Um celular, um mercado de Taipei e a colaboração de Sean Baker: “A Garota Canhota” chegou à Netflix com uma combinação pouco convencional. A direção é de Shih-Ching Tsou, que transforma lembranças de infância em um drama atravessado por humor e tensões familiares.
A Garota Canhota (2025)
O detalhe do iPhone ajuda a entender o filme. Shih-Ching Tsou precisava acompanhar uma criança em ruas cheias e filmar entre comerciantes sem interromper a circulação. Em entrevista ao Film Festival Today, contou que a equipe trabalhou com quatro aparelhos iPhone 13 Pro Max, além de acessórios e lentes. A pequena câmera era uma solução para entrar naquele mundo com liberdade.
A história acompanha Shu-Fen, uma mãe que retorna a Taipei com as filhas I-Ann e I-Jing. O trabalho em uma barraca de mercado noturno sustenta a tentativa de reorganizar a vida. A mais nova, de cinco anos, explora o bairro enquanto a mãe e a irmã enfrentam suas próprias dificuldades. Quando o avô condena o uso da mão esquerda da menina, uma superstição passa a interferir na maneira como ela entende a si mesma.
Há uma crueldade particular em ensinar uma criança a desconfiar do próprio corpo. É por essa porta estreita que o drama chega às hierarquias familiares: quem pode impor uma regra, quem precisa se adaptar e quem recebe a culpa quando algo sai errado. O título parece anunciar uma característica individual, mas aponta para uma educação que distribui liberdades de maneira desigual.
Sean Baker, vencedor de quatro Oscars por “Anora”, assina o roteiro com Tsou, além da produção e da montagem. A parceria remonta a “Take Out”, que ambos dirigiram. Aqui, porém, o comando da filmagem é dela. Reconhecer essa diferença permite enxergar a experiência da cineasta taiwanesa e o interesse por mulheres de gerações distintas, sem reduzir o trabalho ao nome mais conhecido dos créditos.
Janel Tsai, Shih-Yuan Ma e Nina Ye formam o núcleo do elenco. A estreia do longa na Semana da Crítica de Cannes ampliou sua circulação internacional, mas sua porta de entrada continua acessível: uma família tentando pagar as contas e conviver. Para quem procura um drama urbano com espaço para a curiosidade infantil, “A Garota Canhota” oferece uma mudança de cenário e de perspectiva na Netflix.

