Quando ouço alguém falar em Eisenstein, saco logo o meu Looney Tunes do coldre
Era uma vez um não-cinéfilo: ensaio ensina como não agir em um jantar inteligente à lá Pondé (se seu objetivo for sair com a Bela da Tarde que gosta de filmes iranianos)

Não sou exatamente um homem de cinema. Para mim, os melhores anos de nossas vidas não são aqueles passados numa sala escura com projetor. Gosto mais de certas cenas, que sempre revejo, do que propriamente de filmes. Aquela dos beijos excluídos dos filmes em “Cinema Paradiso” (ao que me consta, atualmente cotada como kitsch). O tango em “Perfume de Mulher”. O duelo entre Lee Marvin e James Stewart em “O Homem que Matou o Facínora”. Do mesmo filme, a cena em que John Wayne conta ao iludido Jimmy Stewart que foi ele quem matou Liberty Valence: “Assassinato a sangue-frio. Posso viver com isso”. A famosa porta dando para o deserto em “Rastros de Ódio”. A abertura de “Patton”. O reencontro do casal em “Paris, Texas”. A cena final de “Reflexos da Inocência”, que mescla passado e presente ao som de “If There Is Something”, clássico do rock da banda Roxy Music. Aquela vingança de Tom Hanks contra Paul Newman em “Estrada Para a Perdição”. Também a despedida do herói em “Os Brutos Também Amam”, quando a mulher que Shane ama (em silêncio, como deve ser a paixão dos fortes) lhe pergunta “Nunca mais vou vê-lo?”, ouvindo como resposta um adequado “Nunca é tempo demais”. Cenas de atores e atrizes que aprecio, como Robert Duvall, Al Pacino, Vanessa Redgrave, Audrey Hepburn, Tommy Lee Jones, Peter Sellers, Jack Nicholson. Alguma coisa de Almodóvar, outras de Juan José Campanella. Muitas cenas de westerns e de filmes de guerra, mas dos clássicos, aqueles sem preocupações sociais — mas onde estais, westerns de outrora? (Há pouco descobri, feliz, que o grande escritor espanhol Javier Marías é também adepto do faroeste, o que ele conta no seu blog. Nestes estranhos tempos modernos, até Marías tem um blog.) Vocês pegaram o espírito da coisa: algumas tomadas especiais, poucos filmes inteiros. E a ver certos filmes idolatrados, como os da Nouvelle Vague ou do Cinema Novo, prefiro assistir a um documentário. Na verdade, admito que assisto aos mais estranhos documentários: na semana passada, venci feliz as nove horas de “Shoah”. Portanto, sou, de um modo geral e por assim dizer, mais Moniz Vianna do que José Lino Grünewald. Quanto à eterna discussão sobre o caráter artístico do cinema, fico com Mário Sérgio Conti, que o classifica como esporte ao lado da sinuca, do futebol e da natação.
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Corre sério risco aquele que ousa mexer em tradições cinematográficas, refilmando-as, por exemplo; corre igual risco, mesmo que munido das melhores intenções, aquele que decide explicar, num filme caro e claramente trabalhoso e permeado de efeitos visuais, a gênese de uma “série” como “Planeta dos Macacos”.
Nunca houve uma mulher como Gilda (do filme “Gilda”, com Rita Hayworth). Assim como nunca houve um filme com uma legião de admiradores tão intensa quanto “O Poderoso Chefão”, a trilogia de Francis Ford Coppola que melhorou, à larga, o romance do americano Mario Puzo. A história, como a Máfia, parece inesgotável. Tanto que a revista “Gentlemen’s Quarterly” (“GQ”) dedica oito páginas, escritas por Andy Morris, à possibilidade de Coppola, ou outro diretor, continuar a saga, com “O Poderoso Chefão 4”. Críticos severos avaliam que as partes 1 e 2 são o que de melhor o cinema americano produziu em toda a sua história e, em geral, torcem o nariz e os olhos para a parte 3. O diretor teria errado a mão, na história e na escolha de pelo menos uma atriz, Sofia Coppola. Os cinéfilos, ou “poderófilos” (ou “poderéfilos”), não dão a mínima importância aos anatomistas das telas e amam os três “filhos” como “perfeitos” e interdependentes. Mas é possível fazer o quarto “Chefão”? Claro que é — se os produtores e financistas perceberem que poderá render muito dinheiro. Poderófilos, como o poeta Carlos Willian Leite, são contrários. Por quê? Porque avaliam, ao modo de Anton Tchekhov e Henry James, que as histórias não precisam ter fechos totalizantes. As continuidades poderão tão-somente reforçar ou ampliar possíveis pequenas falhas do filme, mas não servirão para iluminar, ainda mais, a grande história da família Corleone, que, originária da Sicília, “tomou” conta dos Estados Unidos, física ou imaginariamente. Andy Morris recolhe de Coppola: “Nunca pensei em ‘O Poderoso Chefão’ como uma série. O livro era bem completo. Só houve pressão para continuar fazendo porque rendeu muito dinheiro. Essa é a fórmula do negócio dos filmes de hoje em dia, em que as continuações rendem mais que o original. Eu não queria mais nenhum ‘O Poderoso Chefão’ depois do primeiro. E, certamente, eu não queria filmar nem o terceiro nem o quarto”. O leitor pode pensar: Coppola foi claríssimo — não veremos nenhum “O Poderoso Chefão 4”. Mas o mundo real, o das finanças, é outro. As palavras-chaves são: se render muito dinheiro, o filme sai, independentemente de quaisquer interpretações de críticos ou poderófilos.
