Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Razões do Existir

    Quando nos deparamos com um mistério, um obstáculo intransponível à nossa lógica e entendimento, nossa insaciável necessidade pela compreensão nos compele a recorrer às divindades e ...

    8 horas atrás por João Carlos Figueiredo sobre Sim. Deus existe
  • É comovente o esforço que os ateus fazem para justificarem seu ateísmo...Mas não dá! O ônus da prova é de quem nega... ...

    13 horas atrás por Pedro Pinto de Arruda sobre O odor deletério de Dostoiévski
  • Teistas e ateistas, pouco me importam. Vale mesmo o indivíduo, dono do seu eu, senhor de si. Pronto para acreditar no que melhor lhe convir, pronto para servir-se da crença que lhe for favorável, apto ...

    1 dia atrás por Marcelo Pasqualin Batschauer sobre Sim. Deus existe
  • Gostei do texto, Denise. Parabéns.
    Face às definições sobre ateísmo que surgiram nos comentários, postarei a minha:
    Ateu: uma pessoa, um animal racional, que não conseguiu, depois de adulto, encontrar ...

    2 dias atrás por Frankly Andrade sobre Sim. Deus existe

últimas no twitter

  • @Alelex88 DM...
    4 horas atrás
  • Um gigantesco acervo da televisão europeia disponível on-line (conteúdo a partir de 1900): http://t.co/hT9URTMp
    23 horas atrás
  • Muhammad Ali x Ryu: http://t.co/fcF38dh7
    24 horas atrás
  • Google Insights: mapeie comportamentos e tendências de pesquisas feitas na internet: http://t.co/7JY7qT7a
    1 dia atrás
  • @DeniseRossi Pensando em algo audaz...
    1 dia atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

  • e eventualmente nojentas de casais escatológicos

sugestões de filmes

POR EM 27/10/2008 ÀS 12:24 PM

O estranho

publicado em

Não dormiu por toda a noite. Ou pelo menos teve a sensação de não haver dormido. Fora tomado de sensações estranhas. Tudo começou com uma noção equivocada de desnível. De todo jeito que deitava, mesmo que com a cabeça apoiada numa pilha de travesseiros, Cairo se achava de cabeça pra baixo. Junto a isso vinha uma bola no estômago e uma perturbação na boca, como se os dentes tivessem se convertido num misto de algodão e pedregulho.

Não tardou para começar uma espécie de flutuação. O fato de morar na décima laje de um edifício de apartamentos parecia lhe retirar a firmeza. Mas o incômodo avançou. Era como se ele equilibrasse mal e mal numa quilha remota da Via Láctea. Sentia-se num mundo-de-corda-bamba-sobre-abismo.

Suspenso por escoras precárias e que a qualquer momento fossem desabar, arrastando-o para o fundo sem fundo de um buraco.

Cairo tentou pensar em coisas firmes e concretas para se recuperar daquele torpor. Mas suas tentativas surtiram efeito contrário. Seu corpo que apenas boiava sobre o abismo começou também a se diluir como um gás, até esparramar-se por completo a ponto de não haver mais noção de unidade.

Tentava mover-se, mas estava completamente paralisado. Não bolia um dedo sequer. Era como se seu coração e seus pulmões houvessem dissipado. Estava sem pulso e sem fôlego. E a noção de ser-em-si, ainda que vaga, talvez se desse agora por um processo extracorpóreo.  Estaria Cairo morto?

De manhã, o toque do despertador conseguiu reuni-lo outra vez. Mas era como se na urgência do reagrupamento ele tivesse sido refeito num arranjo diferente. Com as células colocadas em locais inadequados, formando órgãos com funções novas e desconhecidas. E porque não dizer, inúteis para a vida cotidiana.

A ver-se no espelho da pia, era como se visse, não um-outro, mas um não-ser.  Era ele mesmo, mas sem legitimidade para existir. Sua cara tacanha. Seus braços de cipó, suas mãos de barbatana, seu tronco de munguba, suas pernas de galho invertido ostentando na forquilha um cacho escroto.

Onde estaria o Cairo assertivo e focado, o executivo pitbull, o eficaz diretor de produção de uma multinacional? Suas mãos se apresentavam inábeis para as coisas mais comezinhas e tudo parecia inadequado, esbarrando nos objetos ou deixando-os caírem. Achou o dentifrício nojento, a escova esquisita e ao tentar escovar os dentes machucou as gengivas com gravidade, a ponto de tirar sangue.

Ao vestir-se não achava a ordem correta. A cueca sobre a calça, as meias sobre os sapatos. Foi um custo para ordenar essas coisas antes tão banais. Mas dar o nó gravata não foi possível. Por fim atinou de usar uma que já vem com o nó feito e é só puxar um fecho ecler. A muito custo arrumou-se. Pegou o elevador, o carro no subsolo e, achando-se um bicho de outro bioma, estranhou o sinal vermelho, avançou e envolveu-se num acidente de graves conseqüências.

 

Bookmark and Share

Comentários (0)



*Obs — todos os comentários são moderados.
Não é aceito nenhum tipo de script ou formatação, caso queira adicionar um link apenas cole o endereço normalmente.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio