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FLÁVIO PARANHOS
EM 27/03/2011 ÀS 11:30 AM
O mundo está dividido em duas categorias. De um lado, Ciência & Tecnologia, do outro, Artes & Humanidades. Não adianta procurar a referência, quem disse isso fui eu mesmo. E mais: toda vez que leio que o homem moderno é intolerante, que o mundo de hoje, mais violento, que as pessoas de uns tempos pra cá têm preguiça de pensar, me doem as cáries. Tudo merda de touro. O homem sempre foi intolerante, o mundo sempre foi igualmente violento, e as pessoas, em geral, morrem de preguiça de pensar. Nem todas, claro. Como regra, as que não têm preguiça, fazem Artes & Humanidades. As intelectualmente limitadas, Ciência & Tecnologia.
O que não significa que Artes & Humanidades sejam melhores. Muito pelo contrário. São piores. Não servem pra nada. Absolutamente nada. Quer ver? Imagine o mundo sem Monet, Beethoven, Nietzsche, Shakespeare, Woody Allen. Conseguiu? Fácil. Agora imagine o mundo sem computador, telefone, água limpa e encanada, marca-passo, stent, lente intraocular, pasta de dente, avião, navio... Sim, eu sei que o mundo já viveu sem isso. Mas agora que tem, não vive sem. O mesmo não pode ser dito a respeito dos citados acima. Digo isso porque não gosto de Monet, Beethoven, Nietzsche e Woody Allen? Justamente o contrário. Sou perdidamente apaixonado por essas e outras figuras semelhantes. Mas prefiro perdê-las do que tudo aquilo que os intelectualmente preguiçosos me proporcionaram.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 25/02/2011 ÀS 04:02 PM
Advertência: O desabafo abaixo é inapropriado para menores de idade e para aqueles que não estão dispostos a terem desabafos estragando seu dia.
"Porra, obrigado pra caralho! Não, sério, obrigado pra caralho! Obrigado pra caralho mesmo!...Não, sério, obrigado pra caralho... Pra caralho!" Imagino que você, leitor, está morrendo de rir, não? Não? Ufa, então você não fazia parte da plateia de submentais que lotou o Teatro Rio Vermelho, no Centro de Convenções de Goiânia, na última sexta-feira, pra assistir à peça “Minhas sinceras desculpas”, com Eduardo Sterblitch. Multiplique as frases entre aspas acima por 20 e terá a introdução da peça. Cada vez que ele dizia um palavrão, a plateia caía na gargalhada. E assim foi durante todo o espetáculo. Ou, pelo menos, enquanto eu estava lá pra assistir. Saímos, eu e minha esposa, antes de acabar. Não por causa dos palavrões. Mas por causa da reação infantil a eles.
Foge por completo à minha compreensão o motivo da graça. Éramos, na plateia, todos adultos, maiores de idade, portanto já ouvimos palavrões aos montes (e já os dissemos aos montes também). Além do mais, o conteúdo não tinha nada de engraçado. Tratava-se de um desabafo do ator. Que, por sinal, curtiu com a cara da plateia o tempo todo. E o bando de bobos alegres se borrando de rir e, ainda, tentando interagir com o ator. O ponto alto foi quando Sterblitch se referiu a nós como “riquinhos nojentos” que se recusam a dar esmola pra mendigo porque ele gasta com bebida. “Deixa ele beber, porra!”. E tome risada.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 07/02/2011 ÀS 02:19 PM
Esse debate saiu na sessão ‘Room for debate’, do "New York Times". Traduzi a introdução integralmente, mas as posições de cada debatedor eu resumi. No final está minha própria opinião, a quem interessar possa. Quem quiser conferir se eu fiz besteira, eis o link pro original.
Primeiro foi a notícia de que estudantes universitários norte-americanos estudam bem menos do que costumavam estudar. Agora sabemos, pelo livro recém-publicado “Academicamente à deriva”, que 45% dos graduandos dos EUA aprendem muito pouco em seus primeiros dois anos de universidade.
