Discover

Em “Skincare”, Austin Peters acompanha Hope Goldman (Elizabeth Banks), uma esteticista famosa que tenta lançar sua marca de cosméticos em 2013, em Los Angeles, enquanto uma clínica rival abre do outro lado da rua e uma campanha anônima começa a destruir seu nome.

Hope Goldman (Elizabeth Banks) vive de pele perfeita, agenda cheia e prestígio cuidadosamente administrado. Dona de um estúdio de estética bem-sucedido em Los Angeles, ela trabalha com a assistente e relações-públicas Marine (Michaela Jaé Rodriguez) e se prepara para um passo maior na carreira. A ideia é lançar sua própria linha de produtos e transformar sua clientela fiel em vitrine para a marca. O problema surge quando Angel Vergara (Luis Gerardo Méndez) inaugura uma clínica concorrente bem em frente ao salão dela.

A proximidade seria incômoda em qualquer circunstância, mas “Skincare” sabe que vaidade profissional também precisa de endereço. Angel não chega apenas com uma fachada nova. Ele pede que Hope deixe de estacionar na vaga de sempre, agora reservada aos clientes dele. O gesto é pequeno, quase banal, mas para quem administra imagem, território e clientela, cada detalhe vira uma disputa. A irritação de Hope cresce porque o rival começa a ocupar a rua, o olhar dos passantes e, aos poucos, o espaço que ela julgava garantido.

Antes disso, Hope grava uma participação no “The Brett & Kylie Show”, programa apresentado por Brett Wright (Nathan Fillion). A entrevista deveria promover sua nova linha de cuidados com a pele e reforçar sua autoridade naquele mercado em que aparência, confiança e fama caminham juntas. Quando ela descobre que seu espaço na TV foi substituído por uma entrevista com Angel, a concorrência deixa de ser apenas comercial. Agora, o rival também entra na sala de estar dos clientes.

O ataque sai do celular

O suspense começa a apertar quando Hope recebe mensagens estranhas durante a noite. Primeiro, chega um vídeo gravado dentro de seu próprio estúdio. Depois, uma ligação ameaçadora aumenta a sensação de invasão. No dia seguinte, Colleen (Wendie Malick), cliente antiga de Hope, conta que alguém enviou um e-mail em nome dela para vários contatos. A mensagem espalha informações constrangedoras, sugere que Hope está endividada, emocionalmente abalada e sexualmente frustrada. Para uma profissional que vende segurança e autocontrole, o estrago é quase cirúrgico.

A partir daí, “Skincare” constrói sua tensão em torno de prejuízos muito concretos. Clientes cancelam horários. A agenda perde força. O salão, antes tratado como espaço de cuidado e status, passa a carregar um desconforto difícil de explicar. Hope tenta manter a compostura, mas Elizabeth Banks interpreta a personagem com uma mistura eficiente de orgulho ferido, nervos à flor da pele e uma elegância que começa a rachar no espelho. Há algo engraçado nessa mulher tentando parecer impecável enquanto tudo ao redor perde o acabamento.

A comédia do filme nasce desse contraste. Hope se comporta como empresária sofisticada, fala com polidez, sustenta poses de controle e acredita que pode resolver quase tudo com postura profissional. Só que os problemas passam a chegar sem pedir licença. Um homem aparece no salão dizendo que está ali para fazer sexo com ela, depois de ver anúncios pessoais publicados na internet com o endereço do estúdio. A situação é absurda, mas não fica inofensiva. O constrangimento público atinge clientes, funcionários e a própria credibilidade do negócio.

Um aliado entra em cena

Entre as pessoas que cruzam o caminho de Hope está Jordan Weaver (Lewis Pullman), apresentado por Colleen como um jovem coach de vida. Ele surge com fala mansa, disposição para ajudar e aquela confiança típica de quem vende solução antes mesmo de saber o tamanho do problema. Hope, cada vez mais pressionada, permite que ele se aproxime. A presença de Jordan oferece escuta em um momento no qual a polícia duvida, o proprietário do imóvel não se envolve e os clientes desaparecem sem cerimônia.

Angel, por sua vez, parece o suspeito perfeito aos olhos de Hope. Ele abriu a clínica do outro lado da rua, ganhou a vaga, apareceu no programa de TV e começou a receber parte da clientela que antes circulava pelo salão dela. O roteiro usa essa soma de coincidências para alimentar a paranoia da personagem sem transformar tudo em gritaria. Hope age por acúmulo. Cada mensagem, cada cancelamento e cada humilhação pública empurram sua suspeita para a porta de Angel.

O filme ganha força quando troca grandes revelações por pequenas perdas. Um pneu cortado coloca Hope em uma oficina. O dono do local, Armen (Erik Palladino), sugere que o ataque pode ser um aviso. Ela cogita comprar uma arma, mas acaba levando spray de pimenta. O detalhe funciona bem porque coloca a personagem em estado de defesa sem transformá-la em heroína de ação. Hope continua sendo uma mulher tentando proteger trabalho, nome e rotina em uma cidade que parece adorar assistir à queda dos bem-sucedidos.

O salão perde o verniz

Austin Peters trabalha o suspense sem abandonar o tom ligeiramente ácido. “Skincare” observa um universo em que beleza é serviço, produto, reputação e performance social. O estúdio de Hope não é só um local de trabalho. É palco, vitrine e fonte de renda. Quando alguém invade esse espaço por mensagens, anúncios e boatos, o ataque não mira apenas a pessoa. Mira o que ela construiu para ser vista de determinado jeito.

Elizabeth Banks sustenta o filme porque não suaviza Hope demais. A personagem pode ser simpática, mas também vaidosa, competitiva e pouco disposta a perder território. Essa imperfeição faz bem à crítica. Hope não é uma mártir cercada por vilões caricatos. Ela é uma profissional ambiciosa em um mercado feroz, onde todos parecem sorrir com dentes brancos enquanto calculam vantagem. A graça amarga de “Skincare” está aí. O creme promete juventude, mas ninguém ali parece dormir em paz.

Luis Gerardo Méndez dá a Angel uma presença suficientemente ambígua para manter a suspeita viva. Ele incomoda porque chega perto demais, prospera na hora errada e ocupa espaços que Hope desejava preservar. Lewis Pullman, como Jordan, traz uma energia mais escorregadia. O personagem parece prestativo, mas seu entusiasmo tem algo invasivo. Michaela Jaé Rodriguez, como Marine, ajuda a situar Hope dentro de um cotidiano profissional que depende menos de glamour e mais de agenda, contato, imagem e controle de danos.

A paranoia tem endereço

“Skincare” mostra como uma reputação pode ser desmontada por meios simples. Um e-mail, uma vaga de estacionamento, uma entrevista perdida, um anúncio falso e alguns clientes assustados bastam para colocar uma mulher em crise. O filme não precisa transformar sua protagonista em detetive infalível. Basta acompanhá-la enquanto ela tenta descobrir quem lucra com sua queda e quem apenas se aproveita do barulho.

Há um prazer discreto em ver a trama misturar salão de beleza, TV local e ameaça digital sem perder o pé na comédia. O resultado é um suspense de superfície brilhante e nervos expostos, feito de máscaras faciais, telefonemas ruins e gente adulta se comportando pior do que adolescente em grupo de condomínio. Hope quer vender a promessa de controle, mas passa boa parte do filme tentando recuperar o comando do próprio nome. Em “Skincare”, a pele pode até receber tratamento especial, mas a reputação sai cheia de cortes.


Filme: Skincare
Diretor: Austin Peters
Ano: 2024
Gênero: Comédia/Mistério/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também