Roberto (Carlos Alcaide) embarca numa missão rumo a Madri para buscar mantimentos depois que uma epidemia transforma as Ilhas Canárias no último refúgio da Europa. A tarefa exige colaboração, mas o jovem tem interesses próprios e nem todos coincidem com as necessidades dos companheiros. Essa desconfiança acompanha a expedição de “Apocalipse Z: Novo Mundo”, longa espanhol de 2026 dirigido por Carles Torrens. A continuação aposta em operações militares e ataques de infectados, embora dedique menos atenção às pessoas que precisam voltar vivas.
Depois da disseminação do vírus TSJ, a distância entre as ilhas e o continente oferece alguma proteção aos sobreviventes. O problema é que estar longe dos infectados não garante comida nem outros recursos essenciais. Para manter a população abastecida, um grupo precisa deixar o refúgio e entrar numa região devastada. A viagem nasce dessa necessidade, o que dá ao perigo uma razão convincente. Permanecer nas Canárias também significa depender de quem aceita sair.
Roberto se junta à equipe sem compartilhar inteiramente o compromisso dos demais. Seus objetivos particulares acrescentam uma dificuldade à busca por suprimentos, pois todos dependem de cooperação para atravessar o território ocupado pelos mortos. O suspense tem aí uma boa oportunidade. Além de observar a aproximação das hordas, o espectador precisa desconfiar de alguém que deveria ajudar a enfrentá-las. Num lugar em que qualquer descuido pode custar uma vida, escolher mal um companheiro já parece um problema bastante sério.
O roteiro, porém, aproveita essa possibilidade menos do que poderia. Carlos Alcaide interpreta um protagonista cuja ambiguidade desperta curiosidade, mas recebe pouco espaço para dar maior complexidade às suas escolhas. Roberto participa de uma operação coletiva, embora seus interesses peçam uma atenção individual que a sucessão de ataques frequentemente interrompe. Sabemos que há motivos para desconfiar dele. Falta conhecer melhor o rapaz para que essa suspeita tenha peso além da próxima situação de perigo.
Mais soldados diante dos mortos
Torrens trabalha com uma escala maior do que a do primeiro longa. A presença militar permite combates mais extensos, e a quantidade de infectados exige um esforço constante de defesa. Entre os participantes da expedição estão Marina (Julia Martínez) e o comandante De Luna (Mario Mayo), integrantes de um grupo que precisa buscar recursos sem se tornar mais uma baixa no continente.
A ação oferece o principal atrativo da continuação. Os ataques mantêm os personagens ocupados, encurtam os intervalos de descanso e dão à missão uma sensação persistente de urgência. Quem procura soldados enfrentando zumbis tem boas razões para acompanhar a viagem. Torrens sabe sustentar esse tipo de entretenimento e aposta na pressão de um ambiente em que cumprir uma tarefa simples depende de sobreviver ao caminho.
Essa insistência, entretanto, cobra seu preço. Os integrantes da equipe passam tanto tempo reagindo às ameaças que sobra pouca convivência entre eles. Conhecemos suas funções com mais facilidade do que suas personalidades. Quando alguém corre perigo, compreendemos a gravidade da situação, mas nem sempre sentimos uma preocupação particular com aquela pessoa. O susto chega. O vínculo fica para depois, quando há tempo.
A confiança fica em segundo plano
A missão exige que Roberto e os militares contem uns com os outros, mesmo quando seus interesses divergem. Essa dependência poderia tornar cada escolha mais desconfortável. Buscar mantimentos para os refugiados já envolve riscos suficientes, mas fazê-lo ao lado de alguém pouco confiável acrescenta outra camada de insegurança. O roteiro estabelece essa dificuldade e depois se apressa em oferecer mais um ataque.
Os momentos emocionais sofrem com essa pressa. Para que uma decisão entre ajudar um companheiro e cuidar da própria sobrevivência provoque alguma coisa, é preciso conhecer a relação entre essas pessoas. Aqui, parte desse trabalho fica incompleta. Há espaço para perceber as divisões do grupo, porém menos oportunidades de acompanhar a formação dos laços que poderiam tornar uma perda dolorosa. A ameaça de morte permanece constante, enquanto o envolvimento com os personagens oscila.
Alguns efeitos digitais também chamam atenção pela aparência artificial. Em sequências que dependem da proximidade dos infectados, essa diferença enfraquece a impressão de perigo. Ainda assim, o problema mais persistente está nas pessoas. Uma horda pode ocupar a tela inteira e causar menos apreensão do que um único personagem bem desenvolvido sem uma saída à vista.
A continuação perde proximidade
Em “Apocalipse Z: O Princípio do Fim”, a relação entre um homem e seu gato dava uma dimensão íntima à catástrofe. Havia algo reconhecível naquele esforço de proteger um companheiro enquanto o mundo deixava de oferecer segurança. “Apocalipse Z: Novo Mundo” passa a acompanhar uma expedição militar e distribui a atenção entre mais participantes. É uma mudança legítima, mas que exige construir outros vínculos capazes de sustentar o interesse.
Torrens entrega uma aventura movimentada, com uma missão compreensível e perigos suficientes para manter a atenção. O resultado diverte mais quando os integrantes da equipe precisam atravessar o território tomado pelos infectados do que quando o roteiro pede envolvimento com seus dilemas. A continuação tem mais combates, mais participantes e menos intimidade. Roberto e seus companheiros seguem em busca dos mantimentos, mas nem todos conseguem deixar de ser apenas mais um rosto correndo dos mortos.