O estudo, realizado por dois sociólogos, Richard Arum, Da Universidade de Nova York, e Josipa Roksa, da Universidade da Virginia, também constatou que metade dos estudantes pesquisados não se inscreviam em cursos que requeressem 20 páginas de texto escrito no semestre anterior (ao da pesquisa), e que 1/3 não se inscrevia em cursos que requeressem 40 páginas de leitura por semana. Essa pesquisa foi recebida com algumas críticas. Mas a grande questão é: Será que as universidades, em seu esforço de aumentar o número de alunos formados, e estes, felizes, emburreceu seus currículos? Se sim, quem se deve condenar? O que devem fazer os pais e os pagadores de impostos federais?
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FLÁVIO PARANHOS
EM 11/01/2011 ÀS 03:50 PM
Desde há algum tempo deixei de ler Arnaldo Jabor. Pelo mesmo motivo que não leio Diogo Mainardi e até mesmo o brilhante João Ubaldo Ribeiro — tornaram-se monotemáticos, e, como tais, monótonos. Os deslizes morais do governo Lula se transformaram em fortes e irresistíveis lâmpadas acesas para os escritores-mariposas (ou seja lá que inseto for que se sente atraído por luz). Não é que eu faça parte do grupo que perdoa o mensalão e similares. De jeito nenhum. O PT acabou pra mim. Existe tanto quanto o PSDB de FHC ou o PP de Maluf. Coloco-os na mesmíssima cumbuca, não faço a mais microscópica diferença entre eles. Mas estou me desviando.
Não lia mais Jabor há algum tempo, mas li sua coluna no jornal “O Popular”, que fala sobre a última Bienal de SP. A obra de arte deve ser exaltante, defende ele, criticando as instalações com pretensas mensagens sócio-políticas. Diz Jabor: “A sensação dominante que tive foi de ruínas ou de despejos da civilização. Os trabalhos repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma vergonha de ser “arte”, vergonha de provocar sentimentos de prazer”. [Grifo meu]
Isso me fez lembrar de Slavoj Zizek, um filósofo cuja obra gosto muito de ler, embora dele discordando várias vezes. Zizek, a cujo livro “Lacrima Rerum — Ensaios Sobre Cinema” recorri em duas colunas minhas na revista “Filosofia Ciência & Vida”, a pretexto de analisar filmes do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, tem um estilo direto, objetivo (a não ser quando entra em terreno lacaniano) que muito me agrada. Mas desvio-me novamente. Enfim, eis do que me lembrei, quando li Jabor: “Supostamente, apreciamos a arte tradicional, espera-se que ela traga prazer estético, ao contrário da arte moderna, que causa desprazer; a arte moderna, por definição, fere. Nesse sentido exato, a arte moderna é sublime: causa prazer-na-dor, produz seus efeitos por meio do próprio fracasso, na medida em que se refere às Coisas impossíveis. Em contraste, parece que a beleza e o equilíbrio harmonioso são cada vez mais do domínio das ciências (...)” (“A Visão em Paralaxe”, Boitempo, p. 200).
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FLÁVIO PARANHOS
EM 18/10/2010 ÀS 01:36 PM
Sou fã do colunista da “Folha de São Paulo” Luiz Felipe Pondé. Mas não sou um fã acrítico. Sua coluna de 11-10-2010 (“Vai encarar?”) é uma defesa equivocada da bandeira anti-aborto. Com seu estilo inconfundível (do qual, confesso, gosto muito), provocador, ele já abre dizendo que, embora faça parte da elite intelectual, está no time dos contra. Seu raciocínio (até certo ponto válido) é que os contra são costumeiramente tachados de retrógrados e geralmente pertencentes a grupos em degraus mais baixos, intelectualmente falando. Isso não é inteiramente verdade. O que é verdade é que, não raramente, os contra costumam se valer do que eu chamo argumento-fim-de-linha: “Porque Deus quis (quer) assim”. Esse tipo de pessoa costuma, sim, ser de um degrau intelectual inferior, pois lhe falta argumentação sólida. Mas ele nem sente isso, pois o argumento-fim-de-linha é tudo que lhe basta. E ele crê, então, que basta aos outros. Não basta. E Pondé sabe disso. Tanto, que preferiu não lançar mão de argumentos teológicos (“teológicos” não são um sinônimo de “religiosos”). Preferiu partir pro biológico. E aí caiu do cavalo. Não sei se ele percebeu, se foi ato falho ou se foi consciente, mas ele diz ser contra o aborto “porque o feto é uma criança”. E o embrião, é o quê? Feto é a partir da nona semana de gestação. Em seguida, ele ataca logo qualquer tentativa de definição científica para o início da vida. Outro ato falho? Já há vida antes mesmo da fecundação. Se Pondé praticou aquilo que adolescentes praticam, que de acordo com Woody Allen é “sexo com uma pessoa que eu amo”, ele desperdiçou milhões de vidas em vasos sanitários, ralos de chuveiro e sabe lá mais onde. Assassino!
