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POR EM 27/06/2009 ÀS 09:05 AM

Por uma lei de imprensa nazista

publicado em

Eu matei a Lady Di. Isso mesmo. Fui eu. Não foram os paparazzi, nem o motorista bêbado, nem o namorado milionário, nem a Camila Parker (se bem que, nesse caso, nunca se sabe...). E sabe por quê? Porque eu não agüentava mais notícia idiota sobre a Lady Di. Lady Di na África. Lady Di flagrada de topless. Lady Di espirrou diferente ontem. Lady Di voltou a espirrar normal hoje. Lady Di isso. Lady Di aquilo. Em pleno horário nobre (embora “nobre”, pra mim, seja qualquer horário em potencial), Jornal Nacional, está lá o casal anunciando solenemente a última da... Lady Di. Enchi o saco. Desejei que ela morresse. Daí ela morreu. No dia seguinte (juro!). Nunca mais desejei isso pra ninguém, pois sei que não devo usar meus superpoderes para o mal. Só que era tarde (tadinha, afinal, a culpa não era dela).
           
É por essas e muitas outras que deixei de ver TV há muito tempo. Ainda resisto bravamente e leio jornais. Só que tem vezes (muitas!) em que dá vontade de por fogo (ou uma bomba) na redação. Ontem, por exemplo, estava eu lendo tranqüilamente minha Folha de São Paulo, quando deparo com uma pequena mas absolutamente oligofrênica matéria a respeito de uma adolescente americana que tinha vencido um concurso de digitação rápida de celular. PQP! Minha retina não é latrina, cidadão! Tem dó! O quê? Eu poderia não ter lido? Não dá, quando vê, já li. É tarde demais. Você está ali, passando os olhos pelo jornal, daí tromba com uma matéria dessas, vai lendo até o fim, progressivamente surpreso com a imbecilidade exposta a nu... pronto! Leu. F...eu.
           
É por mais essas e muito mais outras que defendo uma lei de imprensa nazista. Ah, que falta nos faz um governante tipo Chávez, ou Fidel, Stalin, Hitler (atenção chavistas e castristas, antes de darem um ataque histérico, não estou afirmando que esses senhores sejam iguais, mas apenas que têm algumas características em comum, sendo a que me interessa a aversão por quem pensa diferente deles). Com um sujeito desses comandando o Brasil nossa lei de imprensa poderia ser mais ou menos assim:
           
Artigo 1 —  Para ser jornalista será necessário ser... jornalista.

Parágrafo 1 — Por “jornalista” entenda-se alguém que estudou pra isso, da mesma forma que um ministro do STF precisou estudar pra ser bacharel em Direito.
           
Artigo 2 — O jornalista está obrigado a dizer apenas a verdade.

Parágrafo 1 —  Por “verdade” entenda-se aquilo que não é mentira. Na eventualidade de não se saber qual dos dois, que se mantenha calado.
           
Artigo 3 — O jornalista está proibido de partir do pressuposto que seu leitor seja um imbecil (ainda que haja fortes evidências nesse sentido).

Parágrafo 1 — Por “imbecil” entenda-se o leitor que acharia interessantes matérias do tipo “uma adolescente ganhou concurso de digitação em celular, etc”.
           
Artigo 4 — Todo jornalista, assim que se formar, terá implantado em sua orelha um rastreador com um chip. Esse chip terá, entre outras propriedades, a de produzir um choque elétrico entre 1 e 1000 Volts.

Parágrafo 1 — O leitor, ao assinar um jornal ou revista ou canal de TV, receberá um controle remoto dos jornalistas daquele veículo. Nesse controle, terá as opções “punição” e “prêmio”. A função “punição”, quando acionada, desencadeará uma descarga elétrica no rastreador de seu jornalista de até 1 Volt. Se vários leitores a apertarem ao mesmo tempo, o jornalista será sumariamente eliminado desta para melhor. Se vários apertarem em horários diferentes o jornalista passará horas sofrendo (sugere-se essa penalidade para casos extremos). A função “prêmio”, quando apertada várias vezes, dará direito a aumentos de salários.

Revogam-se as disposições em contrário.
 


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POR EM 22/06/2009 ÀS 10:20 AM

Menos clássicos e mais contemporâneos

publicado em

Marcelo Coelho e Antônio Cícero, em suas colunas na “Folha de São Paulo” de, respectivamente, 13/05/2009 e 30/05/2009, percorreram caminhos diferentes, mas chegaram ao mesmo lugar. O primeiro, comentando o lançamento do livro “Kalevala” (um épico finlandês traduzido por José Bizerril e Álvaro Faleiros, e editado pela Ateliê), diz acreditar que “temos pavor de ler os clássicos de qualquer literatura” e que “perdemos tempo com muitos livros atuais, deixando autores como Goethe, Dante, Virgílio e Montaigne para quando estivermos bem velhinhos”.
 
Antônio Cícero, por sua vez, defende a leitura dos clássicos da filosofia, em detrimento de seus comentadores contemporâneos. O “desejo de ser contemporâneo”, acredita, “não passa de sintoma de um agudo provincianismo temporal. Quando se manifesta no campo da filosofia, talvez o melhor antídoto para ele seja exatamente a leitura cuidadosa dos clássicos.”
 
Isso me fez lembrar do quanto é comum se ouvir de escritores, quando perguntados o que aconselham outros escritores a ler, que privilegiem os clássicos. Faz-me lembrar também daquelas listas (de que o editor da Revista Bula, Carlos Willian, tanto gosta) de leitura de fim de ano, recheadas de clássicos estrangeiros e de insultos a autores brasileiros.
 
Discordo triplamente. Pra começo de conversa, não acho que Marcelo Coelho tenha razão ao inferir que lemos mais contemporâneos do que clássicos. Se é pra chutar, chuto o exato oposto. Imagino basicamente dois tipos de leitores não-escritores (os leitores-escritores são diferentes, explicarei depois): a maioria é leitora de best-sellers estrangeiros (eventualmente um brasileiro como Paulo Coelho ou Luiz Fernando Veríssimo, guardadas as devidas proporções entre os dois, quantitativa e qualitativamente); a minoria é leitora de clássicos estrangeiros (“Dom Quixote”, “Crime e Castigo”, “Guerra e Paz” seriam bons exemplos de livros consumidos por esse grupo). Por último, correndo por fora, há os leitores-escritores que lêem a si próprios (e eventualmente são lidos por vestibulandos). Portanto, o grupo que lê “literatura brasileira contemporânea” é disparado o menor.
 
