Quando visitei o Museu do Túnel de Sarajevo, onde está preservado trecho da então secreta passagem subterrânea que possibilitou um abastecimento mínimo da cidade durante o longo cerco dos anos 1990, fiquei muito emocionado ao saber que, na falta de ter lenha ou combustível para queimar a fim de conseguirem se aquecer durante os penosos invernos, muitos bósnios precisaram recorrer até mesmo aos livros de casa.
Apegado que sou a esses conjuntos de páginas encadernadas, aquilo me doeu. Imediatamente pensei nos tantos exemplares ao meu redor aqui no escritório de onde trabalho.
Por vezes, recebo visitantes. São amigos que, curiosos, se espantam ao verem todas as paredes escondidas por lombadas coloridas. Tecem elogios ao ambiente — envaideço-me, admito. Encantam-se. Alguns reconhecem autores, ainda que o idioma não lhes seja nada familiar.
Estimo que cerca de 75% da coleção sejam em língua portuguesa, o que talvez deva fazer deste modesto acervo, minha companhia diuturna, forte candidato ao posto de maior biblioteca lusófona localizada nos países formados após a dissolução da Iugoslávia. Se no Brasil eu jamais poderia chegar aos pés de um Mindlin da vida, o inconsciente me trouxe a uma terra de improváveis concorrentes no segmento.
Os visitantes costumam fazer perguntas. Querem saber se já li todos — como se fosse necessário. Querem saber qual o meu preferido — como se fosse possível eleger dentre filhos um mais estimado. Querem saber como foi trazê-los de tão longe, se em dezenas de malas ou de carona em algum contêiner pelo Atlântico.
No segundo semestre de 2017, era emocionado e triste que eu esvaziava minhas estantes na Rua Cunha Gago, em Pinheiros, e tentava acondicionar o máximo possível de livros em caixas de segunda mão, papelões onde se podia ler o nome de marcas de prateleiras de supermercado. Depois, com canetão, escrevia um número e passava fita crepe.
Tenho até hoje o arquivo no computador com a legenda. Caixa 42, livros do Machado de Assis; caixa 13, dicionários e biografias; 18, Chico Buarque, Saramago e Ubaldo Ribeiro; 29, infantis e cinco volumes da “Barsa”; 30, o resto da “Barsa”; caixa 6, Stephen King e Agatha Christie.
No primeiro semestre de 2023, era emocionado e feliz que eu esvaziava as caixas aqui no vilarejo esloveno onde moro e começava a povoar de livros as bonitas estantes desenhadas pelo arquiteto brasileiro Henrique de Carvalho e executadas por um marceneiro sérvio.
Começava. Porque, na vida de um bibliófilo, coleção só termina com o ponto final chamado morte.

