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POR EM 05/01/2010 ÀS 02:25 PM

Coisas pra fazer (e deixar de fazer) em 2010

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Revista BulaMesmo sem saber se ainda estaremos respirando na próxima alvorada, pensamos no amanhã com uma convicção que beira a ingenuidade, mas nos mantêm na luta. Ainda que as metas traçadas no janeiro passado ainda estejam patinando no presente, inacabadas, nós ousamos estipular outras para o ano vindouro. Pessoas inteligentes, centradas, pragmáticas, as empresas sérias, sólidas e bem sucedidas fazem planejamentos estratégicos com inabalável auto-confiança.

Muitas vezes se diz: um ser humano plenamente realizado e sem ambições já está morto. É assim, por outro lado, que se sente um homem enterrado em melancolia, mergulhado na depressão, aprisionado ao passado, angustiado com o presente, desencantado com o futuro. Este merece a companhia utilíssima de quem se importa com a sua integridade física, a fim de se evitar uma tragédia anunciada.

Mesmo os desafortunados de longa data anseiam por melhores dias e fazem planos simplistas para o futuro, quando tirarem os pés da lama. É no lodaçal das crises que se testam os verdadeiros amigos. John Lennon cantou: “ninguém o ama quando você está por baixo”. Amigos incondicionais, portanto, são agulhas no palheiro, adversários à altura contra a miséria, a doença e a demência.


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POR EM 29/12/2009 ÀS 06:04 PM

Aleijado por dentro

publicado em

Revista BulaDezembro é ducaralho! É mês em que cegos acorrem às ruas como uma legião. Apossando-se dos semáforos da cidade, estão sempre ladeados por fiéis escudeiros que enxergam longe, dentro da alma das pessoas. São homens de visão, sócios abnegados, comparsas pau-pra-toda-obra que mais se parecem com as rêmoras, os peixes comensais oportunistas que ficam grudados nos ventres dos tubarões através de poderosas ventosas, próximos às suas bocas, a fim de se fartarem com fragmentos de carnes dos animais devorados. Com as sobras se fazem fartos banquetes. Igualmente sóbrios, interessados em tirar proveito do clima natalino que hipnotiza as cidades, período do calendário em que muitos se julgam os baluartes da caridade e se auto-denominam “pessoas do bem”, saltam às ruas outros especialistas em mendicância: grávidas com semblantes abatidos, aleijados com todas as variedades de anomalias (estes cidadãos não merecem ser chamados de “portadores de necessidades especiais”, pois fazem da própria deficiência física uma vernissage deprimente), doentes exibicionistas com tubos e coletores fecais, ex-viciados viciados em arrecadar dinheiro de motoristas com remorso, dentre outros. O fraudulento espetáculo de benevolência atinge o seu ápice no final de dezembro. A invasão de shoppings, feiras e lojas pelo povaréu em êxtase garante o faturamento do comércio, os pagamentos de 13º salários e a arrecadação estrondosa de impostos pelo Governo (muitos dos quais revertem para meias, cuecas e outras indecentes peças do vestuário da corrupção).


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POR EM 23/12/2009 ÀS 03:41 PM

Jonas Brothers x Lenine

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Lenine por Lucas LimaFelipe estuda num tradicional colégio de freiras acostumado a matricular e educar (sempre que consegue, apesar dos pais) os filhos de famílias das classes média, média alta e alta (será que o IBGE ainda utiliza esta nomenclatura ou prefere letras do alfabeto?). Enfim, não se pode negar, trata-se de uma escola que recebe, em maioria, crianças abastadas da sociedade. O rapagão tem quatorze anos. Está concluindo o Ensino Fundamental que, na minha época (vejam só como estou velho...) chamavam Ginásio, num tempo em que “ficar” era sinônimo de “permanecer”, e “dar uns amassos” significava, na pior da hipóteses, algum tipo de procedimento culinário como fazer pão de queijo ou rosca.