Em segundo lugar, discordo também de Antônio Cícero. Penso que ele está confundindo o que lê a academia por dever de ofício com o que o que lê o “filosofiófilo”. Filósofos diletantes só querem saber de clássicos. Nem sequer ouvem falar desse ou daquele candidato a filósofo contemporâneo. “A República” de Platão e a “Ética a Nicômaco” de Aristóteles, “O elogio da loucura” de Erasmo de Roterdam e a “Utopia” de Morus, “O príncipe de Maquiavel” e “Assim falava Zaratustra” de Nietzsche são certamente muito mais lidos do que qualquer medalhão de qualquer universidade de prestígio brasileira ou estrangeira.
 
De onde tirei isso? É chute, já disse. Vem de minhas impressões em conversas em festas e outras formas de sociabilização com não-escritores e não-filósofos. Absolutamente não-científico. Mas eu seria capaz de apostar dinheiro nesse meu palpite.
 
Em terceiro lugar, discordo tanto de escritores que sugerem privilegiar os clássicos, quanto daqueles que acreditam que não se faz coisa que preste em literatura ou filosofia no Brasil. Escritor brasileiro vivo tem que ler, sim, bastante escritor brasileiro (e estrangeiro) vivo. Leitores eruditos, por seu turno, não sabem o que estão perdendo quando desprezam a literatura contemporânea nacional. Tem muita coisa boa sendo feita por aqui. Arrisco ir além. Existem vários escritores brasileiros que dão banho nos queridinhos de fora do momento (Philip Roth, Ian MacEwan, etc, a lista é longa).
 
Eu disse antes que o grupo de leitores de escritores nacionais contemporâneos é formado (basicamente) por... escritores nacionais contemporâneos. Caio em contradição? Não, porque essa turma costuma ler também os clássicos (daqui ou de fora), sem que seja necessário que escritores já com fama estabelecida lhes digam isso.
 
Não defendo que não se leia clássicos. Não sou estúpido. O que defendo é que não se privilegie os clássicos. Como tudo na vida, há que ter equilíbrio. Leia-se uns e outros. Igualmente.
 


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POR EM 08/05/2009 ÀS 01:13 PM

Somos todos canalhas

publicado em

“Esperar que mudanças em um sistema de casta por iniciativa dos seus beneficiários é acreditar em papai Noel ou o Saci-Pererê”. (Clóvis Rossi, "Folha de São Paulo", 7 de maio de 2009) 

            Conjugue comigo:
 
            Eu sou canalha
            Tu és canalha
            Ele é canalha
            Nós somos canalhas
            Vós sois canalhas
            Eles são canalhas
           
Isso. Agora vá ao banheiro e repita, agora na frente do espelho. Pode ir, eu espero. Vamos, não estou brincando. Isso aqui é muito sério. Muito bem. (Tempo. Dedos tamborilando pacientemente). Pronto? Ótimo. Agora vá pra rua e repita novamente, dessa vez bem alto, “Eu sou canalha, tu és canalha...”. Anda logo, cidadão, que não temos todo tempo do mundo. Se quiser, pode rechear com sua criatividade, algo do tipo “Eu sou um grandessíssimo canalha, tu és um canalha absoluto, etc”.
           
Esse momento catártico era necessário para que meu ponto fosse colocado de forma inequívoca. Agora tentarei desenvolver. A epígrafe, retirada do artigo-editorial do jornalista Clóvis Rossi, referia-se, como todos devem ter percebido, às safadezas dos membros dos poderes brasileiros. Mais especificamente aos “escândalos” das viagens dos senadores e de juízes (ou ministros, sei lá, já que se tratava do STJ).
           
De repente todos se declaram surpresos que pessoas como Fernando Gabeira, Eduardo Suplicy e membros do Judiciário se lambuzem em privilégios auto-concedidos. Me escapa à compreensão a surpresa. Ora, o ser humano é safado por natureza. Egoísta, preguiçoso, belicoso, malandro (continue aí pra mim com outros adjetivos semelhantes que lhe ocorrerem, por favor).
           
(É verdade que ninguém se mostrou muito surpreso em ouvir do nosso digníssimo presidente que é hipocrisia se espantar com as demonstrações explícitas de malandragem. Depois que pra ele o mensalão estava justificado porque “sempre foi assim”, quem é que vai se surpreender com qualquer outra coisa vinda dali?)
           
Agimos eticamente única e exclusivamente por coerção. Ecos de Hobbes por aqui? Quase. É claro, o “homem em estado de natureza” hobbesiano é bem menos equivocado do que o rousseauniano. Mas discordo de Hobbes na medida em que ele dá desconto ao homem antes de agir (o homem tem inclinações más, mas não é mau enquanto não age malvadamente). Biologicamente, poderíamos dizer que as inclinações humanas (ou animais, pra todos os efeitos) não são boas nem más, são neutras. Teimo e discordo: inclinações más equivalem a pessoa má. Simples assim.
           
Repito: agimos eticamente apenas por coerção. E de onde vem a coerção? Do poder. Ora, por que, então, agirá eticamente quem detém o poder? Eles são sua própria coerção. Ou seja, coerção nenhuma. Daí ser impossível que haja ética na política. A política tem sua própria ética. Ou seja, ética nenhuma.
           
(“Política” aqui deve ser entendida em seu sentido lato, cabendo qualquer um que detenha poder.)
           
No caso dos políticos que chegam aos seus cargos de poder por meio de voto, a coerção poderia vir do “povo” (Rousseau? Acho que não). Mas não vem. Porque o “povo” (ou “nós”) também é canalha. Dê-lhe (dê-nos) pão e circo (ou bolsa-isso, bolsa-aquilo e carnaval) e ficará tudo bem. É como diz o sapientíssimo filósofo político do PTB do Rio Grande do Sul, Sérgio Moraes:“Estou me lixando para a opinião pública. Até porque parte dela não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, mas a gente se reelege”. Convenhamos, trata-se de uma peça de rara honestidade no cenário do Congresso Nacional.
           
Agora, pausa. Não se depreenda, do que aqui está escrito, que somos canalhas, ergo, devemos ser canalhas. Seria um enorme equívoco conhecido como “Falácia Naturalista” (Do “ser” não se deriva o “deve ser”; ou do “assim é” deriva o “assim deve ser”). Seria cair na armadilha proposta pelo presidente Lula (conformem-se, bando de hipócritas, pois “sempre foi assim”). Um dia chegará, na escala evolutiva humana, em que deixaremos de agir utilitário-egoisticamente e nos tornaremos todos kantianos. Só que não pela Razão (com “R” maiúsculo, como sonhava o alemão sistemático), mas pelo instinto. Isso mesmo. Estará “imprintado” em nossos genes o agir por meio de imperativos categóricos de valor universal. Quando chegará o dia? Provavelmente daqui a uns mil, dez mil, cem mil anos. Certamente não agora. Então, enquanto isso, repita comigo: “Eu sou canalha, tu és canalha...”.