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FLÁVIO PARANHOS
EM 24/09/2010 ÀS 11:36 AM
Logo no início da ópera ‘La Bohème’ os amigos artistas Rodolfo (poeta) e Marcello (pintor) conversam sobre o clima gelado que faz em seu modesto e mal aquecido apartamento. Rodolfo, então, propõe queimar os manuscritos da tragédia na qual trabalhava para alimentar o forno. O que realmente acaba por fazer dali a pouco, já com o testemunho dos outros dois amigos, Colline, o filósofo, e Schaunard, o músico.
A primeira das 47 vezes em que vi essa cena fiquei chocado. Como pode alguém ser tão desprendido?! Sabedor do trabalho que dá gastar horas debruçado em folhas de papel (tela de computador, vá lá) para produzir algo de que se possa ter orgulho (ainda que seja o único a parecer sentir isso) morri de agonia enquanto Rodolfo e seus amigos jogavam folhas pra cima e pra dentro do forno. Mas então... a revelação. É pra isso que serve! Arte serve pra nos aquecer. Não em sentido figurado, mas literal mesmo.
Ok. Forcei. A revelação foi outra. Uma ária de ópera respondeu a velha questão (Pra que servem a arte e as humanidades?) de forma infinitamente mais objetiva e precisa do que meu artigo publicado no "Rascunho" e na "Revista Bula" (Pra que serve a literatura?), por sua vez uma tentativa de diálogo com o blog de Stanley Fish (Will the humanities save us?; The uses of humanities). Resumindo: Fish, embora seja da área de “Artes e Humanidades”, concordava ser difícil convencer as fontes financiadoras a alocar dinheiro para essas áreas nas universidades do Estado de Nova York, em detrimento de áreas como biologia ou saúde. Afinal, o que ganha o Estado com mais uma interpretação de Hamlet? Ou um livro de poesia? Ou um de crítica cinematográfica? Ou, pior ainda, um de filosofia moral? Nada.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 18/08/2010 ÀS 09:40 AM
De uns tempos pra cá inventaram um eufemismo politicamente correto para burrice — analfabetismo funcional. O sujeito sabe ler, mas não sabe interpretar. Considero um insulto aos analfabetos — de fato — inteligentes, além de se perder em contundência, o que é uma pena, esteticamente falando.
Sei que um escritor elegante deve ignorar comentários idiotas ao que escreve de forma magnânima, que não adianta defender-se atacando, e sei que parecerá que é o que farei aqui. Mas não. Quer dizer, sim e não. Sim, quebrarei o protocolo e citarei comentários idiotas a coisas que escrevi aqui e alhures. Não, não pretendo me defender de nada, até porque acho divertido e, mesmo, confesso, eventualmente faço de propósito, já sabendo que a gente burra morderá a isca. O que não me impede de me surpreender com o fato de que sempre há gente burra mordendo minhas iscas.