Felipe ficou sabendo que o cantor Lenine estava na cidade e faria um show logo mais à noite. Lampeiro e confiante, ele convidou amigos da escola para assistirem ao espetáculo, cujos ingressos estavam com preços promocionais, uma verdadeira pechincha (será que a moçada de hoje sabe o que significa “pechincha”?! Do jeito que estão precoces é bem capaz de acharem que “pechincha” seja vagina, punheta, sexo oral ou outro tipo de sacanagem...). Bem, Felipe tomou uma baita vaia. Foi alvo de chacotas dos outros adolescentes e ganhou algumas “pedaladas” (tapas na parte de trás da cabeça... não é legal?!..). “Quem é este tal de Lenine?!”, quis saber a menina de aparelhos nos dentes e I-Phone plugado nos ouvidos. Mesmo desapontado com a reação da galera, Felipe insistiu que fôssemos ele, eu e sua mãe ao show do menestrel pernambucano. Considerando que adolescentes têm vergonha e odeiam passear com os pais, não perdi a oportunidade para sairmos juntos. Fomos. Animadíssimos.
 


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POR EM 15/12/2009 ÀS 03:05 PM

Nunca imaginei que isto pudesse acontecer comigo, até que um dia...

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Revista BulaNão se animem. Não é um conto erótico. São coisas que acontecem com a gente a todo instante. São pensamentos que varrem ou poluem nossas mentes até mesmo quando estamos dormindo. Meus maiores medos: perder um pênalti, voar, morrer queimado ou asfixiado, ter os pensamentos lidos por alguém. Como todo ser humano normal (?!), não gosto de filas. Mesmo as filas pra se receber dinheiro, que é a razão maior de se viver (e morrer). Dentro da agência bancária lotada, eu só suportava aquela fila por causa da moça bonita a minha frente e um cheque ao portador prestes a ser descontado no caixa. Suas mãos delicadas seguravam uma pilha de carnês, duplicatas e meus desejos.

Enxerguei, abaixo dos seus ombros, uma tatuagem. O primeiro impulso, como qualquer impulso que se preze (atitude impensada), foi tocá-la, lamber a sua pele experimentando o sabor das tintas. “Quero grudar no teu corpo / feito tatuagem / que é pra te dar coragem / pra seguir viagem / quando a noite vem...” (Chico Buarque de Hollanda). Instinto domado, eu recuei. O cabelo curtíssimo expunha a nuca tentadora e um minúsculo coração flechado. Logo abaixo, em letras garrafais, o nome de um homem: EDUARDO. Ainda mais abaixo, quase no meio das costas, como se fora o rodapé de um livro, uma “nota do editor”, um adendo, uma justa explicação em letras miúdas como se a cláusula de um contrato: “lembrança de um passado feliz”.


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POR EM 08/12/2009 ÀS 08:26 PM

Intolerância 10

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A prefeitura está demolindo os mocós. Mocó é uma palavra com significados variados. Neste contexto, quer dizer “esconderijo de malandros”, conforme definição que eu busquei no dicionário e nas palavras do secretário de obras do município. São edificações inacabadas ou precárias, abandonadas pelos proprietários, e que servem de abrigo aos moradores de rua (homens, mulheres e crianças miseráveis, criaturas excluídas, cidadãos à margem da sociedade). Agindo assim o prefeito acredita estar combatendo a violência na cidade e o tráfico de drogas. Patética, a vizinhança aplaude, aprecia a demolição (lembrei-me agora da “Saudosa maloca” cantada pelos “Demônios da Garoa”). Resta saber como acabar com os “mocosados”, uma vez que não dá pra passar com as esteiras dos tratores por cima deles (pelo menos, por enquanto; não na frente das crianças...). Eles são “um duro problema para a cidade”, mas não são lajes de concreto. Já aconteceu de alguns prefeitos exportarem os seus miseráveis para cidades vizinhas, “resolvendo a questão da mendicância, da vadiagem e dos pequenos delitos”. A criatividade de alguns políticos é tão aguçada quanto a sua incompetência. Custa compreender por que o poder público não retira dos mocós os marginalizados, dá-lhes banho, corta-lhes os cabelos, apara as suas unhas, serve a eles comida e água tratada, enfim, os acolhe em albergues até que vícios sejam tratados, os adultos sejam recolocados no mercado de trabalho, e as crianças, dentro das salas de aula.