 

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POR EM 01/05/2009 ÀS 11:07 AM

A complicada relação entre imprensa e pesquisa médica

publicado em

Quando recebi em minha casa o número de janeiro da  “Investigative Ophthalmology and Visual Science” (IOVS), que é o periódico científico oficial da Association for Research in Vision and Ophthalmology (ARVO), uma associação que congrega todas as áreas que de alguma forma se ocupam com a pesquisa em Ciências da Visão, pensei comigo: “Ai, ai, prato cheio pra interpretações apressadas. Daqui a pouco algum jornalista terá a brilhante idéia de publicar isso”.

Não deu outra. Na “Folha de São Paulo” de 24 de abril, no caderno “Saúde”, lá estava, assinada por Juliana Calderari. Com as palavrinhas mágicas de praxe, aquelas que protegem contra processos e eventuais críticas, “pode” e “sugere”, Calderari relata os dois trabalhos de Paul T. Williams publicados na IOVS (“Prospective epidemiological cohort study of reduced risk for incident with vigorous physical activity and cardiorespiratory fitness during a 7-year follow-up e Prospective study of incident Age-related macular degeneration in relation to vigorous physical activity during a 7-year follow-up”), sem especificar a fonte (diz apenas o local onde foram conduzidos, a Universidade de Berkeley, como se a chancela de uma universidade de peso bastasse para abençoar a matéria).

As fraquezas do estudo são várias e a principal delas o próprio autor reconhece: o diagnóstico das doenças era auto-relatado. Ou seja, perguntava-se aos sujeitos da pesquisa se nos últimos anos eles tinham ido a um oftalmologista e se este tinha lhes dito que estavam com catarata ou degeneração macular. Ora, os estágios iniciais de ambas são assintomáticos ou subsintomáticos. E, portanto, nem sempre relatados. Além disso, para fazer seu diagnóstico preciso só dilatando as pupilas (particularmente no caso da degeneração macular), o que nem sempre é feito em pacientes com mais de 40 anos de idade (justamente a população-alvo da pesquisa). Tanto aqui no Brasil quanto nos EUA o próprio paciente acha ruim que se lhe dilate as pupilas, pois sabe que depois dos 40 não é necessário para sua refração (exame de grau de óculos).

É verdade que Calderari teve o cuidado de entrevistar dois nomes de grande reconhecimento no meio oftalmológico (Marinho Scarpi e Rubens Belfort Jr., ambos da Escola Paulista de Medicina – UNIFESP), mas lhes deu espaço mínimo (ou a Folha é que deu o espaço pequeno, isso não tenho como saber) para tentar explicar outras fraquezas, como, por exemplo, os fatores de confusão com o objeto principal do estudo. Por exemplo, quem pratica muito exercício costuma ter uma dieta saudável, menos hipertensão e menos diabetes, fuma e bebe menos. Em outras palavras: será que eu não posso ficar sentadinho em minha cadeira e apenas não fumar, beber pouco e comer mais peixe, verduras e frutas? E caso nem assim meu colesterol e pressão arterial baixem eu tome anti-hipertensivos e uma estatina qualquer, sempre sentadinho em minha cadeira só assistindo TV? Provavelmente sim. Ou quem sabe não. Quem sabe? Certamente o estudo não, pois não teve força pra isso.

Estou bancando o chato? Que mal há em aconselhar o óbvio? Que mal pode haver em se aconselhar a fazer exercícios? Neste caso há sim. Pois a conclusão do estudo vale para exercícios vigorosos (correr 10 km/dia não é pouca porcaria não). Vai a turma de sedentários que leu a matéria se meter a fazer isso pra ver a quantidade de internações em pronto-socorros cardiológicos pouco tempo depois!

Agora, pra não dizer que estou pegando no pé da “Folha”, aqui vai uma do “Estadão”. No dia 5 de abril, assinada por Herton Escobar, saiu publicada a matéria “Terapias com células-tronco geram dilemas entre pacientes e cientistas”, com o subtítulo “Cada vez mais, pessoas buscam tratamentos experimentais no exterior, mesmo sem comprovação científica”. Esse subtítulo me fez lembrar imediatamente da propaganda enganosa-criminosa do tratamento milagroso para Retinose Pigmentar de Cuba. De fato, as coincidências são muitas. Vejamos.

Trata-se de países com regimes fechados, totalitários, portanto, com acesso difícil e até desprezo pela informação. Embora, justiça seja feita, pelo menos no caso da China, há muitos pesquisadores que não têm medo de seguir as regras da pesquisa científica e se submeter ao crivo dos pares para corroborar (ou não) seus eventuais progressos. Nos dois casos a desfaçatez dos médicos envolvidos beira o absurdo. Não. Ultrapassa o absurdo. Não. Deixa eu colocar nos justos termos: se inferno houver, é praonde eles irão. Círculo nono.

Tanto os milagreiros cubanos quanto os chineses se valem do mesmo argumento vago, que a maioria de seus pacientes melhora. Melhora como? Quanto? Registrado por quem? Por eles mesmos? Será que já ouviram falar em efeito placebo e em viés de observador? O efeito placebo é tão impressionante que pode ser até mesmo “pré-placebo”. Em estudos de tratamentos para degeneração macular, por exemplo, os pacientes podem melhorar uma linha de visão (que não é pouco!) só de saber que participarão. Veja bem: antes de usar qualquer coisa, até placebo!

No caso do viés de observador, uma verdade grosseiramente óbvia é que quem faz o tratamento não pode ser quem mede seu resultado, pois quem faz torce pela melhora. Isso é tão básico, tão pré-histórico, tão primário, que me surpreende que qualquer pessoa, mesmo sem formação científica, perca seu tempo dando espaço e voz a lunáticos (na melhor das hipóteses) ou desonestos (na pior), que usam esse espaço da pior maneira possível: como propaganda para seu “negócio”. É verdade que no caso da matéria de Escobar, muito mais espaço foi dado a médicos-pesquisadores sérios do que na de Calderari, o que ajudou a dar um tom neutro. O problema é que o tom não era pra ser neutro, mas, sim, tendencioso mesmo. Tendencioso pro lado sério. Tinha de ter sido uma reportagem-denúncia, com o título: “Médico chinês propõe tratamento milagroso sem nenhuma comprovação científica com células-tronco e cobra os tubos por isso!”

Outra coincidência entre Cuba e China: os “tratamentos” são para doenças incuráveis e/ou progressivas. Esse é o detalhe sórdido que, aliado ao alto custo do “tratamento” (como é que se define estelionato mesmo?), dá posição garantida no inferno a seus realizadores (círculo nono!). Trata-se de uma descarada exploração do desespero. É um negócio maravilhoso, melhor do que tráfico de drogas: vende-se esperança a desesperançados.

