À guisa de prolegômeno, informo que é do não-lugar de fala que escrevo estas linhas. Mas de um lugar de escuta, de leitura. Explico: sou homem, sou branco, sou sudestino, sou exatamente o que não é a história deste impressionante livro da gigante jornalista e escritora Marilene Felinto. “Corsária”, afinal, traz a mulher que abandona uma vida confortável nos Estados Unidos para retornar ao ponto quase escondido do Nordeste em busca de suas origens. Um deslocamento sem idealização. Um movimento guiado pelo desejo do acerto de contas.
Ela está convicta de que os pais foram explorados desde a infância. Busca reparação. Moral. Financeira.
O único ponto que me qualifica, portanto, nestas linhas é que também sou imigrante. Não, não. Não é este o único. Permito-me situar-me aqui, entre o leitor voraz e o escritor bissexto, como alguém que tem muita empatia com causas minoritárias e admiração devotada por Felinto — estudante universitário lá no comecinho do século, devorava seus textos na “Caros Amigos” e regurgitava panegíricos sobre eles.

“Corsária” é livro maduro da autora que se tornou revelação precoce mais de 40 anos atrás, com “As Mulheres de Tijucopapo” — Jabuti que ela levou para casa com apenas 22 anos de idade. “Corsária” carrega a mesma energia. Mas demonstra que talento é faca que se afia com o passar do tempo.
Há um diálogo incontornável entre esses dois livros, aliás. Ambos têm protagonistas intensas com histórias familiares violentas, incompletas, um pouco enigmáticas. Ambos se enredam sob as cicatrizes, ainda expostas, da colonização imposta ao território hoje chamado de Nordeste brasileiro.
Em “Corsária”, a recusa do próprio nome confere uma personalidade muito interessante à protagonista. Ela rejeita a identidade — e, assim, como seria rotulada no papel de vítima? Ela é anônima não por medo. Por estratégia. E isso não é apagamento, de forma alguma.
Quando se assume como ninguém, evidencia como a história de sua família, e de tantas e tantas outras famílias exploradas como se este fosse um preço a se pagar por um suposto desenvolvimento, foi erguida por ausências: de registros, de reconhecimento, de pertencimento. De nomes. De lugares. De identidades.
É um livro que escancara o racismo estrutural.
Por isso, ressalta Felinto, é uma narrativa que começa do antes do zero. O romance é uma investigação fragmentária, com buscas, arquivos revirados, exames de ancestralidade insolúveis, relatos incompletos. É todo tentativa: a linhagem foi negada. O que se encontra são lacunas — nervosas e densas. O silêncio também é violência. O silêncio grita.