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POR EM 01/12/2009 ÀS 09:18 AM

Salgando carne podre

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Tenho quarenta e quatro anos, mas me sinto um velho. Aliás, por definição e pragmatismo, o que é um homem velho: 60, 70, 90 anos? Aquele que não pensa mais em sexo? Um sujeito sem metas, sem planos para o futuro? Um corpo duro de artrose? Afinal, quando é que merecemos tal rótulo, se hoje beiramos os cem anos de existência e a vida média do brasileiro não pára de crescer? Irrelevante para mim. Sinto-me capenga, saudosista, melancólico e ranzinza, como um velho de qualquer idade.

Há alguns dias, fui assistir a um show do cantor Lulu Santos. Compareci guarnecido com raspas daquele espírito jovial que eu detinha nos anos 80, quando presenciei duas outras apresentações eletrizantes do roqueiro. Naqueles tempos o rock nacional vivia o apogeu, com o surgimento de inúmeros artistas e bandas. Alguns se firmaram e fizeram história. Outros, por pura falta de conteúdo e atitude, dissiparam que nem fumaça. Assim como eu, achei Lulu um tanto baqueado. Há alguns dias, a data do show foi adiada por “problemas de saúde do artista”, conforme justificaram os promotores. Esqueci que meus ídolos (sim, eu tenho um bocado de ídolos profanos) envelhecem. A qualidade do som pareceu-me bem ruim. Eu mal conseguia ouvir a sua voz. Problemas técnicos, falta de condições acústicas favoráveis, ou a natural deterioração do meu aparelho auditivo?


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POR EM 23/11/2009 ÀS 04:24 PM

Tudo parece uma merda

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TPMEsta foi um amigo quem contou. Ao entrar na aeronave, ele esticou o pescoço e deu aquela espiadela costumeira checando a cabine. Levou um susto ao avistar uma mulher sentada no banco do piloto, aparentemente fazendo anotações numa planilha, checando equipamentos. Cochichou com a bonita aeromoça (“lexotan” em forma humana), especulando se aquela mulher seria uma espécie de auxiliar do piloto, outra aeromoça. Quem sabe, no máximo, uma tripulante enxerida fuçando nos painéis. “Não, senhor. Ela é a comandante deste Boing”, declarou, impiedosa. Mesmo as mulheres mais lindas podem ser cruéis.

Como a maioria dos seres humanos normais, meu amigo tem medo de avião. Tentando minimizar o espanto, ele comentou dali mesmo, na entrada da cabine: “Ainda bem que avião não dá marcha ré e nem faz baliza né, comandante?!”. “É. E o senhor tem muita sorte por eu não estar na TPM”... A gargalhada foi geral e o voo seguiu sem turbulências e outras surpresas.

Estive em Minas Gerais na semana passada. Pensei que o trânsito de Goiânia fosse caótico, até enfrentar as ruas de Belo Horizonte, por onde eu não pisava há muito tempo. Ruas, avenidas, ladeiras entupidas de carros e ônibus. Desrespeito aos cruzamentos, às faixas de pedestres, xingamentos corriqueiros, buzinaço generalizado (motoristas querendo ganhar a disputa no grito).