Infelizmente, a pesquisa científica, embora caminhe bem mais rápido agora do que há 50 anos, ainda é muito lenta para o paciente que sofre na pele problemas mais graves. Duas linhas de pesquisa promissoras, como a terapia genética e as células-tronco ainda precisam galgar muitos degraus para se tornarem viáveis. O papel do jornalista nessa história deve ser de menos pressa e mais reflexão. Senão, de inocente útil, vira cúmplice de crimes.
 


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POR EM 16/03/2009 ÀS 01:55 PM

O dinheiro sujo do almoço grátis

publicado em

Na edição de 3 de março deste ano do “New York Times” há uma matéria cujo tema tem sido alvo crescente das discussões no meio médico, com reflexos para toda população, mais cedo ou mais tarde. Trata-se da relação entre a indústria farmacêutica e os médicos, e, nesse caso, médicos professores de uma universidade que é considerada uma das melhores do mundo.

Não é novidade para ninguém que médicos ganham brindes de representantes que vão de canetas e chaveiros a agendas e calendários. Todo mundo sabe também que os médicos ganham amostras grátis de medicamentos. De maneira geral, tanto os médicos quanto os pacientes, encaram esses pequenos presentes como inofensivos. E são mesmo. Ou alguém se imagina receitando mais por causa de uma caneta ou agenda? No caso das amostras, inclusive, são úteis aos pacientes. Por exemplo, pode-se testar um colírio para pressão ocular sem que o paciente gaste com o teste. Se o colírio funcionar, aí é que o paciente passará a comprar.

O problema começa quando os presentes aumentam de tamanho. Jantares caros, viagens (às vezes internacionais, com tudo pago). Vai ficando difícil não se deixar influenciar, ainda que subconscientemente. (O mesmo vale para integrantes do governo, diga-se de passagem, cujo código de ética, se não me engano, permite presentes de até cem reais apenas). Essa influência é tão impressionante que pode tomar conta do indivíduo mais cuidadoso. Certa vez eu estava num congresso em São Paulo e assisti a uma palestra, patrocinada por um laboratório farmacêutico, dada por um expoente em determinado tema. Acontece que eu conheço razoavelmente bem a pessoa e sei que é essencialmente ético. Mas sua palestra foi tão enviesada pro lado do medicamento em questão que chagava a ser ridículo.

Por outro lado, já tive também a oportunidade de assistir a palestras de “expoentes” (cabem as aspas aqui pois se trata de expoentes de marketing mais do que de medicina) também patrocinadas e também enviesadas, só que neste caso era descarado. Infelizmente, nem todo mundo na platéia tinha esse discernimento. Comentando com amigos (mais atentos) no intervalo, ficamos surpresos de constatar que a maioria não tinha se dado conta do descaramento.

Voltando a Harvard. A questão lá é que a indústria farmacêutica desenvolve várias pesquisas em conjunto com os professores da universidade, e esses nem sempre são transparentes com seus alunos. Hoje em dia exige-se que o pesquisador diga em sua aula ou em seu artigo se tem algum tipo de afiliação financeira com algum laboratório. Por conta disso há um grupo de alunos e professores fazendo um movimento para diminuir as ligações entre a indústria e a universidade.

Se isso acontecer, será o caso clássico de se cometer um erro para consertar outro. Ora, Harvard é boa, entre outras razões, porque é rica. Tem muito dinheiro para pesquisa e para pagar bem seus professores e ter laboratórios bem montados. As fontes dessas riqueza são muitas (doações, mensalidades caras, etc), mas está entre elas o dinheiro fornecido pelas indústrias. Principalmente no caso de financiamento de pesquisas. Se cortarem ou diminuírem esse fonte, a universidade perderá com isso (não só Harvard, mas qualquer universidade).

Uma besteira parecida com a Lei Seca. Em vez de investirem na fiscalização da obediência da lei que já existia, inventaram outra mais rígida sem dar o suporte da fiscalização. Resultado: logo, logo tudo voltou a ser o que era antes. É o que deveriam fazer no caso da relação indústria-universidade, ou seja, fiscalizar para coibir abusos.

Se é verdade que não existe almoço grátis, não necessariamente é verdade que o dinheiro que paga o almoço é sujo.
 

Flávio Paranhos é médico. Coordenador da Coleção Filosofia & Cinema e autor do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial). Colunista da revista Filosofia Ciência & Vida (Editora Escala) e dos sites www.revistabula.com e www.mundomulher.com.br
 


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POR EM 02/03/2009 ÀS 09:41 PM

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

publicado em

A brilhante atuação de Malcolm McDowell, a música de Beethoven, a fotografia, as cenas de violência, enfim, o conjunto do filme é todo um conceito-imagem que provoca no espectador um estranhamento, uma angústia, típicos da reflexão crítica. Impossível assistir ao filme sem "filosofar". O que não quer dizer que seja preciso chegar a qualquer conclusão

Vamos começar explicando o título acima. É preciso que fique claro. Tudo o que será tratado aqui se refere à "Laranja Mecânica" de Stanley Kubrick, e não à de Anthony Burgess. Pelo menos conscientemente. É que não li o livro. Mesmo tendo assistido ao filme várias vezes, nunca tive coragem de ler o livro. Tenho medo de estragar o encanto. "Laranja Mecânica", o filme, é obra de gênio. Ela parla. Canta, dança e sapateia também. E pode ser que o livro não. Como acontece com várias adaptações, que, de tão brilhantes, ultrapassam em muito o livro em que foram baseadas.

Antes de falar de "Laranja Mecânica" especificamente, vale a pena perder tempo discutindo algumas abobrinhas acerca da sétima arte. Pra começo de conversa, essa discussão tola sobre se é arte mesmo ou não. A mim parece que aqueles que não consideram cinema uma forma de arte agem mais ou menos (conscientemente ou não) como quem não gosta da cor azul e por isso decretam que azul não é cor. Exagero, vá lá, mas é mais ou menos por aí. Há filmes e filmes. Assim como há livros e livros.

É verdade, porém, que essa discussão sobre ser arte ou não esbarra em outra: a autoria. Um livro, por pior que seja, é de um autor só. Um filme não. Esse argumento é falacioso, mas é preciso repetir: há filmes e há filmes. Há diretores e há diretores. Os exemplos são muitos, mas vou ficar só com um para facilitar: Woody Allen. Escreve o roteiro, escolhe os atores, dirige, edita, enfim, é dono absoluto do filme. Tá bom, vou dar outro exemplo, de um diretor menos verbal e mais imagético: Abbas Kiarostami. Há outros, há muitos.

