole incrível, por mais que ativistas antiamericanos queimem bandeiras ianques e jurem o contrário. Ela cheira à modernidade. Multidões entopem as calçadas falando dialetos do mundo inteiro. Uma mescla de cultura, alta tecnologia e consumismo desmedido. “O que mais te impressionou em Nova Iorque?”, foi a segunda pergunta que me fez o editor quando retornei ao Brasil (a primeira foi: “sobrou algum dólar, meu chapa?”). Há tempos eu ansiava conhecer Nova Iorque, única cidade estadunidense que apetecia o meu apetite turístico. Cético não curto diversão e fantasia. Portanto, cassinos e disneilandias jamais frequentaram a minha lista de destinos prováveis. Para subir na vida é necessário nascer rico, usar uma escada ou participar de algum esquema mensalão. Tem um jeito muito mais custoso no qual se depende muito da sorte: trabalhar duro. Então, quebrando alguns porquinhos de porcelana e vendendo rifas honestas para os amigos e familiares durante todo o ano de 2011, a Revista Bula conseguiu arrematar um pacote de três noites, a ser pago em doze parcelas, para este abnegado cronista. 


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POR EM 13/01/2012 ÀS 11:24 AM

gentefajuta.com.br

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“Que fase...” É o comentário corrente que tenho ouvido dos companheiros de peladinhas aos sábados. Não. Não tenho frequentando os fuleiros churrascos vespertinos baratos à beira da piscina lotada de “universitárias desinibas”. Nunca fui muito afeito aos prostíbulos e não será agora, aterrorizado pela Crise dos Quarenta, que o farei. 

Quando digo “peladinhas”, refiro-me ao clássico futebol praticado com os amigos nas tardes de sábado. Com o avanço da idade, o corpo já não acompanha, em tempo hábil, os comandos da mente. Daí os maus tratos à bola, as furadas bisonhas na zaga, as padeiradas na meia cancha, e os incríveis gols perdidos embaixo das traves. Sobrevivendo com a fama de craque do passado, insisto em enervar os peladeiros com os meus dribles incompreensíveis. 

Falando em “fase ruim”, parece que atravessamos um dos períodos mais obscuros da história brasileira, no tocante aos valores, a dar o devido crédito a quem de fato o merece. Estarei me tornando um crítico deveras implicante ou estamos mesmo vivendo uma era de quase completa inversão de valores éticos e morais no país? Por exemplo, enquanto pipocavam fogos de artifício no céu chuvoso por conta das farras do reveiom, e motoristas absolutamente embriagados choferavam pelas ruas da capital sem serem importunados pelos paladinos da lei (excesso de espírito natalino, preguiça, negligência da autoridade de trânsito ou “ordens superiores”?!), um episódio grotesco ocorria num dos mais importantes hospitais públicos da cidade.  


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POR EM 06/01/2012 ÀS 03:13 PM

Oração de um homem gentil

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Como eu já suspeitava, repercutiram mal, entre alguns leitores, os textos que eu escrevi a respeito do Natal e do Ano Novo. Neste Natal, vá se lascar! e Coisas que não fiz neste ano e, com certeza, não farei no próximo. Terrorismo da palavra, creiam. Ou falta de paciência com o consumismo. Ou simples falta de inspiração do que escrever. 

Acostumados a levarem as suas vidas e as dos outros muito a sério, a se prenderem mais às linhas do que às entrelinhas, alguns leitores declararam-se abismados, preocupados ou mesmo indignados com tamanha grosseria nas minhas agudas crônicas natalinas. “Tanto rancor não lhe cai bem, meu chapa”, diagnosticou um amigo não-médico, sem recomendar um padre, um chá, uma pílula ou um livro sequer. 

Portanto, na minha tarefa impertinente de levar a dúvida onde houver a fé, quase sempre desagradando gregos, troianos e paroquianos, concebi uma paródia (os mal humorados haverão de considerar uma blasfêmia), uma vez que a inspiração minguou, a Rita levou o meu sorriso e meu nome foi parar no Serasa. Vocês nem imaginam: tirar o nome da gente de listas negras é uma tarefa inglória. Rogo, portanto, aos gregos e aos troianos, aos flamenguistas e aos corintianos, aos puritanos e aos que tomam sais de lítio duas vezes ao dia por tempo indeterminado que perdoem os meus excessos, assim como fez Jesus à cantora Madonna. Afinal, Natal é época de perdão. 


