A vida noturna anda xarope. Que nem eu. Eu gosto de música. Eu gosto de boteco. Eu gosto de frequentar boteco que ofereça música ao vivo. Houve uma época áurea — ô tempo bão, sô! — em que todo barzinho tinha um cara fazendo voz e violão. Às vezes, tinha até banda completa com violão, contrabaixo, teclado e percussão. Um luxo.
A intransigência e o rigor das leis municipais nos últimos anos afastaram os músicos dos bares e restaurantes. A boemia morreu? Se não morreu, ficou mais comedida, silenciosa, estéril, sem graça e sem bacilos. Aliás, muita gente sequer conhece o significado do termo boemia. Só mesmo dando um Google para descobrir. Foi assim, dando Googles por aí — eu dispenso os duplos sentidos, por gentileza — que descobri um restaurante bacana — alguém aí sabe o significado de bacana? — num bairro periférico, que serve comida típica, preparada na trempe do fogão caipira. Não bastasse a gostosura do cardápio, o estabelecimento ainda ofertava música ao vivo da melhor qualidade: samba, pagode, MPB e pop-rock.
A onda de cervejas sem glúten, de baixa caloria, não para de crescer. Assim como a minha cintura abdominal, mesmo sendo magricelo. Essas belezinhas até que são bem palatáveis. Pedi uma gelada ao garçom e ele logo percebeu que eu vestia uma camiseta com a tradicional foto dos Beatles atravessando a faixa de pedestres na Abbey Road, em Londres.
— O senhor gosta dos Beatles?
— Qual é o seu nome, meu jovem?
— Kelvin.
— Oi, Kelvin. Por favor, me ajuda, não me chama de senhor.
O rapaz gargalhou.
— Desculpa. É uma questão de respeito aos mais velhos.
— Kelvin, você está piorando as coisas. Quer que eu saia?
— Perdão. Não vai se repetir. Você gosta dos Beatles?
— Não. Eu não gosto dos Beatles. Eu amo os Beatles. Na verdade, já faz tempo que me tornei um maníaco, um maníaco comportado, mas, ainda assim, um maníaco. Não confunda maníaco com fanático. Fanáticos querem te fazer acreditar, seguir e gostar das mesmas coisas que eles gostam, tipo enfiar goela abaixo. É outra esfera psíquica. Sacou a diferença, Kelvin?
— Sim. Claro. Eu também sou muito fã deles. É a minha banda predileta.
— Quantos anos você tem, Kelvin?
— Vinte.
— Sensacional.
— Não entendi, senhor.
— Hein?!
— Opa. Foi mal. Qual é o seu nome, por gentileza?
— Me chamam de muitos nomes feios por aí, Kelvin. Você não ia gostar de saber. Mas o meu nome de batismo é Eberth.
— Eberth com agá no início?
— Eberth com agá no final, depois do tê. Invencionice de pobre, sabe como é. Meu pai tinha ambições.
O rapaz sorriu enquanto enchia o copo de cerveja.
— Vou facilitar a sua vida. Você pode me chamar de Ebinho, Kelvin. Eu gosto de escutar o meu nome pronunciado no diminutivo. Coisas de jogador de pelada, sabe como é.
— Por que você disse “sensacional” quando eu falei que era fã da banda?
— Porque você me surpreendeu, Kelvin. Você e algumas pessoas iluminadas da sua geração continuam a ouvir, a curtir e a propagar a obra da melhor banda de rock de todos os tempos. Sabia que muitos jovens sequer ouvem rock and roll? Muitos nunca ouviram falar em Beatles, Stones, Led Zeppelin etc.?
— Tá zoando…
— Falo sério, Kelvin. O mundo tá esquisito.
— Foi o meu pai quem me apresentou a banda. Acho que eu curto eles desde que comecei a engatinhar.
— Um brinde ao seu pai, então, um bom homem.
— De qual álbum você mais gosta, Ebinho?
— Huuummmm… Essa pergunta sempre me deixa num mato sem cachorro.
— Para mim, é “Revolver”.
— Boa escolha. “Revolver” é um excelente álbum.
— Vamos lá. Se você tivesse que escolher apenas um, qual seria?
