A primeira coisa que se vê em Bryon Widner, antes mesmo que ele abra a boca, é a derrota de qualquer ideia confortável de regeneração. A cabeça raspada, o olhar duro, a pele tomada por símbolos racistas que sobem pelo pescoço e avançam sobre o rosto como uma sentença pública: nada ali permite que a mudança venha embalada naquelas imagens higiênicas que o cinema costuma reservar aos homens arrependidos. Em “Skin — À Flor da Pele”, longa de Guy Nattiv estrelado por Jamie Bell, Danielle Macdonald e Vera Farmiga, a conversão moral do protagonista começa pelo obstáculo mais visível e menos metafórico possível. O ódio foi escrito no corpo. Tirar aquilo dali vai doer.
A história é inspirada em Bryon Widner, ex-integrante de um grupo de supremacistas brancos nos Estados Unidos, e acompanha sua tentativa de abandonar a gangue neonazista depois de conhecer Julie, mulher também marcada por um passado de proximidade com aquele submundo, agora mãe de três meninas e cansada de viver no zoológico moral dos homens violentos. O dado biográfico dá ao filme uma vantagem imediata e uma armadilha igualmente óbvia. A vantagem é que a trajetória de Widner, com suas tatuagens faciais removidas em procedimentos dolorosos, parece ter nascido pronta para o cinema. A armadilha é acreditar que a força do caso real basta para sustentar duas horas de dramaturgia.
Nattiv, que já havia vencido o Oscar de curta-metragem com outro “Skin”, de narrativa diferente e tema aparentado, prefere tratar o material como drama de fuga. Bryon, ou Babs, como é chamado, vive sob a autoridade de Fred e Shareen, espécie de casal parental do inferno vivido por Bill Camp e Vera Farmiga. Eles acolhem jovens perdidos, dão comida, casa, posto na hierarquia, um sobrenome simbólico, e cobram em troca a alma inteira. O mecanismo é menos ideológico do que familiar. A doutrina racista está ali, em discursos, rituais, pancadaria, humilhação de negros, treinamento de crianças para repetir slogans. O que prende Bryon, porém, é anterior ao panfleto. É a fome de pertencimento de um sujeito que foi adotado pelo pior tipo de família possível e, como costuma acontecer com filhos criados no abuso, confunde obediência com amor.
O filme acerta quando compreende esse ponto. As melhores cenas de “Skin” não são as de explosão física, ainda que haja várias, com socos, tiros, perseguições e ameaças. São aquelas em que Bryon permanece calado diante de Fred ou de Shareen, reduzido outra vez ao menino que deseja aprovação. Bill Camp compõe Fred como um chefe de seita de beira de estrada, mistura de pai, pastor e cafetão ideológico. Vera Farmiga, num papel menor do que sua presença prometia, dá a Shareen uma doçura envenenada, particularmente eficaz quando a personagem manipula Bryon em tom maternal. Não é difícil entender por que ele demorou tanto a sair. Não se abandona uma gangue como quem pede demissão de uma firma. Sai-se de lá como quem arranca de si uma segunda pele infeccionada.
Jamie Bell sustenta o filme quase sozinho. A princípio, sua escalação poderia soar estranha para quem ainda guarda na memória o garoto de “Billy Elliot”, com o corpo leve de quem descobria na dança uma forma de escapar da brutalidade do entorno. Aqui o corpo está fechado, pesado, empedrado. Bell interpreta Bryon como um homem que aprendeu a ocupar espaço pela intimidação e não sabe o que fazer quando esse recurso começa a falhar. O rosto tatuado poderia virar máscara de vilão de gibi. O ator evita isso por uma contenção esperta. Seus melhores momentos estão em pequenos atrasos de reação, quando uma ordem da gangue demora meio segundo a mais para ser obedecida, quando a presença das filhas de Julie desarma uma resposta automática, quando a vergonha aparece antes da coragem.
Danielle Macdonald também ajuda a impedir que Julie vire simples instrumento de salvação do homem destruído. O roteiro a empurra perigosamente para essa função, como se a mulher e as crianças servissem de ponte sentimental entre o neonazista e a humanidade que ele havia perdido. Macdonald, com sua mistura de cansaço, ternura e irritação prática, dá a Julie uma presença mais concreta. Ela não entra na vida de Bryon como anjo redentor. Entra como alguém que também conhece a estupidez daquele meio por dentro e, justamente por isso, não tem paciência para romantizar a brutalidade masculina. Quando ela percebe que o namorado quer sair, mas ainda hesita em entregar antigos companheiros ao FBI e a Daryle Jenkins, ativista negro vivido por Mike Colter, o filme ganha um conflito mais áspero do que a simples oposição entre ódio e amor. A questão passa a ser o preço da deserção.
É uma pena que Nattiv nem sempre confie nessa aspereza. Em diversos momentos, “Skin” parece desejar a complexidade de um estudo sobre radicalização, pobreza branca, masculinidade ressentida e recrutamento extremista, mas se acomoda na cadência mais previsível do drama de redenção. O grupo de supremacistas surge com força visual, com seus churrascos, seus depósitos, seus encontros de subúrbio miserável, suas crianças já contaminadas pela linguagem dos adultos. Aos poucos, porém, muitos deles se reduzem a ameaça funcional. Entram em cena para lembrar que Bryon corre perigo. Saem de cena depois de cumprir essa tarefa.
Mesmo assim, o filme tem uma imagem central suficientemente forte para resistir aos atalhos do roteiro: o processo de retirada das tatuagens. A cada sessão, Bryon deita numa maca e entrega o rosto à máquina que queima sua pele. O cinema americano já filmou incontáveis homens tentando apagar o passado com confissões, lágrimas, tribunais, cartas, recaídas e abraços. Aqui, o passado é literalmente queimado em parcelas. O detalhe é importante porque impede que a transformação se resolva no conforto da intenção. Bryon pode decidir deixar de ser aquele homem; seu corpo, entretanto, continua denunciando quem ele foi. Há uma diferença brutal entre arrepender-se e tornar-se legível de novo para o mundo.
Nattiv trabalha melhor quando observa essa diferença sem pressa. A maquiagem que cobre Jamie Bell não é mero efeito de caracterização. Funciona como figurino moral, prisão ambulante, documento criminal à vista de todos. O espectador pode desconfiar da velocidade com que certas passagens psicológicas se resolvem, e deve desconfiar. A passagem de um fanático violento para um pai protetor, disposto a colaborar com as autoridades, tem no filme uma fluência às vezes arrumada demais. Ainda assim, há inteligência em manter a pergunta incômoda fora do alcance de uma resposta limpa. Que direito tem Bryon ao recomeço? A pergunta não desaparece porque ele sofre. O sofrimento apenas complica a vontade fácil de negar esse direito.
“Skin — À Flor da Pele” é um filme forte, irregular e às vezes menos profundo do que imagina. Tem cenas concebidas para produzir tensão imediata, diálogos que explicam demais e uma inclinação a transformar a vida real em arco dramático bem comportado. Em compensação, possui um protagonista difícil de esquecer, uma atuação admirável de Jamie Bell e uma compreensão física, quase dermatológica, da culpa. Seu assunto não é o perdão, palavra grande demais e barata demais quando aplicada de fora. Seu assunto é o trabalho sujo de tentar sair vivo daquilo que se ajudou a construir. No fim, a pele de Bryon pode estar menos marcada. O filme sabe, nos seus melhores momentos, que nenhuma máquina remove tudo.

