Mike Flanagan reuniu contos e poemas de Edgar Allan Poe nos oito episódios de “A Queda da Casa de Usher”, na Netflix. A adaptação transporta o escritor do século 19 para um império empresarial contemporâneo, onde fortuna e proteção familiar começam a perder o valor.
A Queda da Casa de Usher (2023)
Roderick e Madeline Usher construíram um poderoso negócio farmacêutico. O patrimônio atravessa a vida de seus herdeiros, que disputam espaço dentro da família e esperam participar de seu futuro. Uma sequência de mortes misteriosas rompe a segurança desse mundo. Enquanto a dinastia tenta compreender o que está acontecendo, decisões antigas voltam a exigir atenção, e o dinheiro deixa de funcionar como a resposta disponível para qualquer problema.
A série toma o título de um conto de Poe, mas sua relação com o escritor se espalha por outras histórias e poemas. O resultado interessa mesmo a quem nunca leu esses textos: os episódios funcionam dentro do drama familiar, sem exigir que o público reconheça cada referência. Para os leitores, existe ainda o prazer de acompanhar a transformação de imagens literárias em situações contemporâneas.
Bruce Greenwood e Mary McDonnell ocupam o centro do poder dos Usher, enquanto Carla Gugino participa da dimensão inquietante que invade seus planos. A escolha de uma família riquíssima dá ao horror uma condição particular. São personagens acostumados a delegar problemas, comprar proteção e administrar a própria imagem. Quando a ameaça entra em casa, esses recursos passam a revelar seus limites.
Oito episódios permitem acompanhar o conjunto ao longo do feriado. É uma indicação para quem aprecia terror adulto, violência e conflitos familiares atravessados por ambição. A obra encontra força no encontro entre a imaginação de Poe e a linguagem de um império moderno. Reconhecer os contos acrescenta camadas, mas o essencial permanece acessível: pessoas que construíram uma ideia de invulnerabilidade precisam encarar o que deixaram pelo caminho.