Ok, concedo (magnanimamente) uma coisa: a natureza, a feitura do cinema permite várias matizes de autorias, o que complica o meio-de-campo. Woody Allen é um exemplo extremo. Exemplos do outro extremo seriam os muitos blockbusters de entretenimento sobre os quais os diretores têm pouco controle. E há os meios-termos. Os meios-termos mais complicados são as adaptações bem-sucedidas. E estas devem ser subdivididas.

Vamos inventar aqui duas categorias principais - as essencialmente literárias e as essencialmente fílmicas. Nas primeiras, principalmente, entram algumas peças transformadas em filmes, como "De repente, no Último Verão" (com Elizabeth Taylor, Montgomery Clift e Katharine Hepburn, direção de Joseph Manciewicz). A peça é de Tennessee Williams (com roteiro de ninguém menos que Gore Vidal), mesmo autor das também adaptadas "Gata em Teto de Zinco Quente" (com Elizabeth Taylor e Paul Newman, direção e roteiro de Richard Brooks) e "Um Bonde Chamado Desejo" (com Vivien Leigh e Marlon Brando, direção de Elia Kazan).

Todas estas se encaixam na categoria. São adaptações tão bem-sucedidas, difícil imaginar que sejam superadas. Claro, sempre podem ser refeitas (e sempre são) mas é difícil que sejam superadas (uma das muitas versões de "Um Bonde Chamado Desejo", com Alec Baldwin e Jessica Lange, é razoável, mas não chega aos pés da versão de Kazan, com Leigh e Brando). Ainda assim, têm uma coisa em comum: são de Tennessee Williams, não são de Manciewicz, Brooks ou Kazan. Quer dizer, são dos dois, dramaturgo e diretor, mas mais do primeiro do que do segundo. Complica, né?

Na categoria de adaptações fílmicas poderíamos incluir aquelas que superam as obras em que foram baseadas, ou porque o próprio roteiro é melhor, ou porque os recursos próprios do cinema enriqueceram de tal forma o original que lhe é impossível não ser superado. Deste grupo podem fazer parte "Naked Lunch" (de David Cronemberg, baseado em livro homônimo de William Burroughs), "As Horas" (de Stephen Daldry, baseado no livro de Michael Cunningham), "Short Cuts" (de Robert Altman, baseado em contos de Raymond Carver) e, claro, "Laranja Mecânica" (de Kubrick/Burgess).

"Naked Lunch" e "Short Cuts" eu li e vi. "As Horas" e "Laranja Mecânica", só vi. "Naked Lunch" é um livro infinitamente pior do que o filme. Cronemberg fez um enorme favor a Bill Borroughs. Já os contos em que são baseadas as estórias de "Short Cuts" são excepcionais. Raymond Carver é o melhor contista de língua inglesa com que meus olhos já tiveram a oportunidade de trombar. Acontece que Altman deu vida de forma brilhante aos contos, modificou-os, entrelaçou-os. O produto final é obra de Altman. Ok, Altman-Carver, mas mais o primeiro que o segundo.

Quanto a "Laranja Mecânica" e "As Horas", o leitor deve estar dizendo: "Como é que cê sabe que são melhores se não leu os livros?" Aí é que entram os elementos do cinema, inacessíveis à literatura. A imagem e o som. A fotografia e a música (ajudados, claro, por interpretações primorosas). O que no caso de "Laranja Mecânica" é algo incontestável. Por mais que Burgess possa fazer referência a Beethoven (e particularmente à "Nona"), por mais que minha imaginação trabalhe a todo vapor, jamais será como é no filme. Assistir ao horrorshow de Alex e seus amigos com o som da "Nona" de fundo é uma experiência cognitiva restrita ao cinema. E é por isso que gosto de azul. E azul é cor sim, tá sabendo?

O filme: close em Alex (Malcolm McDowell, no melhor papel de sua vida), cílios postiços apenas no olho direito, cara de mau, olhando diretamente para a câmera. Diretamente pra você. Música: adaptação da "Música para o Funeral da Rainha Maria", de Purcell. O plano é aberto lentamente, e podemos ver então os outros três droogies, Pete, Georgie e Dim, o de riso bobo. Estão num bar-leiteria bebendo leite com velocete, que os deixaria calibrados e prontos para mais uma noite de ultraviolência e horrorshow.

Primeira vítima do quarteto: um mendigo bêbado. Próximos: a gangue rival de Billyboy, que se preparava para o bom e velho in-out-in-out, sem o consentimento da moça, obviamente. Música: "La Gazza Ladra", Rossini. E segue com Rossini pela estrada em alta velocidade até as próximas vítimas, um escritor e sua esposa. Aí a música é "Singin' in the Rain", cantarolada pelo próprio Alex, enquanto estupra a esposa em frente ao marido. Voltam pro bar-leiteria. Na mesa ao lado, uma mulher canta um pedaço do quarto movimento da "Nona". Dim, o droog imbecil, ri. Apanha por causa disso. É o início da dissolução do grupo. Alex volta pra casa, um buraco. Em seu quarto, estátuas de cristos abraçados dançam ao som da "Nona" (a cena é maravilhosa!).

No dia seguinte, Alex não vai à aula e é visitado pelo seu bedel particular (Mr. Deltoid), que ficara sabendo do estrago da gangue de Billyboy. Alex passeia por uma loja de discos (é possível ver um LP com a trilha de "2001, Uma Odisséia no Espaço" - breve momento merchandising) e leva duas moças pra casa, onde rola o velho in-out-in-out ao som da abertura de "Guilherme Tell" em alta velocidade. Mais uma noite de ultraviolência e horrorshow (novamente com "La Gazza Ladra", Rossini), só que desta vez os três outros droogies armam uma cilada pra Alex, que é capturado pela polícia.

Como acabara matando sua vítima desta vez, o rapaz pega cadeia pra valer. Lá dentro, tenta bancar o bonzinho junto ao padre. Fica então sabendo de um tratamento novo, o método Ludovico de correção de mentes marginais, e consegue ser escolhido como cobaia. Basicamente, o tratamento consiste em aplicar uma droga no "paciente" e fazê-lo assistir a filmes com muita violência. A idéia é fazê-lo tomar aversão. Mantendo os olhos abertos com blefarostatos e pingando colírio de lágrima artificial constantemente. Os cientistas se asseguram de que o paciente não deixará de ver nada.

Mas algo inesperado acontece: a música de fundo é justamente a "Nona" de Beethoven, o que provoca um efeito colateral. Alex não só toma aversão à violência, mas também à sua música predileta. Na demonstração da eficácia para uma seleta platéia no presídio, ao final do tratamento, o padre protesta: aquilo era artificial, eliminava a escolha moral do indivíduo. Alex é solto e, pra seu azar, sai trombando com todos os seus antigos desafetos, que colocam o tratamento à prova. O último da fila é justamente o escritor, agora aleijado e viúvo. Acontece que o escritor é parte de um grupo político de oposição, que julga o tal método de Ludovico desumano. Sem se lembrar inicialmente de que aquele era seu malfeitor, bola um plano para usá-lo contra o governo. Dopa-o, leva-o para um lugar ermo, prende-o num quarto e coloca a "Nona" em volume altíssimo. Alex tenta se suicidar, é insuportável. Não morre. Vai hospitalizado e é então paparicado pelo ministro que o havia recrutado. Topa cooperar. No fim, está "curado" - de volta ao que sempre foi.

