Michael Jackson foi vítima da roda da fortuna. Essa tal “fortuna” não se refere ao imenso, e dilapidado, patrimônio do Rei do Pop. Refere-se, talvez, para aqueles mais crédulos, a uma decisão estética que delimitou o início de sua derrocada pessoal e artística. Afinal, como se diz: as palavras têm poder!
A partir de determinado ponto de sua carreira, mais ou menos ali pela época do lançamento do álbum “Bad”, Michael Jackson, nas aberturas de seus apoteóticos shows e especiais de televisão, costumava usar a primeira parte da cantata “Carmina Burana” como fundo musical introdutório. As imagens ficaram conhecidas pela produção de um clipe, filmado no Japão, terra onde Jackson é idolatrado como um deus. Os fãs japoneses extravasam, como se lutassem para se libertar de sua cultura repressiva, calcada pela disciplina e pelo culto ao Imperador: gritam, choram, desmaiam. Em meio a isso, flashes de Jackson caminhando lentamente à contraluz, correndo escoltado por homens uniformizados, acenando, rasgando as roupas, dançando, gritando. Uma apoteose! Tudo isso ao som de música medieval.
Os “Carmina Burana”, do latim “carmen”, ou canto; e “bura”, um tipo de pano grosso de lã, do qual eram feitos os hábitos de monges, são textos poéticos escritos por clérigos dos séculos 12 e 13, conhecidos como goliardos. Tratam da vida mundana: sexo, bebida, beleza, natureza, diversão, sorte e azar. Foram encontrados em 1803 em um convento da Alta Baviera, sendo constituídos de 315 composições, distribuídas em 112 folhas manuscritas. No início do século 20, o compositor Carl Orff musicou alguns desses textos, formando o que se tornou conhecido como “Carmina Burana”. Deu-lhe o subtítulo de “Cantiones profanae cantoribus et choris cantandae”. Estreou em 1937, em Frankfurt, como uma cantata cênica.
Estranhamente, por ingenuidade, ignorância ou simplesmente contando com o desconhecimento do público, a produção de Jackson usava o prólogo “A fortuna – imperatrix mundi”, ou “Sorte, imperatriz do mundo”, nos shows. A letra é desoladora. Basta comparar o latim original com sua tradução:
Original em latim:
O Fortuna,
Velut Luna
Statu variabilis,
Semper crescis
Aut decrescis;
Vita detestabilis
Nunc obdurat
Et tunc curat
Ludo mentis aciem,
Egestatem,
Potestatem
Dissolvit ut glaciem.
Sors immanis
Et inanis,
Rota tu volubilis
Status malus,
Vana salus
Semper dissolubilis,
Obumbrata
Et velata
Michi quoque niteris;
Nunc per ludum
Dorsum nudum
Fero tui sceleris.
Sors salutis
Et virtutis
Michi nunc contraria
Est affectus
Et defectus
Semper in angaria.
Hac in hora
Sine mora
Corde pulsum tangite;
Quod per sortem
Sternit fortem,
Mecum omnes plangite!
Tradução em português:
Ó Sorte,
És como a Lua,
Mutável,
Sempre aumentas
Ou diminuis;
A detestável vida
Ora oprime
E ora cura
Para brincar com a mente;
Miséria,
Poder,
Ela os funde como gelo.
Sorte imensa
E vazia,
Tu, roda volúvel,
És má,
Vã é a felicidade,
Sempre dissolúvel,
Nebulosa
E velada
Também a mim contagias;
Agora, por brincadeira,
O dorso nu
Entrego à tua perversidade.
A sorte na saúde
E virtude
Agora me é contrária.
Dá
E tira,
Mantendo sempre escravizado.
Nesta hora,
Sem demora,
Tange a corda vibrante;
Porque a sorte
Abate o forte,
Chorai todos comigo!
Coincidência ou não, o fato é que Michael Jackson começou a decair física, mental e musicalmente após incluir “A fortuna” em suas apresentações. O que não deixa de ser justiça poética. A hybris, a “queda dos heróis”, é um dos grandes temas da mitologia e da literatura universal. Após lhe dar tudo, a roda da fortuna se voltou contra ele. E pensar que é muito comum a utilização dessa mesma música de mau agouro em cerimônias de formatura e casamento! Isso explica muita coisa.

