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“Viver”, dirigido por Oliver Hermanus, acompanha um funcionário da prefeitura londrina que descobre estar gravemente doente e decide mudar a própria rotina antes que o tempo desapareça de vez. Mr. Williams (Bill Nighy) é aquele servidor público que parece ter nascido atrás de uma mesa coberta de documentos. Ele chega cedo, senta em silêncio e passa horas empurrando solicitações entre departamentos que nunca resolvem nada.

O filme mostra uma Londres cinzenta, ainda marcada pelo pós-guerra, onde corredores administrativos parecem sugar qualquer sinal de entusiasmo. Quando um grupo de mulheres procura a prefeitura para pedir a construção de um parque infantil em um terreno abandonado, o pedido começa uma peregrinação humilhante entre salas, carimbos e negativas burocráticas. Williams observa tudo sem reagir. Aquilo já virou rotina há muitos anos.

A vida dele fora do escritório também não oferece conforto. O personagem mora com o filho Michael (Barney Fishwick) e a nora, mas ocupa a casa quase como um hóspede invisível. Durante o jantar, ninguém conversa de verdade. Existe uma sensação constante de distância, embora todos dividam o mesmo teto. Bill Nighy trabalha essa solidão com enorme delicadeza. Um olhar perdido ou uma pausa antes de responder já revelam o desgaste daquele homem que passou décadas funcionando no piloto automático.

Quando recebe o diagnóstico de câncer, Williams sai do consultório andando pelas ruas sem conseguir absorver totalmente a notícia. O médico fala com cautela, mas o personagem percebe o tamanho do problema ao notar o silêncio desconfortável da sala. A partir dali, tarefas banais começam a perder sentido. Os relatórios acumulados na mesa já não parecem importantes. O relógio do escritório, antes tratado quase como uma autoridade máxima, vira apenas um lembrete desagradável de que o tempo diminuiu.

Uma cidade que ele nunca viu

Em vez de voltar para casa, Williams decide fugir da própria rotina. Ele pega um trem, se hospeda em hotéis e tenta experimentar prazeres que nunca permitiu a si mesmo. Em uma dessas noites, conhece um escritor boêmio vivido por Tom Burke, sujeito falante e extravagante que o leva para bares, festas e casas noturnas. A situação tem um certo desconforto engraçado porque Williams parece completamente deslocado naquele universo. Enquanto músicos tocam e pessoas dançam ao redor, ele permanece sentado segurando um copo com a mesma formalidade de quem ainda está no expediente.

Essas sequências poderiam facilmente cair numa caricatura sentimental sobre um homem velho “aprendendo a viver”, mas Oliver Hermanus trabalha tudo com muito controle. Williams não se transforma em outra pessoa da noite para o dia. Ele continua tímido, fechado e até socialmente atrapalhado. O filme ganha força justamente por respeitar essa personalidade.

A mudança verdadeira começa quando ele reencontra Margaret Harris (Aimee Lou Wood), uma jovem funcionária que pediu demissão da prefeitura para trabalhar em uma cafeteria. Margaret fala rápido, ri alto e demonstra uma energia que Williams observa com fascínio quase infantil. Ele passa a convidá-la para almoços e caminhadas porque tenta descobrir de onde vem aquela leveza que ele perdeu há muito tempo.

Margaret estranha a insistência daqueles encontros. Em alguns momentos, colegas chegam a levantar suspeitas sobre as intenções de Williams. Só que o personagem procura outra coisa. Ele quer compreender por que algumas pessoas ainda conseguem sentir prazer nas pequenas coisas enquanto ele passou décadas enterrado em repartições abafadas e montanhas de papel.

O parque abandonado

O pedido do parque infantil reaparece quando Williams percebe que ainda pode fazer algo útil antes da morte. O terreno abandonado, antes tratado pela prefeitura apenas como mais um problema administrativo, passa a ocupar seus pensamentos. Pela primeira vez em muitos anos, ele decide parar de empurrar processos para outras salas.

Williams começa então uma verdadeira maratona entre departamentos públicos. Ele procura engenheiros, enfrenta funcionários acomodados e pressiona setores que preferem deixar tudo parado. O mais interessante é observar como aquele homem extremamente discreto ganha firmeza sem precisar levantar a voz. Bill Nighy transforma pequenos movimentos em cenas enormes. Basta uma mudança no jeito de caminhar pelos corredores para perceber que Williams já não aceita perder tempo com burocratas preguiçosos.

O roteiro também acerta ao mostrar como a máquina pública funciona de maneira cansativa e quase absurda. Sempre existe alguém tentando transferir responsabilidade para outro setor. Sempre aparece um novo formulário, uma assinatura pendente ou uma regra usada como desculpa para não agir. Em vários momentos, o filme lembra um humor britânico bastante seco. Não pelas piadas explícitas, mas pela ironia de acompanhar adultos passando horas discutindo procedimentos enquanto crianças continuam brincando perto de lixo e lama.

Alex Sharp interpreta Peter Wakeling, um funcionário mais jovem da prefeitura que começa a observar a transformação de Williams com curiosidade crescente. Peter percebe que aquele chefe rígido já não se comporta da mesma forma. O homem que antes parecia um relógio humano começa a faltar, sair mais cedo e ignorar protocolos que antes respeitava quase religiosamente.

O peso silencioso do tempo

“Viver” poderia facilmente apostar em grandes discursos emocionais sobre arrependimento e morte. Oliver Hermanus escolhe um caminho mais discreto. O filme prefere mostrar pequenos gestos ganhando importância dentro de uma rotina sufocante. Um documento aprovado. Uma visita ao terreno vazio. Um balanço finalmente instalado no parque.

Bill Nighy entrega uma atuação impressionante justamente porque quase nunca exagera emoções. Ele trabalha no detalhe. Um sorriso tímido já muda completamente o clima de uma cena. Um simples silêncio durante uma conversa revela mais do que páginas inteiras de diálogo.

Existe algo profundamente triste em perceber que Williams passou a maior parte da vida sem realmente participar dela. Ainda assim, o filme não transforma esse homem em mártir nem tenta arrancar lágrimas a qualquer custo. Hermanus observa aquele funcionário público com enorme humanidade. Quando Williams finalmente se senta no balanço do parque construído depois de tantos obstáculos administrativos, existe uma sensação rara de paz. Pela primeira vez, ele olha para algo que ajudou a existir fora das paredes do escritório.


Filme: Viver
Diretor: Oliver Hermanus
Ano: 2022
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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