Disponibilizarei abaixo uma crônica minha publicada no jornal “O Popular” de 09 de agosto de 2010 e minha coluna de Filosofia & Cinema da revista “Filosofia Ciência & Vida” (Editora Escala) de No. 40 (a que está nas bancas é a No. 49, portanto a que cito é de 9 meses atrás. A propósito, Carlos Willian, seu preguiçoso, não vai trocar a imagem da revista no lado direito da Bula, não?!). Estas, juntamente com “Por que Avatar é idiota”, receberam a manifestação “carinhosa” (atenção gente burra, estou sendo irônico, quase sarcástico) de alguns leitores imbecis que levaram ao pé da letra o que está escrito. No caso da crítica a “Avatar” e da coluna, meu crime foi menosprezar as mulheres, incluindo minhas próprias esposa e filhas (!!!!!). Já no caso da crônica, eu “incitei ao assassinato” (tive uma crise de riso com essa) e... o que mais? Deixa ver se lembro... Algo como “o mundo já está violento e sentimos nossa pequenez, etc, etc”. Pequenez de neurônios, só se for.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 30/06/2010 ÀS 09:57 AM
— Mas então note o senhor como os pontos, antes obscuros e por demais...
— Um aparte.
— Sim?
— A mim parece que o senhor se distancia do ponto principal.
— Que seria?
— Se não sabe do que tratamos particularmente...
— Em absoluto.
— Então?
— Esticando seu conceito de dialética aos extremos da lógica...
— O que já seria uma contradição em termos.
— Em termos ou de termos?
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FLÁVIO PARANHOS
EM 14/04/2010 ÀS 01:56 PM
Costumo abrir o curso de ética para alunos da graduação em Medicina da PUC-GO de uma forma, digamos, um tanto inusitada. Escrevo no quadro, bem grande: Eu não presto. Daí peço para que leiam. De início, desconfiados, imaginando estar na sala errada, ou que o professor seja maluco, leem baixinho. Então os provoco até que atinjam o grau de catarse desejado por mim (alguns capricham até demais, numa espécie de confissão pública, vai saber). Sim, há um propósito nisso. Aliás, dois. O primeiro é ilustrar uma versão da falácia naturalista (do ser não se deriva necessariamente o deve ser — da constatação de que o ser humano não presta não se segue que ele não deva prestar).
O segundo propósito é o que me traz aqui. Pretendo que questionem a crença de que está tudo bem se fazemos algo em acordo com nossa consciência. Ora, quem é “nossa consciência”, essa coisa que enchemos a boca pra falar? Nós mesmos. Há, porventura, algum juiz mais complacente conosco do que nós mesmos? Quantas vezes nos perdoamos por pecados, pecadilhos e, em alguns casos (quiçá raros), pecadões nossos? Construímos labirintos lógicos (e ilógicos) de auto-convencimento da nossa mais absoluta inocência. E, olha só, somos o melhor advogado do mundo, pois sempre nos convencemos.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 20/02/2010 ÀS 04:16 PM
Assistia “Capitu”, série da Globo dirigida por Luiz Fernando Carvalho, com o intuito de escrever a respeito em minha coluna de Filosofia & Cinema na revista “Filosofia Ciência e Vida” (Editora Escala, momento propaganda), quando aproveitaria para falar sobre a virtude da coerência, valendo-me do gancho de minha polêmica com o escritor Domingos Pellegrini, no jornal literário “Rascunho” (outro momento propaganda, estou parecendo até o filme “Amor sem Escalas”, uma propaganda atrás da outra).
(O link para o citado artigo no “Rascunho” vai aqui mas para quem tiver preguiça de buscar e ler, resumo: Pellegrini critica “Dom Casmurro” por ter um personagem de moral duvidosa (Bentinho), desaconselhando-o para colegiais, mas, ao mesmo tempo, confessa nunca ter lido pra valer, parasitando seus colegas nos trabalhos de escola).
Enfim, assistia “Capitu” no conforto de minha casa, quando, numa das cenas inicias, ouvi Dona Glória (mãe de Bentinho) soltar um “onde” no lugar de um “quando”. Li “Dom Casmurro” sei lá quantas vezes, não me lembrava dessa derrapada de Machado. Transcrevo abaixo a versão da TV:
— Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze a semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos, ONDE a família Pádua perdeu tanta coisa; daí vieram nossas relações...
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