A estreia de “Valor Sentimental” em Cannes terminou com 19 minutos de aplausos de pé, segundo o Instituto Norueguês de Cinema. O drama de Joachim Trier também ganhou o Grand Prix do festival em 2025 e está na MUBI, com Renate Reinsve, Stellan Skarsgård e Elle Fanning.
Valor Sentimental (2025)
A recepção ajuda a dimensionar o interesse pelo filme, mas os aplausos têm uma data e um contexto: a sessão de estreia mundial, em maio de 2025. O Grand Prix veio na premiação da mesma edição. São dois sinais diferentes de reconhecimento, um da plateia daquela sessão e outro do júri, para um trabalho que aproxima criação artística e ressentimento familiar.
Trier acompanha as irmãs Nora e Agnes quando o pai, Gustav, retorna ao convívio delas. Cineasta que já viveu dias de maior prestígio, ele oferece a Nora, atriz de teatro, um papel em seu próximo filme. Ela recusa. A participação acaba nas mãos de uma jovem estrela americana, cuja chegada acrescenta uma pessoa de fora a uma história familiar cheia de lacunas.
Renate Reinsve interpreta Nora, Inga Ibsdotter Lilleaas vive Agnes, Stellan Skarsgård é Gustav e Elle Fanning assume o papel de Rachel. Essa distribuição cria um contraste interessante entre pertencimento e representação. Quem conhece uma família por dentro pode resistir à versão que ela conta de si; alguém recém-chegado talvez encontre justamente nessa versão a promessa de um grande trabalho.
O roteiro, assinado por Trier e Eskil Vogt, propõe uma questão incômoda: transformar a experiência em arte também pode ser uma maneira de controlar sua memória. Um pai tem o direito de narrar a vida das filhas? Uma oferta profissional pode funcionar como pedido de aproximação? A premissa permite que essas perguntas coexistam, sem que o prestígio do artista quite automaticamente suas dívidas afetivas.
Para quem conheceu Trier por “A Pior Pessoa do Mundo”, o novo encontro com Reinsve é um convite evidente. “Valor Sentimental” interessa também a espectadores de dramas de família que preferem conflitos de convivência a grandes explicações. Na MUBI, vale reservar a sessão para esse confronto entre o que se consegue encenar e o que ainda é difícil dizer diretamente a outra pessoa.