Há diversas maneiras de se interpretar um filme. Filosoficamente há duas: como meio e como fim. Professores de filosofia tendem a vê-los como um meio para ilustrar teses já conhecidas. Assim o fizeram, por exemplo, Mary Litch, em "Philosophy Through Film" (Routledge), e Christopher Falzon, em "Philosophy Goes to the Movies" (Routledge). Outros, porém (como o professor Julio Cabrera, em "O Cinema Pensa", Rocco, e "De Hitchcock a Greenaway pela História da Filosofia", Nankin Editorial), enxergam no cinema um fim em si mesmo, capaz de criar seus próprios conceitos, os "conceitos-imagens". Outros ainda, como Sander Lee ("Eighteen Woody Allen Films Analysed", McFarland), analisam a obra de um diretor como quem disseca um sistema filosófico conscientemente estruturado.

"Laranja Mecânica" permite todas essas abordagens. A brilhante atuação de Malcolm McDowell, a música de Beethoven, a fotografia, as cenas de violência, enfim, o conjunto do filme é todo um conceito-imagem que provoca no espectador um estranhamento, uma angústia, típicos da reflexão crítica. Impossível assistir ao filme sem "filosofar". O que não quer dizer que seja preciso chegar a qualquer conclusão. É estranhíssimo (e assusta quando nos damos conta disso) que ocorra a nós, espectadores, o exato oposto do que acontece com Alex. Somos também submetidos ao cruel tratamento de Ludovico, afinal assistimos a cenas de violência com belíssimas músicas de fundo. Sem piscar. Só que o que sentimos não é aversão, mas prazer. Uma mistura mágica de ética com estética. Um feitiço diabólico. Claro, não saímos por aí promovendo nosso próprio horrorshow. Mas tomamos uma consciência incomodamente cristalina de nossa animalidade.

Embora a literatura também seja criadora de conceitos-imagem filosóficos, como acredita o professor Cabrera, acredito que não há como o livro oferecer a mesma experiência, dados os recursos cognitivos a que o filme tem acesso e o livro não. Mas se a abordagem for a procura de familiaridade de cenas com teses filosóficas, então ambos passam a ter o mesmo poder. A cena em que o resultado do tratamento é mostrada a uma platéia seleta no presídio, por exemplo, é excelente para ilustrar a oposição entre a moral conseqüencialista e a não-conseqüencialista. De que importa se o método é cruel e retira por completo a possibilidade de escolha moral por parte do sujeito? O que importa é que funciona e os índices de criminalidade diminuirão, argumenta o ministro em réplica ao padre. A ironia fica por conta de que é justo um religioso que contesta o fato da não-violência não ser autêntica (produto de uma escolha), mas coagida por medo (de mal-estar físico). Ora, as morais religiosas são todas calcadas também no medo de uma punição, só que divina. Ética existencialista pela boca de um padre só pode ter sido ironia burgess-kubrickiana. Laranja Mecânica, o filme, é filosofia pura. Se ao final Alex está "curado", nós ficamos doentes.

*Texto publicado originalmente em outubro de 2006.

 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 05:10 PM

Risole de carne e moranguinho

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Minha mais velha fez dez anos há poucos dias e caímos na besteira de fazer uma festa em nossa casa. Ela queria convidar só as coleguinhas. Os coleguinhas ficariam de fora. “Eles são muito atentados”, nos advertiu. Minha esposa e eu: “Não podem ser atentados assim”. Eram. Quer dizer, não eram, propriamente, “atentados”. Eram animais mesmo. Um bando de selvagens no sentido anti-rousseauniano da palavra. Um ou dois degraus a menos na escala evolutiva (acima dos macacos, mas abaixo do homem de “Neanderthal”).

Minha casa tem marcas de sua passagem até hoje, como provavelmente tinham as cidades invadidas pelos vikings ou Gengis Khan, sei lá. Só que a guerra, aqui, foi de brigadeiros. O que deixou minha filha ainda mais brava, pois não sobrou brigadeiro, seu doce predileto, pra contar história.  A não ser no chão, nas paredes, e nos lugares mais improváveis que escavações arqueológicas posteriores revelaram para nós.
 
E por falar em doce predileto, embora a festa fosse para minha filha, era um pouco pra mim também, pois fazemos aniversário quase na mesma data. Ela comemora, eu me conformo. Mas fiz algumas exigências: 1- Não teria cerveja de mulherzinha (aquela que desce redondo e similares). 2- Não teria risoles de milho. 3- Teria risoles de carne e moranginho.
 
Consegui quase todas. Exceto o moranguinho. Alguém aí se lembra de um docinho de festa de criança de antigamente que se chamava moranguinho, mas não era feito de morango? Não consigo ninguém que se lembre e faça. Uma dó. Era meu doce preferido. Quanto aos risoles, bati o pé. A ditadura do risole de milho não teria vez no meu aniversário! (Tudo bem, tudo bem, aniversário de minha filha). Minha esposa tentou contra-argumentar, que o correto é que fosse uma democracia, que permitisse a convivência harmônica entre risoles de milho e carne. Mas eu não cedi. Força se derrota com força. (Woody Allen diria: “É difícil argumentar com quem usa coturno e arma. Melhor conversar com um bastão de beisebol na mão”). Venci. Risole de milho não passou nem perto de minha festa (tudo bem, de minha filha).
 
Voltando aos animais. É impressionante a tendência dos pais de hoje a tratar seus pimpolhos como se fossem Adão e Eva antes da mordida da maçã. É como se se sentissem cronicamente culpados por tê-los colocado no mundo cruel. E dá-lhe birra e mal-comportamento não corrigidos ou sub-corrigidos. Não advogo aqui a educação pela porrada (embora eventuais tapinhas de amor não doam, como diz a música). Refiro-me à disciplina (que não necessariamente está acoplada a castigo físico). Não há disciplina mais. Assiste-se a espetáculos grotescos de birra em frente dos pais sem que estas façam qualquer coisa, pelamordedeus! A criança diz um ou dois “eu quero!” (ou “eu não quero”) e os pais cedem. O que escapa a estes pais é que não estão protegendo-as, mas aleijando-as intelectualmente. O mundo não é assim. No mundo, quando uma delas espernear no chão gritando “Mas eu quero” Eu quero!!”, serão pisoteadas. E aí? Onde estarão os pais super-protetores (leia-se coniventes e permissivos) nessa hora? Infelizmente, bem longe.
 
