Ando sem paciência com os extremos. Seriam ruídos da acirrada disputa eleitoral dos últimos dias? Fui votar no final da manhã. Havia uma longa fila na minha seção eleitoral. Perguntei à recepcionista tem uma fila preferencial. Ela disse sim e perguntou você é 60 Mais. A pergunta encheu-me de orgulho. Se suscitava dúvidas etárias na sua cabecinha, a minha carenagem, a minha carcaça física, não estava tão detonada quanto eu imaginava. Ela disse pode esperar aí mesmo, o próximo a ser chamado será o senhor. Ela estragou tudo.
Percebi que algumas das pessoas perfiladas começaram a espichar o pescoço para checar a situação. Certamente, resmungavam pelo fato de eu ter “furado a fila”. Bem à minha frente, esperava a vez de votar uma mulher branca, alta, esguia, torneada, de idade indefinida, que mais parecia comida processada ou a estátua de mármore de uma deusa grega vestida com a camisa amarela da seleção brasileira de futebol. Apesar de ser um bocó, notei que ela usava óculos de grife e tinha os lábios protrusos, desproporcionais. Cheguei a cogitar que ela tivesse tomado ferroada de marimbondo na boca. Eu disse bom dia e ela respondeu qual a sua idade. Eu disse 61, mas a moça — ou seria uma senhora após lanternagem e pintura? — nada comentou. O rosto rígido, talhado por algum esculápio perfeccionista, parecia paralítico feito uma pedra-pomes.
Por fim, antes que a fila andasse, ela perguntou em quem você vai votar para presidente. Eu disse o voto é secreto, prefiro não revelar. Ela disse aposto que você vai votar no Nove Dedos, você tem cara de quem vota no Nove Dedos. E disse mais faz meia hora que estou esperando nessa merda de fila que nem uma palhaça. Eu disse sinto muito, minha senhora, parece que a gente escolheu o pior horário do dia para vir votar. Ela ficou puta da vida por ter sido chamada de minha senhora e disse vamos tirar essa corja do poder. Fiquei matutando que corja seria aquela. A fila andou e fui conduzido até os mesários, que foram cordiais e simpáticos, como sempre acontecia naquele colégio. Votei no candidato da minha predileção, mais rápido que a pimbada de um galo-garnisé. Não insistam: eu não vou contar em quem votei para presidente.
Enquanto dirigia para casa, ouvia pelo rádio a divulgação de uma clínica médica especializada em estética masculina. Os homens andavam vaidosos nos últimos tempos; e eu, largado, como sempre. A propaganda falava sobre falos, ejaculação precoce, impotência sexual e um tal preenchimento peniano. A minha vida inteira tive pinto pequeno. Não riam, leitores, senão eu declamo um poema da minha lavra. Só tinha revelado a minha insignificância fálica para o frei Damiani, um pedófilo tarimbado, durante uma confissão compulsória, quando fiz a Primeira Comunhão, no século passado. Sim, eu sou mais velho do que votar agachado.
Desde a adolescência, eu tinha a convicção de que fora sacaneado por Deus no quesito dotes genitais. Fiquei matutando como é que preencheriam o pênis de uma vítima naquela clínica. Antigamente, muito antigamente, quando eu era um assíduo leitor de fotografias de revistas pornográficas, existia a divulgação de equipamentos supimpas, moderníssimos, utilizados para crescer o pênis de sujeitos mal dotados. Era um equipamento tubular, tipo um tubo de ensaio, tipo um narguilé, no qual o usuário introduzia o falo muxibento dentro do receptáculo e bombeava com uma pera de borracha, até que o órgão tímido e combalido reagisse, atingindo o calibre desejado. Grosso modo, funcionava como se fora a câmara de ar do pneu de uma bicicleta na borracharia. Seria possível explodir a rola de um indivíduo malversando aquela engenhoca?
Sentia-me sorumbático, com a mente preenchida por maus presságios. De acordo com as últimas pesquisas, o candidato da minha preferência estava cotado para tomar uma tunda nas urnas, perdendo as eleições, nem que fosse por um beicinho de pulga — lembrei-me logo da patriota beiçuda que estava uniformizada com a camisa da abjeta Confederação Brasileira de Futebol. Toquei o restante do domingo no modo avião. Para poupar saúde mental, estava decidido a não acompanhar a apuração dos votos, ao vivo, pela TV. O projeto seguia bem até que o vizinho da esquerda colocou para tocar o jingle de campanha do meu candidato, em altíssimos decibéis. Pensei esse cara tá de sacanagem.
Saltei da poltrona, corri para o quintal, subi num treco e dei uma espiadela no quintal do vizinho, que sempre parecia mais verde do que o meu. Havia cerca de trinta pessoas bebendo, cantando, dançando, chorando, se abraçando e se divertindo, enfim. A cena estava comovente. Fui flagrado pela dona da casa e ela disse pula pra cá, amigo, a gente vai vencer essa eleição. Fazia muito tempo que eu não me sentia tão feliz; quatro anos, para ser mais exato, desde o último pleito eleitoral. Peguei a minha gata e caímos na gandaia. Sentia a mente gradualmente preenchida pelo álcool e pela esperança num país melhor; quiçá, num mundo mais inclusivo e menos injusto. A vitória finalmente se confirmou e, com ela, a indescritível sensação de alívio que salvara o meu domingo. A empolgação foi tanta que até pensei em preencher o meu pênis. Só que não.

