Filosófico e violento, filme na Netflix é uma experiência desconcertante sobre a loucura do homem

Filosófico e violento, filme na Netflix é uma experiência desconcertante sobre a loucura do homem

Autor nenhum consegue adaptar uma obra literária para o cinema de maneira inteiramente fidedigna. Sempre há que se fazer uma ou outra correção de rota, a fim de tornar fílmica uma narrativa pensada exclusivamente para o papel. O caso se complica o seu tanto em se tratando de textos religiosos, independentemente do teor místico do que vai ali escrito. “Noé” (2014) é o exemplo de trama feita para desagradar, ainda que só a uma ínfima parcela dos espectadores, justamente pela riqueza de possibilidades. O filme de Darren Aronofsky foi mais malhado que Judas em Sábado de Aleluia por religiosos, ao passo que a crítica especializada e grande parte do público o incensava.

Uma das histórias mais famosas de todos os tempos, tomada à luz do fantástico, o que se vê no trabalho de Aronofsky é o aprofundamento do conto distópico do patriarca hebreu encarregado de salvar a humanidade — que passa a se resumir apenas à sua própria família — e um par de macho e fêmea de cada espécie animal, abrigados de um dilúvio numa arca pantagruélica por quarenta dias e quarenta noites. O diretor extrai de alguns versículos do “Gênesis”, o primeiro livro da Bíblia, um épico dotado de fúria, toques de filosofia e o máximo de rigor histórico que consegue.

O encantador em “Noé” é ver Aronofsky bancar suas ideias, a despeito de elas serem ou não rentáveis para o mercado. E, em sendo assim, o roteiro do próprio diretor em parceira com o amigo Ari Handel, neurocientista que conhecera dos tempos em que os dois passaram pelos prestigiosos bancos da Universidade Harvard, em Massachusetts, nordeste dos Estados Unidos, escolhe apresentar um Noé um tanto diferente do que consagrou o senso comum. Vai se descortinando por trás do personagem uma miríade de facetas, fazendo com que o público o enxergue como mais que o eleito de Deus para repovoar a Terra e fundar uma nova civilização, tudo graças a suas virtudes. Aronofsky sugere que Noé teria sido incumbido da maior missão de sua vida simplesmente por descender de Set, o terceiro filho de Adão, homem feito à Sua imagem e semelhança, e Eva. Essa subtrama corre em paralelo à narrativa da inundação, ambas se amalgamando de pouco em pouco a fim de se atingir o clímax do filme quase duas horas depois.

Conforme já se revelou, existem discrepâncias cruciais entre o que se lê nas Escrituras e o apresentado por Aronofsky, ainda que não se configure aqui nenhuma blasfêmia. A história original não fora conspurcada, nem mesmo torcida, mas só interpretada de maneira criativa por um artista seguro de seu talento e capaz de dominar seu ofício como poucos. Sempre haverá quem goste, bem como quem encontre incoerências — a exemplo da beleza dos protagonistas, que mesmo sujos, não se distanciam um milímetro do Olimpo de Hollywood. A esse propósito, o elenco, afinado, tem o condão de manter a história no alto até o fim. Russell Crowe se mostra um ator maduro, dando a seu Noé a dimensão atormentada que o personagem lhe exige, um homem cujo temor a Deus o cega a tal ponto que nem mesmo sua família parece estar à altura de sua devoção, enquanto Jennifer Connelly como Naamé confere à subtrama da relação do casal a carga de sentimento que começava a fazer falta — a reprodução da parceria de sucesso em “Uma Mente Brilhante” (2001), de Ron Howard. O antagonista Ray Winstone, rei dos Homens, uma espécie que se desenvolve à margem dos desígnios do Criador, entrega um bom trabalho ao fazer de seu papel um arquétipo do indivíduo que considera Deus indigno de sua confiança; o Cam de Logan Lerman deixa claro ao espectador por que se torna o sujeito cruel que personifica o pior do espírito humano na nova era que se anuncia; e Emma Watson na pele de Ila, filha adotiva de Noé e tornada sua nora, é sempre uma presença deleitosa, também plena de conflitos e que, por essa mesma razão, o inspira e o desafia tanto.

Não é comum se ver um cineasta de renome superar cânones, derrubar tabus e compor um filme denso como “Noé”, pautado por uma história bíblica que encontra espaço para o fantástico. Encampando uma das grandes lições do Filho do Homem, Darren Aronofsky, como o grão de trigo que cai na terra e se submete à morte, produz uma lavoura completa numa indústria repetitiva e pasteurizada, em que filmes deslizam por esteiras rolantes incessantemente, sem se admitir descanso — nem mesmo para se pensar em alguma coisa que, de fato, valha a pena. “Noé” é um milagre.