Flávio Paranhos é Médico. Coordenador da Coleção Filosofia & Cinema e autor do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial). Colunista da revista Filosofia Ciência & Vida (Editora Escala) e dos sites www.revistabula.com e www.mundomulher.com.br
 


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POR EM 02/02/2009 ÀS 11:36 PM

O caso Battisti e a noção de justiça

publicado em


De todas as definições de justiça que já tive oportunidade de conhecer, a que me parece mais honesta está no comecinho da República de Platão. Justiça seria a vontade do mais forte. Assim a define Trasímaco no Livro I, no que é evidentemente refutado por Sócrates, daquela forma dialético-aporética, como só ele conseguia fazer, para irritação de qualquer leitor que possua inteligência mediana para melhor. Trava-se, então, essa pérola de diálogo:

 Sócrates: Acaso a justiça é um vício?
 Trasímaco: Não, mas uma sublime ingenuidade.
 S: Então, à justiça chamas mau caráter?
 T: Não, mas sim prudência.
 S: Acaso te parecem sensatos e bons os injustos?
 T: Sem dúvida, os que são capazes de ser perfeitamente injustos, com força para submeterem à sua autoridade Estados e nações. (...)
 
Mas, note bem, Trasímaco tem o cuidado de (antecipando Maquiavel e Nietzsche em alguns séculos), frisar que ser injusto não era para qualquer um, mas apenas aos mais fortes, aos “senhores”: “Se um homem, além de se apropriar dos bens dos cidadãos, faz deles escravos e os torna seus servos, em vez de [receber injúrias], é qualificado de feliz e bem-aventurado, não só pelos seus concidadãos, mas por todos os demais que souberam que ele cometeu a injustiça. É que aqueles que criticam a injustiça não a criticam por recearem praticá-la, mas por temerem sofrê-la.” (344c)
 
Há, todavia, uma saída para os, digamos, menos fortes. Também antecipando Maquiavel, Gláucon, no Livro II, contará a estorinha do anel de Giges, cuja moral seria: tudo acaba bem, se você não for flagrado. (Maquiavel diria: O príncipe [leia-se o mais forte] deve PARECER justo). Claro que todo mundo quer um anel de Giges para si. Fortes, menos fortes e fracos. Numa democracia, então, um anel desses vale ouro, já que não se pode abusar da força.
 
Não vá o leitor pensar, entretanto, que o autor deste texto corrobora as palavras de Trasímaco e seus descendentes. A leitura correta destas fundamentações da moral (além da anti-platônica, a de Maquiavel, Nietzsche e outros) é descritiva, e não normativa. Eles dizem: “Assim é”. E não: “Assim deve ser” (embora seja possível, claro, interpretá-las normativamente, o que será um desastre). Dar o salto do descritivo pro normativo, ou mesmo conformar-se com o “assim é” (como o presidente Lula fez na época do escândalo do mensalão, na célebre entrevista concedida na França) é um erro. Uma das condições para a evolução humana (que nos afasta dos outros animais) é justamente o não conformar-se com o “assim é”.
 
Outra noção chave em justiça é a de corporação. Justa será a medida que nos beneficia. Injusta, a que beneficia a eles. “Nós” e “eles” são dois times nem sempre bem delimitados e podem sofrer constantes ajustes circunstanciais. É o caso (e agora finalmente chego ao ponto) do italiano Cesare Battisti. Quem é “nós”? “Nós”, os bravos militantes de esquerda. “Eles”, o regime de exceção italiano da década de 1970, com sua Justiça viciada. Mas “nós” podem ser também os familiares das vítimas assassinadas. E “eles”, os terroristas sanguinários.
 
Entra em cena, então, um bizarro jogo de palavras, vindo de ambos os lados da contenda, que só serve para confundir a nós, os leitores (supostamente neutros). Para o governo brasileiro (leia-se ministro Tarso Genro), parece ser de suma importância que os crimes de que Battisti é acusado sejam “políticos”. Evidentemente que se fossem crimes políticos “de direita” o ministro jamais agiria assim. Pois aí Battisti seria do time dos “eles”, os “da direita”. Para o governo italiano, o caso está encerrado e o Brasil não tinha nada que se meter. E pra nós, os leitores de jornal? Se você for apartidário como eu (o que não significa aideológico, já que tal coisa não existe) provavelmente deve estar se perguntando: afinal, ele é culpado mesmo ou não é? A única coisa que realmente importa parece ter sido esquecida.
 
Há fortes indícios que apontam para sua culpa real (era marginal antes de ser militante político, por exemplo). Mas há questões mal-resolvidas. O fato de ter sido denunciado por delação premiada deveria, no mínimo, ser visto com alguma desconfiança. Também o fato de ser apontado como autor de dois crimes acontecidos no mesmo dia em cidades diferentes (mesmo levando-se em conta que a Itália é um país pequeno - de acordo com o Google, a distância entre as duas é de aproximadamente 300 Km). Não é impossível, mas me soa improvável que uma pessoa assassine outra e horas depois mais outra, em outra cidade, enquanto seria de se esperar que estivesse bem escondida.
 
De toda forma, independente de quem detém o poder (PSDB ontem, PT hoje, Deus sabe quem amanhã), é este, o poder, o outro nome que se dá à justiça. O que não nos obriga a nos conformar com isso. Se assim é, assim não deveria ser.


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POR EM 27/01/2009 ÀS 09:52 PM

100 coisas para fazer em 2009

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O Opção Cultural e a Revista Bula me pedem para fazer uma lista de leituras pretendidas para 2009. Fiz algo diferente. Vejam aí algumas sugestões. Vejam se combinam. Se não combinarem, desacatem-nas, mudem a ordem, eliminem, acrescentem, enfim...

Veja: Laranja Mecânica (Kubrick).
Ouça: A nona e a quinta sinfonias de Beethoven.
Leia: Laranja Mecânica (Burgess, de preferência a versão americana, sem o último capítulo, ou leia a britânica, mas não leia o último capítulo, ou leia o diabo do último capítulo por sua conta e risco).
Beba: Baden-baden vermelha.
Coma: Não coma.
Fume: Robusto Le Cigar.

Veja: Crimes e Pecados (Woody Allen).
Leia: A genealogia da moral (Nietzsche).
Ouça: Quarteto de cordas No. 15 (Schubert).
Beba: Cabernet Sauvignon.
Coma: Torrada com gorgonzola e geléia de damasco.
Fume: Não fume.
Variação1:
Leia: Projeto de ética negativa (Julio Cabrera).
Ouça: Thelonius Monk.
Beba: Baden-baden vermelha.
Coma: não coma.
Fume: Robusto Dona Flor.
Variação 2:
Leia: Fundamentação da metafísica dos costumes (Kant) e Do cidadão (Hobbes).
Não coma, não beba, não fume.