“De Olhos Bem Fechados” possui algumas cenas fantásticas, a música é excepcional, a direção de arte, deliberadamente grandiloquente e cafona, é interessante. Tom Cruise está irrepreensível, no que talvez seja sua melhor atuação. Diversos coadjuvantes brilham. Por tudo isso, “De Olhos Bem Fechados” poderia ser considerado apenas um bom ou ótimo filme, se não tivesse sido dirigido por um mestre. Sendo o filme-testamento de Stanley Kubrick, é decepcionante.
Certa vez, do alto de sua sabedoria de Buda etílico, o grande Tim Maia afirmou que o Brasil é o único país do mundo onde cafetão sente ciúme, prostituta sente prazer e pobre é de direita. Piada tão sociologicamente correta quanto politicamente incorreta. Paradoxalmente, quase a totalidade de nossa elite intelectual e parte considerável da elite financeira simpatizam com a esquerda. Essa proximidade ideológica concretizou-se enquanto projeto em 2002, com a eleição de Lula, o que pode ser percebido nas reuniões de bastidores de campanha registradas no ótimo documentário “Entreatos” (2004), de João Moreira Salles.
Quando se sabe que o mais recente filme de Clint Eastwood tem o título “Além da Vida”, pensa-se logo que o veterano cineasta, atualmente com 80 anos, já se preocupa com a morte, pressentindo sua proximidade. No entanto, assistindo-se ao filme, descobre-se que o seu verdadeiro interesse se restringe aos vivos. A morte é só um MacGuffin (termo criado por Alfred Hitchcock para designar o elemento que mobiliza as personagens e dá origem aos episódios em que se desdobra a trama).
Os vencedores sofrem com o ressentimento dos perdedores, que, como são maioria, acabam por se tornar um imenso proletariado. Aqueles que perdem têm de pôr defeitos absurdos e suspeitos naqueles que vencem. Os vencedores se tornaram vencedores porque “roubaram” alguma ideia. Nós, que não somos gênios, no sentido de gênios criativos que se tornam poderosos em termos financeiros (como Bill Gates e Steve Jobs) ou mesmo estéticos (caso de James Joyce), sempre achamos que os que pegaram uma ideia que parecia simples, e estava dando sopa no mercado, e a transformaram numa ideia lucrativa, ou, no caso literário, esteticamente avançada, só podem ter plagiado. É o caso de Mark Zuckerberg, de 26 anos, criador do Facebook, a rede social que mais cresce em todo o mundo — no Brasil ainda perde para o Orkut, mas não por muito tempo.
Fui assistir o recém-lançado documentário inglês “Senna”, de Asif Kapadia, temendo pelo pior. Esperava uma patriotada melodramática, acrítica e laudatória, como a média dos produtos ligados à marca. O cartaz de divulgação era temerário: abaixo do título lemos “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”. Prognosticava um “Globo Repórter” em película. O fato de ser um longa-metragem sobre um piloto brasileiro, dirigido por um pouco experiente cineasta britânico de origem indiana, que admitiu conhecer pouco de Fórmula 1, não ajudava.
“Algemas de cristal” — Um filme dos primórdios — anos dourados? — do cinema, que passa uma mensagem válida para gerações antigas, atuais e futuras. Por que trata de um tema universal, e sempre atual: a sombra do despotismo controlador da mãe sobre os filhos. A mãe cujo marido se perdeu nas distâncias, ou buscou afastar-se cada vez mais das lembranças do lar onde a personalidade forte da companheira não lhe permitiu ter um lugar.