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“Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” começa quando Mikael Blomkvist, personagem de Daniel Craig, perde um processo por difamação e vê sua carreira entrar numa fase delicada. Dono de uma revista investigativa respeitada, ele passa a carregar a imagem de jornalista derrotado num momento em que já não consegue distinguir aliados de oportunistas. É nesse cenário que surge Henrik Vanger, interpretado por Christopher Plummer, um empresário milionário que vive isolado numa ilha gelada ao norte da Suécia.

Henrik convida Mikael para escrever a história de sua família. O pedido parece simples, mas existe outra intenção por trás do contrato. O velho industrial acredita que sua sobrinha Harriet, desaparecida quarenta anos antes, foi assassinada por alguém da própria família. Desde então, ele passa os aniversários recebendo flores prensadas dentro de molduras. Harriet fazia isso quando era criança. Alguém continua enviando as flores. E Henrik quer descobrir quem.

Mikael aceita o trabalho porque precisa recuperar dinheiro, reputação e estabilidade profissional. Só que os Vanger parecem incapazes de permanecer na mesma sala sem trocar acusações antigas. A propriedade funciona quase como um museu de ressentimentos familiares. Tem herdeiro alcoólatra, empresário arrogante, parentes ligados ao nazismo e figuras que desaparecem no instante em que Harriet vira assunto. Quanto mais Mikael consulta fotografias e registros antigos, mais percebe que entrou numa casa onde todos escondem alguma coisa.

A chegada de Lisbeth

Enquanto Mikael vasculha o passado dos Vanger, David Fincher apresenta Lisbeth Salander, interpretada por Rooney Mara numa atuação inquieta e silenciosa. Lisbeth trabalha produzindo relatórios para empresas de segurança. Ela invade computadores, descobre movimentações bancárias e acompanha pessoas sem ser percebida. Sua aparência intimida muita gente, mas o filme deixa evidente que o verdadeiro problema está nos homens que tentam controlar sua vida.

Lisbeth vive sob tutela judicial e depende da autorização de funcionários públicos para acessar seu próprio dinheiro. Quando seu tutor sofre um AVC, ela passa a responder a Nils Bjurman, personagem de Yorick van Wageningen. O homem usa o cargo para humilhá-la e cometer abusos brutais. Fincher filma essas cenas sem transformar violência em espetáculo barato. Existe desconforto, silêncio e sensação constante de ameaça. Rooney Mara faz Lisbeth parecer uma mulher sempre pronta para fugir ou atacar, dependendo do perigo diante dela.

A conexão entre Mikael e Lisbeth acontece de forma quase burocrática. Ela já havia investigado a vida do jornalista antes mesmo de conhecê-lo. Mikael lê o relatório produzido por ela e percebe que encontrou alguém muito mais eficiente do que qualquer investigador tradicional. A partir daí, nasce uma parceria improvável entre duas pessoas socialmente deslocadas, cada uma tentando sobreviver à própria solidão.

Fotografias que mudam tudo

Grande parte do suspense surge de detalhes aparentemente banais. Mikael passa horas analisando fotografias antigas do desfile em que Harriet desapareceu. Fincher transforma imagens congeladas em peças fundamentais da investigação. Um rosto virado para trás, um olhar assustado e um carro estacionado ao fundo passam a ter importância enorme dentro da narrativa.

Quando Lisbeth entra oficialmente no caso, a investigação acelera. Ela consegue acessar arquivos, registros e informações que estavam fora do alcance do jornalista. Aos poucos, os dois descobrem que o desaparecimento de Harriet pode estar ligado a assassinatos de mulheres espalhados pela Suécia durante décadas. O filme então deixa de ser apenas um drama familiar e mergulha num suspense criminal pesado e perturbador.

David Fincher trabalha a tensão de maneira fria e meticulosa. A câmera observa corredores vazios, casas silenciosas e computadores ligados madrugada adentro. Até o clima parece cansado. Neva, venta e escurece cedo. Mikael vive cercado por pastas, relatórios e fotografias, enquanto Lisbeth surge quase sempre isolada diante da tela de um computador. A sensação é de que qualquer erro pode custar muito caro.

Existe também algo curioso na forma como o diretor utiliza Daniel Craig. Pouco antes de viver James Bond novamente nos cinemas, ele interpreta aqui um jornalista cansado, desorganizado e frequentemente vulnerável. Mikael apanha, se confunde e demora para perceber certos riscos. Isso deixa a investigação mais humana e menos fantasiosa.

Violência dentro da família

Os Vanger carregam dinheiro, influência e décadas de silêncio. Conforme Mikael e Lisbeth avançam, alguns membros da família passam a enxergar a investigação como ameaça real. O clima dentro da propriedade muda. Conversas terminam antes da hora. Portas se fecham. Pessoas desaparecem das reuniões familiares. Há sempre a impressão de que alguém acompanha cada movimento da dupla.

O roteiro também trabalha um tema constante no livro de Stieg Larsson. A violência contra mulheres aparece em diferentes níveis ao longo da história. Em alguns momentos, ela surge dentro de relações familiares. Em outros, aparece ligada a figuras respeitadas socialmente. Fincher filma tudo sem transformar sofrimento em entretenimento vazio. O desconforto permanece durante quase todo o longa.

Rooney Mara domina boa parte do filme porque Lisbeth nunca se encaixa totalmente em lugar algum. Ela é inteligente, agressiva, fechada e extremamente observadora. Daniel Craig funciona bem ao lado dela justamente porque Mikael parece incapaz de acompanhar seu raciocínio em vários momentos. Existe uma dinâmica curiosa entre os dois. Ele trabalha tentando organizar pistas numa mesa cheia de papéis. Ela invade sistemas inteiros em poucos minutos e surge com informações capazes de desmontar décadas de mentira.

“Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” transforma uma investigação policial numa história sobre abuso, memória e homens protegidos pelo dinheiro da família. Quando Mikael finalmente se aproxima da verdade sobre Harriet Vanger, os arquivos acumulados durante décadas deixam de ser apenas papel guardado em gavetas. Eles passam a representar risco real para pessoas acostumadas a viver sem prestar contas a ninguém.


Filme: Millenium: Os Homens que não Amavam as Mulheres
Diretor: David Fincher
Ano: 2011
Gênero: Crime/Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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