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POR EM 29/12/2011 ÀS 01:00 PM

Coisas que não fiz neste ano e, com certeza, não farei no próximo

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Parar com esta mania chata de fazer listas.

Cumprir nem metade do planejamento estratégico.

Deixar de escrever pra Revista Bula.

Amar o próximo como a mim mesmo. Eu não faria uma sacanagem desta com o próximo.

Conjugar o verbo amar com a mesma naturalidade que faço com o verbo comer.

Aprender a tocar sax. Nesta idade, não tenho mais fôlego para tanto. Quem sabe, uma gaita ou um apito de caçar marrecos.

Caçar marrecos. Atirar num pássaro. Manter algum deles preso numa gaiola.

Compreender a mente de uma mulher e como funciona uma torre de controle do tráfego aéreo de um aeroporto como o de Miami.

Simplesmente aceitar que as pessoas mentem mesmo, que tudo isto é normal, meu chapa.

Jogar moedas na mão de um pobre coitado. Lavar as mãos.

Molhar a mão de um guarda de trânsito. Prefiro a multa.


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POR EM 23/12/2011 ÀS 05:13 PM

Neste Natal, vá se lascar!

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Para início de conversa, eu espero que lhe seja sorteado como “amigo oculto” o nome daquela cunhada que você mais odeia. Sim, porque, cá entre nós, tem muita gente na família que você não suporta de jeito nenhum, não é mesmo? Aguenta só porque é parente, né verdade? 

O mais hilário para mim (e dramático para você) será que, nas negociações de bastidores, ninguém aceitará “trocar os papeizinhos”, pelo simples fato de a tal cunhada ser mesmo uma megera, uma das figurinhas mais impopulares no clã, uma criatura tão pouco palatável quanto você. Já vai pensando aí no vocabulário prolixo-falacioso (os elogios falsos) que vai vomitar na “grande revelação” (como se todos ainda não soubessem que você mente à beça...). 

Mesmo com sorrisos congelados nas caras, a maioria dos convivas vai lhe considerar um pouquinho mais hipócrita que o habitual. Poucas vezes se ouviu tamanha enganação. Quer saber o que mais? O seu outro “amigo oculto” vai lhe presentear com um CD de música erudita. Só pra contrariar as suas duvidosas preferências musicais que flutuam entre o fanque-poposudo e o téquino-brega-vagino-uterino. Outro ponto máximo da sua atuação naquela noite, do seu desvelo em metamorfosear, transmutar, parecer quem não se é, será o momento da oração ao redor da mesa, quando movidos pelo empurrãozinho de um ancião, todos forem convidados (praticamente intimados, diga-se) a darem as mãos formando uma grande corrente. Sem exagero: bem que poderiam enforcá-lo com a tal corrente... 


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POR EM 16/12/2011 ÀS 02:21 PM

Pipere on culus de allis, refrigerium est*

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Era um homem sem estudos, mas não era um sem vergonha. Antigamente, funcionava assim mesmo: a maioria das pessoas sofria, tinha um interesse medular, nevrálgico, irremovível em manter a dignidade e a própria honra. Hoje em dia, de dólar na cueca pra baixo, há todo tipo de canalhice. 

Conservador e apegado aos ditames de outrora, ele acreditava piamente que o trabalho enobrecia o homem. Então, trabalhava. Mesmo aposentado, trabalhava. Queria não depender dos filhos, dos genros, das noras, dos netos, das merrecas do INSS e das esmolas do governo. De tal forma que preferia não mendigar as tais bolsas assistencialistas. Já estava decidido a trabalhar enquanto suportasse. Se possível, até morrer. 

Pobre estuda pouco, vocês sabem. Então ele estudou o tempo suficiente só para aprender a desenhar o nome e reconhecer os numerais. O básico da aritmética, das operações de somar e subtrair, ele também deu um jeito de aprender, que era pra contar dinheiro corretamente e evitar que alguém lhe passasse a perna. 