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POR EM 16/11/2009 ÀS 10:44 AM

O poeta de vestidinho vermelho

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Eliosvaldo Neves é um poeta medíocre, mas teve uma idéia genial. Ele finalmente sacou que a sociedade, berço de toda hipocrisia, cultua o podre como se fora o suprassumo da intelectualidade. Apesar do Q. I. limítrofe com a idiotice, ele assim concluiu ao ver pela televisão (Eliosvaldo quase não lê jornais e livros...) a notícia da universitária safadinha que quase foi apedrejada pelos colegas dentro da faculdade por ter comparecido à aula trajando um vestidinho vermelho colado ao seu corpinho gorducho. A pergunta que não cessa: seria a sua calcinha também vermelha?! Não bastasse o tumulto proporcionado pela fogosa e pelos universitários hipócrita-excitados, a diretoria julgou que seria justo e urgente banir a falsa loira do seu plantel. Eu soube que eles retroagiram na decisão, preocupados com os processos judiciais que certamente pipocariam, garantindo assim alguma grana à protagonista e seu astuto advogado.

Antenado às raras oportunidades para aparecer na fita e mostrar o seu “trabalho”,  Eliosvaldo entendeu que, protagonizando uma cena tosca no local certo e na hora certa, certamente a sua poesia viria à tona e o mundo tomaria conhecimento da sua existência, mais ainda, da genialidade e pujança da sua obra (cocô) poética. Teimando com literatura em Goiás tem muito tempo, o dublê de poeta se sentia injustiçado pela comunidade e humilhado pelos demais escritores, intelectuais do pedaço que ele considerava uma verdadeira “panelinha”.


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POR EM 09/11/2009 ÀS 10:43 PM

Como estamos nos safando?

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Já escrevi um monte sobre este assunto. Tem um bando de gente pedindo esmolas nos semáforos da cidade, mas ninguém faz nada. Nem o governo, nem a população. Para se livrar do  problema, muitos atiram suas moedas. Pagando o dízimo aos miseráveis acertam as contas com Deus, disfarçam o constrangimento e o remorso. Ases da hipocrisia, vamos tocando a vida. Anestesiados, bestificados pelo poder, os gestores públicos minimizam a situação, garantem que quase tudo vai bem, e continuam tapando sol com peneira, buracos do asfalto e aplicando tinta cal nos meio-fios.

Passo todos os dias, mais de uma vez, em determinada avenida da capital, onde menores de idade se revezam na mendicância, vinte e quatro horas por dia. Várias e várias noites eu já me deparei com o mesmo grupo atuando naquele “point”. Ainda que chova, a meninada não arreda o pé. Ao contrário, contam com o medo e a misericórdia dos motoristas e transeuntes que se desfazem dos trocados garantindo assim uma viagem muito mais confortável.


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POR EM 09/10/2009 ÀS 02:14 PM

A escrotidão

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“Saia do meu caminho / Eu prefiro andar sozinho / Deixem que eu decida a minha vida / Não preciso que me digam / De que lado nasce o sol / Porque bate lá meu coração...” (Belchior)

João Mário é um bom menino. Filho de pais atletas, adora natação. Tem quinze anos de idade, o corpo de um homem de dezenove, e a cabeça de uma pessoa que eu queria voltar a ser. É... João Mário sabe mesmo como viver...

Acontece que o adolescente mudou-se de escola. Mudou-se na marra, porque concluiu o Ensino Fundamental (que eu conhecia como “primário” e “ginásio”) e a escola ensina só até o 9º Ano (que antes a gente chamava de “oitava série”). Agora no mês de agosto ele iniciou o segundo semestre do ano letivo sob ameaça de “tomar bomba”, “levar pau” em duas ou três matérias. João, na verdade, se sente muito fora do ninho.

De um ano para o outro, sem alerta e aviso prévio, foi promovido a adulto, mesmo com o recorrente raciocínio pueril permeando a sua mente. Claro, são pensamentos mesclados com alguma dose de picardia, bem próprio da avalanche hormonal promovida pelas gônadas adolescentes.

João está infeliz, e fala em abandonar a nova escola. Não deu liga. Não “enturmou”. Na verdade, quando está lá dentro sente até mesmo que o oxigênio lhe falta nos pulmões. João sente saudades do pátio enorme da escola anterior, das quadras de esporte, do ginásio coberto, da cantina, das sombras das árvores e do barulho insano que a molecada fazia no recreio, correndo pra lá e pra cá como se fossem felizes.