— Já que você insiste, eu fico com “Abbey Road”.
— “Abbey Road” é foda. Desculpa o palavrão, Ebinho. Eu fico muito empolgado sempre que eu falo sobre os Beatles. O lado B é genial. “She came in through the bathroom window”, do Paul, é do caralho. O medley, no final do disco, então, é a cereja do bolo.
Eu ainda não estava nem perto de me embriagar e, mesmo assim, já me sentia suficientemente revigorado com a empolgação do atendente. Pensei que precisava escrever sobre aquele inusitado encontro. E escrevi. É claro que precisei anotar a ideia num guardanapo para não me esquecer mais tarde. Que fase, senhoras e senhores… Que fase…
— E quem é o seu beatle predileto?
— Perguntas difíceis demais para um almoço de domingo, não acha, Kelvin?
O rapaz sorriu novamente.
— Eu gosto muito do John Lennon. Meu pai quase botou esse nome em mim, acredita? Acho que eu gosto dele porque era rebelde, tipo bad boy, saca?
Ele falava como se tivesse a minha idade.
— Eu também gosto do John. Quando o bosta do Chapman atirou nele, eu tinha quinze anos. Foi bem traumático. Fiquei ruim vários dias.
— O assassino continua preso.
— Sim. Se dependesse de mim, já teria soltado esse sujeito. Acho que ele já puxou cana o suficiente. Na época do crime, ele estava meio perdido, meio aloprado, sabe como é. Saúde mental é uma coisa complicada.
— É verdade.
— Durante muito tempo, eu elegi John Lennon como o meu preferido. Até aprofundar as minhas leituras e as minhas pesquisas sobre a vida privada e a obra musical de Paul McCartney e de George Harrison. A morte levou John e George muito cedo. Isso atrapalhou as coisas. Fico pensando o que esses caras diriam sobre esse mundo maluco, se ainda estivessem vivos.
— Tem razão, Ebinho.
— Com Paul McCartney, o buraco é mais embaixo. Paul continua lúcido, vigoroso, producente. Um verdadeiro fenômeno. O velhinho é porreta.
— E quanto ao Ringo?
— Ringo Starr foi um ótimo baterista. Como cantor e compositor, ele engana bem os beatlemaníacos. Não dá pra negar que ele possui um baita carisma. Esses caras se completavam. Seriam impensáveis os Beatles sem o Ringo.
— E a Yoko?
— O que tem a Yoko?
— Ela foi mesmo a responsável pela separação da banda?
— Não. Nada disso. Pegaram ela para Cristo. Quando ela começou a xeretar nos estúdios, a convite do John, o clima entre os caras já estava deteriorado. Yoko foi a pá de cal e nada mais. A japa é inocente, Kelvin.
— Você acha que a música deles é eterna?
— Eternidade é tempo à beça, meu caro.
— Até quando você acha que as pessoas vão ouvir as canções dos Beatles?
— Cara, já me fiz essa pergunta algumas vezes. Eu creio que essa admiração será ainda mais longeva. Que nem ouvir Mozart, Bach, Beethoven e os outros gênios da música clássica mundial. Para alguns, pode soar pedante, exagerado, conversinha de fã “bitlelado”, mas é fato que eles mudaram o cenário cultural do planeta e se tornaram atemporais. Veja você, por exemplo: tão jovem e já fascinado pelos Beatles. Acho que eles detêm um estofo musical para continuar a ser ouvidos por muito tempo ainda, pelo menos enquanto houver gente interessada em música de qualidade.
— Desculpa. Eu preciso atender as outras mesas. Foi um prazer conversar com o senhor, ou melhor, conversar com você. Aproveite o almoço. Se precisar de mais alguma coisa, me chama.
— Obrigado pela conversa, Kelvin. Alegrou o meu domingo. Continue a tratar os clientes com carinho e com real interesse. Porque, como canta Paul McCartney, em “The end”, a penúltima canção do “Abbey Road”: “No final das contas, o amor que você recebe é igual ao amor que você dá”.
— Posso te trazer outra cerveja?
— Isso me faria imensamente feliz, meu jovem.
Kelvin sorriu e saiu apressado, agarrado a sua bandeja.