Certo dia, um político candidato bateu palmas no portão da sua casa, sorriu até dar cãibra no rosto, filou café, pediu votos à família e ofereceu emprego fixo pra ele no Posto de Saúde do bairro, perto do terminal de ônibus. “Salário mínimo. Nunca antes na história deste país o salário mínimo esteve tão valorizado. Quase 300 dólares. E é contrato especial, meu chapa. Tenho os canais. Sou amigo do prefeito, da Primeira Dama, do Chefe de Gabinete, do Secretário da Saúde, do...”, ele se gabava e babava. 


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POR EM 09/12/2011 ÀS 12:23 PM

A morte de Sócrates e do futebol arte

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Pode-se colecionar um bocado de decepções nessa vida. No sexo, amor, amizade, família, carreira, religião, política... Muitas vezes, de onde (ou de quem) menos se espera, brota o desapontamento, a desilusão. C’est la vie, mon cheri. 

Uma das mais marcantes decepções que sofri foi acompanhar a derrocada da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo da Espanha, em 1982. “Ih... Vai falar de futebol, meu chapa?!”. Vou sim. Quero dizer, mais ou menos. 

E então: pouquíssimos torcedores brasileiros acreditavam, mas o Brasil foi liquidado pela esquadra azurra comandada pelo atacante Paolo Rossi. O sujeito meteu três gols em Waldir Perez. 

Muitos de vocês vão torcer o nariz e propalar: “Ora, futebol é apenas um jogo, rapá...”. Concordo. Mas, à época da tragédia no Estádio Sarriá, eu contava 17 anos de idade, ou seja, além de um monte de espinhas no rosto (e calos nas mãos), eu curtia dores de cotovelo, às escondidas, ouvindo na vitrola a coletânea de vinil do meu pai, que tocava baladas melosas como “Your song”, de Elton John; e “Raindrops keep falling on my head”, de B. J. Thomas. Alto lá, leitores gays! Não se animem tanto assim! Não sou gay, mas também não sou homofóbico. Continuamos amiguinhos?! Então, tá. Voltemos ao texto e a Espanha. Já-já eu chego ao Sócrates. 


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POR EM 02/12/2011 ÀS 01:10 PM

Acima de tudo, falta um bocado de vergonha

publicado em

Naqueles dias, o que se ouvia, o que se constatava, e o que a imprensa não-comprada (ou seria não-vendida?!) noticiava em seus jornais diários é que faltavam médicos, remédios, luvas, sabões, tomografia, investimentos, gestão e vergonha das autoridades. Sobravam sofrimento e indignação. 

Mesmo assim, ela pediu à enfermeira um pouco mais de água fresca para terminar de dar banho no rapaz. O quarto era quente, sem ventilação, apresentava manchas de mofo no teto, ferrugem no mobiliário, resultado de infiltrações antigas no telhado e da falta de manutenção. 

Afinal, era uma enfermaria de um hospital do SUS. E vocês sabem o quão irrisórios sempre foram e são os investimentos governamentais na área da saúde pública. Quantos burocratas adoecidos e parlamentares pitimbados procuram os hospitais públicos a fim de serem cuidados? Só serve se for no Einstein ou no Sírio Libanês, gracinha. 

Você já permaneceu em pé num caótico pronto-socorro, durante horas a fio, esperando o atendimento médico a um ente querido? Meu chapa, isto se trata de uma indignidade, uma afronta, uma situação absolutamente inaceitável, a não ser que se esteja vivendo num cenário de guerra ou de desordem social plena (anarquia). Portanto, o raciocínio dos gestores públicos é, ao mesmo tempo, paradoxal e espúrio. Porque sem saúde somos quase nada. Ou seja, primariamente, todos os governos deveriam focar os seus investimentos na saúde e no bem estar do cidadão. Se sobrar dinheiro proveniente dos escorchantes impostos arrecadados (e sempre sobra grana para se torrar com alguma propaganda estatal e bandalheiras), investe-se em todo o resto. 


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