João, agora, frequenta uma sala moderna, climatizada, com outras dezenas de meninos e meninas, todos com muitas acnes, espinhas e dilemas espinhosos. Os jovens têm sido incitados a agirem como adultos de uma vez por todas. De acordo com o diretor da escola e os professores, a “grande corrida” já começou. Demanda-se pensar seriamente no futuro. Carece deixar o passado aos fracos e investir, o quanto antes, nas carreiras de médico, engenheiro, dentista, jornalista, etc. João e seus colegas são amadurecidos à força pelos docentes, que nem fruta verde guardada na fornalha.

As palavras de ordem proferidas pelos professores são: competência, dedicação, sacrifício, renúncia, resultado e vitória (afinal). Mas João ainda não quer vencer na vida (a não ser as competições de 100 metros livres ou 200 nado de costas... João é um monstro dentro de uma piscina...).

Aliás, o fato de insistirem que seus colegas de sala são, no fundo, no fundo, concorrentes deixa o João confuso. Ele não quer competir com seus amigos, só com o cronômetro. Queria conversar mais com eles, passear, curtir as infinitas festinhas das debutantes da sua geração, e jogar futebol na hora do recreio (mesmo sendo desastrado com a bola nos pés). Mas a escola não tem uma quadra poliesportiva. Só alambrado. Um prédio moderno edificado com paredes texturizadas e monitorado com câmeras de segurança e bedéis enxeridos. João se sente prisioneiro. Embora não tenha asas, ele já pensou sair voando dali várias vezes. Será que você está enlouquecendo, João?!

Os pais ficaram preocupados com o baixo desempenho do rapaz que, até então, sempre mantivera uma boa média nos boletins. Foram conversar com o diretor da escola e com a coordenadora, mulher estudada, competente, arvorada em sei lá quantos “MBA” da vida. Foram se inteirar da situação, tomar pé da coisa, buscar respostas para o surpreendente dilema do filho.

Saíram de lá piores do que entraram. Ouviram coisas curiosas a respeito de João. Que ele era assim meio avoado, distraído, e que ficava com o olhar perdido na paisagem da janela. Enfim, talvez ele estivesse meio adoentado, acometido com o tal “déficit de atenção”, doença neurológica das mais comuns nos nossos dias, nada que um bom médico e os potentes psicotrópicos não resolvessem, com certeza. E João precisava estudar mais, concentrar-se mais nas atividades, ser mais participativo na sala de aula, entrar no jogo, cair na real, compreender que não é mais uma criança e, sim, um homem formado (olha só pro tamanho deste menino!).

Os pais argumentaram que João andava melancólico. Queixava-se que não tinha mais tempo para ler livros, hábito que ele desenvolvera desde que fora apresentado às letras do alfabeto quando ainda usava fraldas. Sentia-se meio fraco e sem energia porque diminuíra as atividades esportivas por causa da carga massiva de tarefas e pesquisas escolares. Gostava de nadar dois mil metros todos os dias. Agora, tinha que se contentar com as braçadas apenas aos finais de semana. Com aquela estória de aulas e provas todos os sábados, João não se conformava de jeito nenhum.

O diretor e a coordenadora foram polidos, porém, enérgicos: ou João Mário se adequava à escola ou teria que mudar-se dela. Afinal, os senhores certamente entendem que não se pode mudar todo um sistema, toda uma programação, por causa de uma minoria. Taí a concorrência, pra quem quiser ver. Sem sacrifício não haverá resultado. Se João pretende ser um adulto bem sucedido neste mundo globalizado, precisa encarar os estudos de outra forma. A vida á assim mesmo, minha gente. Não é que nem na minha época ou na época dos senhores. Sinto muito. Os tempos mudaram...

Mas, será que João Mário vai conseguir mudar?!    
 


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