Charles Chaplin foi um homem visionário, um empreendedor audacioso na sua época, um artista reconhecido e admirado, provavelmente no mundo todo. Polêmico e criativo, ele quebrou inúmeros paradigmas. Sua adorável personagem cinematográfica, por si só, foi revolucionária. Carlitos é o vagabundo mais amado que já se teve notícia. Ou seriam Jesus Cristo, Francisco de Assis, Gandhi?! Todos eles foram homens abnegados, líderes insurgentes, andarilhos sem endereço certo, criaturas desapegadas ao dinheiro e às coisas materiais que ele compra (e o tempo cuida de corroer).
Aquela cena antológica do Carlitos tentando alegrar uma criança, ao criar um dançarino imaginário usando dois garfos e dois pãezinhos, e tendo a mesa como tablado, jamais me saiu da memória. Magia de cinema. Inventividade dos gênios. Poesia pura. O amor pela profissão.
O chavão “a vida imita a arte” quase nunca acontece no cotidiano. Como diria o cantor cearense Belchior (que protagonizou tantas discussões banais na mídia a respeito do seu suposto sumiço...): “a vida é muito pior”. Ontem reencontrei um mendigo o qual eu não via há pelo menos vinte anos. Um anônimo na minha juventude.
O vagabundo (ou seria, vadio?) perambulava nas imediações da casa onde morei na infância e adolescência. Vagabundo e vadio são adjetivos fortes. Costumo usa-los em duas situações bem definidas, embora paradoxais.
Na primeira, quando estou muito nervoso, indignado com alguém. “Mas que vagabundo...”, eu penso, sem dizer, com medo do efeito da palavra. Na segunda, com privacidade, consentimento e gosto: “Sua vagabunda! Vadia!”... Tato e audição. Eis aí dois sentidos a serem fartamente explorados numa mulher.
O sujeito subia, descia a rua, subia novamente, todo santo dia. Quase sempre estava bêbado e inofensivo, apesar do medo que a criançada tinha dele. Um hilário gaúcho da vizinhança, quando deparava com o rapaz desacordado de tanta pinga, deitado defronte o portão da sua casa, catava a mangueira, sabão, bucha, e dava um banho nele. Fazia o asseio providencial aproveitando-se do pileque semi-comatoso do rapaz.
O andarilho subsistia com o adjutório dos moradores. Um prato de comida, um pão com salame, uma roupa que já não servia mais, frutas frescas, uma penca de bananas quase passadas, uma atenção que era meio negligente, pois superficial. Ninguém jamais soube o seu nome. Não dizia coisa com coisa. Só pedia água, uma roupa usada e dinheiro pra comprar comida (e que ele gastava com pinga).
Freguês assíduo da igrejinha local, muitas vezes foi enxotado pelo padre americano de sotaque carregado, e que não tinha paciência para lidar com o ele. Também não tínhamos muita paciência com seus sermões monótonos e conservadores, Sr. Padre... Rapidinho as ovelhas se desgarravam do rebanho.
A sua cama era um amontoado de folhas de papelão e jornal. Dizem que o papel-jornal é quentinho quando o frio da madrugada parece querer trincar os ossos. Debaixo do chafariz sem água (por que a Prefeitura nunca consertava aquele maldito chafariz?!) ele se deitava para fugir do sereno da noite e da brutalidade dos meliantes (que já barbarizavam naquela época).
Um dia o nosso vagabundo predileto sumiu. Partiu sem deixar notícias, sem dizer pra onde, incomodando a rotina da gente, deixando todos injuriados. A maioria pensou que ele estivesse morto, arrebatado pelos maloqueiros ou expurgado pela polícia que adorava se divertir com os adeptos compulsórios da vadiagem. Senti falta daquele estranho tão familiar (?), um homem sem nome e sem nada.
Fiquei tão surpreso em revê-lo que quase provoquei um acidente de trânsito ao desacelerar o carro abruptamente. Encostei o automóvel na guia e examinei o meu mendigo de cima até embaixo. Era ele mesmo. O corpo judiado, os pelos brancos no peito, na cabeleira mal aparada e na barba por se fazer denunciavam o desgaste apressado do tempo. A bermuda puída e escura tinha a mesma cor da sua pele sem asseio. Meu Deus, por onde andará aquele divertido vizinho gaúcho?
Conversando com algumas pessoas na vendinha descobri que ninguém sabia a seu respeito, por que entrara naquela situação, de onde era, se possuía parentes, mulher, filhos, documentos, CPF... Ora, bolas... Um CPF... Quem precisa dele pra viver?!
Enfim, embora já perambulasse (sempre bêbado) pelas redondezas há uns dois anos, ele era um total desconhecido. Entrei no carro decepcionado com a desinformação do povo, e que era a mesma que eu tinha quando o sujeito andava a esmo pelo meu antigo bairro. Um homem desconhecido, um qualquer que se entupia de álcool etílico pra desligar o mundo.
Embora as autoridades que administram a cidade neguem, a mendicância prolifera. Ela só não cresce mais que a frota de motos e carros novos que entopem o trânsito por causa do consumismo desenfreado e dos subsídios governamentais.
Afinal, somos uma das cidades mais promissoras do país. Estamos muito bem classificados no quesito “qualidade de vida” (o que seria isto, afinal?!). A nossa “renda per capita” deve ser uma das melhores que se tem notícia no Brasil. Além de tudo isto, ainda somos a cidade mais arborizada do país. Bom pros passarinhos. Mas, e os homens?!
Enfim, embora centenas de vagabundos (ou seriam, vadios?.. qual rótulo você prefere, amigo leitor?!) vaguem pelas ruas e praças da capital, podemos nos orgulhar de estarmos bem ranqueados pelos competentes institutos de pesquisa. Pô, será que o IBGE também mede a felicidade da gente?!
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