Veja: Sócrates (Rossellini)
Leia: O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates (Kierkegaard).
Ouça: Não ouça.
Beba: Pinot Noir.
Coma: Qualquer queijo.
Fume:Não fume.

Veja: A morte e a donzela (Polanski).
Leia: A morte e a donzela (Ariel Dorfman).
Ouça: A morte e a donzela (Schubert, o quinteto e o Lied)
Beba: Baden-baden 1999.
Coma: Qualquer queijo.
Fume: Alonzo Menendez No.10

Veja: O sétimo selo (Bergman).
Leia: O mito de Sísifo (Camus).
Ouça: Qualquer violoncelo de Bach.
Beba: Chadornay.
Coma: Torrada com requeijão e ovas (não caviar, evidentemente, mas as ovas mais baratas).
Fume: Não fume.
Variação:
Leia: Do sentimento trágico da vida (Unamuno).
Não coma, não ouça, não fume.

Veja: Sonhos (Kurosawa).
Leia: Não leia.
Ouça: Chopin.
Beba: Pinot Noir ou Chadornay.
Coma: Queijos.
Fume: Não fume.

Veja: Zelig (Woody Allen).
Leia: Origens do totalitarismo (Arendt).
Ouça: Benny Goodman.
Beba: Merlot.
Coma: Queijos .
Fume: Não fume.

Veja: As horas (Daldry).
Leia: As horas (Michael Cunningham).
Ouça: O adágio do Albinoni (mas cuidado!).
Beba: melhor não.
Coma: qualquer coisa.
Fume: melhor não.
Variação:
Ouça: O Réquiem do Mozart (muitíssimo cuidado!).
Leia: Mrs. Dalloway (Virginia Wolf).

Veja: Pulp Fuction (Tarantino, o homem de um filme só).
Leia: Qualquer coisa do Dashiell Hammet.
Ouça: a trilha sonora do filme (coloque o volume no bigode, principalmente no início do CD).
Beba: Jack Daniels.
Coma: Amendoim.
Fume: Cigarrilha (qualquer).

Veja: Ricardo III. Um ensaio (Al Pacino).
Leia: A vida e a morte do rei Ricardo III (Shakespeare).
Ouça: Otelo (Verdi) (ouça e veja, se possível).
Beba: Espumante.
Coma: Sushis e sashimis.
Fume: não fume.

Veja: A doce vida (Fellini).
Leia: Angústia (Graciliano Ramos).
Ouça: Miles Davis.
Beba: Um toscano qualquer.
Coma: Espaguete (não se atreva a comer pizza!).
Fume: Não fume.

Veja: O anjo exterminador (Buñuel).
Leia: Bestiário (Cortázar).
Ouça: Dave Brubeck.
Beba: Vodka com alguma fruta.
Coma: Sushis, sashimis.
Fume: Não fume.

Veja: Short Cuts (Altman).
Leia: Do que falamos quando conversamos sobre sexo (Carver).
Ouça: Blue Trane (Coltrane).
Beba: Cabernet Sauvignon.
Coma: Queijos.
Fume: Não fume.

Veja e ouça: Boris Godunov (Mussorgsky).
Leia: Boris Godunov (Pushkin).
Beba: Vodka pura gelada (com moderação).
Coma: Suhis, sashimis.
Fume: Robusto Dona Flor.


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POR EM 09/12/2008 ÀS 11:59 PM

Espírito de manada

publicado em

Várias coisas intrigam nessa crise. A primeira delas é que vem sendo anunciada há meses antes de seu acontecimento. Já no ano passado se comentava o problema com os financiamentos ditos “subprime” (financiamentos imobiliários com maior risco de calote, para encurtar e simplificar). Ainda assim, a bolsa subiu a ritmos galopantes até na véspera da crise. Por quê?

Assistindo a uma palestra de um corretor tive uma resposta que me soou razoável. O mercado, essa entidade amorfa que parece que tem vida própria, tem, mesmo, vida própria. É possível analisar os acontecimentos retrospectivamente, com bastante agudeza, apenas observando-se gráficos. Esqueça os fundamentos de uma empresa, esqueça as baboseiras que jornalistas falam (a partir da análise de “especialistas”). Esqueça as relações causais estabelecidas, que soam, à primeira ouvida, razoáveis, mas que não passam de chutes saídos de bocas que não deveriam estar chutando, mas que não resistem a um microfone.

A crise estourou em outubro (e não em julho, ou março, etc) porque até então o gráfico mandava subir. E a manada subia. Não era hora ainda de “realizar” (jargão para “vender” ou “auferir lucros”). Então, num clic, passou a hora de realizar. E a manada desceu a ladeira com vontade. Claro, passando uns por cima dos outros, afinal, manada é manada.

De que adianta saber disso agora? Teoricamente, a análise retrospectiva deveria ajudar a prospectiva. Em outras palavras, se o mercado funciona em ritmo de manada, é crucial saber quando sair da frente, pra não ser atropelado, e quando entrar, pra participar do butim. E aí que está o problema. Os gráficos são uma beleza para se enxergar o passado, mas para prever o futuro eles podem ser traiçoeiros. Afinal, manadas não são muito confiáveis.

Macacos babuínos, quando têm de atravessar um rio ficam um tempo indecisos quanto ao que fazer, até que um iniciador... inicie. Mas é só depois que um “decididor” chancele a atitude do iniciador que o resto vai. Se os mais fracos e/ou mais jovens ficam pra trás, azar o deles. Nem mãe volta pra buscar filho. Ele que se vire. Se essa é uma boa analogia, quero estar sempre perto do decididor e pronto pra nadar.

Uma das características que as análises de gráficos levam em consideração é o velho princípio que diz que a história se repete. Na atual crise isso é particularmente verdadeiro quanto aos fabricantes de carros. Quando vi que a Chrysler está, de novo, pedindo dinheiro ao governo americano para se sustentar, fui imediatamente reler a auto-biografia do Lee Iacocca. Está tudo lá. As mesmas alegações, a mesma choradeira. A diferença é que o livro (publicado em 1984) é a história de um homem que teve sucesso na empreitada de reerguer a Chrysler (pedindo dinheiro pro governo). E agora?

Outra coisa que intriga (angustia seria mais aplicável) é saber quando vai acabar. Se a crise tivesse lógica, talvez (talvez!) se pudesse fazer previsões razoavelmente acertadas. Entretanto, a entidade mercado é caprichosa, e pode surpreender, desembestando sua manada histericamente pra cima ou mais pra baixo ainda. Vai saber. Daqui a uns dez anos a gente olha no gráfico.


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