Toni Morrison deve ser lida como escritora e não mera militante negra

Toni Morrison deve ser lida como escritora e não mera militante negra

A militância negra (e suas lutas) não deve ser desconsiderada, porque é um fato e uma necessidade, mas a excessiva ênfase neste aspecto esconde o que James Baldwin e Toni Morrison são de fato: escritores, dotados de uma linguagem poderosa, contadores de histórias de primeira linha

Ralph Ellison, James Baldwin e Toni Morrison são escritores poderosos. Entretanto, como são negros, sempre dizem: o “escritor negro norte-americano. É inescapável? Talvez seja. Pois nenhum outro escritor americano branco — exceto, quem sabe, William Faulkner — capta tão bem o mundo dos negros quanto o trio, além de Richard Wright. O que não se comenta, por vezes, é que, embora construam uma civilização ampliada, com a inclusão dos negros, não os tratam de maneira idealizada. James Baldwin talvez seja o que mais “sofre” nas mãos de resenhistas que tratam “O Quarto de Giovanni” (Companhia das Letras, 232 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto) como um romance meramente “gay”. O livro conta, de fato, uma história entre dois homossexuais (brancos: um italiano e um americano). Mas por que não informar ao leitor que a linguagem é poderosa e a história é extraordinária? Se pensam em engajamento, por que não admitir que se trata de um livro “emancipador”?

“Homem Invisível” (José Olympio, 574 páginas, tradução de Mauro Gama), de Ralph Ellison, é um romance sobre negros. Mas, escrito numa linguagem tão finamente elaborada, escapa, possivelmente, de usos políticos. Permite variadas leituras, inclusive as politizadas, ideológicas e multiculturais. Entretanto, por ser um romance “difícil”, de leitura nada amena (cobra um leitor atento), é mais complicado transformá-lo em instrumento de lutas raciais e sociais. A guerra racial, obviamente, está presente, como uma maldição, mas a força da literatura sugere que não se está lendo nem um panfleto nem um livro de história.

A revista “Quatro Cinco Um” de novembro publica artigos — e não exatamente resenhas — escritos pelas escritoras Djaimilia Pereira e Jarid Arraes a respeito de James Baldwin e Toni Morrison. Os artigos têm qualidade e não há problemas com nenhum deles. A única ressalta tem a ver com a tentativa de transformá-los, de modo unidimensional, em militantes da “causa negra”. A rigor, são militantes — James Baldwin era, pois morreu em 1987, aos 63 anos. Mas sua obra supera a pura militância. Ambos são mais do que militantes.

Qual é minha “implicância” em si? A militância negra (e suas lutas) não deve ser desconsiderada, porque é um fato e uma necessidade, mas a excessiva ênfase neste aspecto esconde o que James Baldwin e Toni Morrison são de fato: escritores, dotados de uma linguagem poderosa, contadores de histórias de primeira linha. Engajados, por certo. Mas, ao mesmo tempo, são autores que criaram — criam, no caso de Toni Morrison, porque, aos 87 anos, está vivíssima — uma civilização literária, mais inclusiva do que excludente.

“A Canção de Solomon” — apontado como o melhor romance de sua autoria pelo crítico literário Harold Bloom — exibe uma Toni Morrison dialogando com a tradição literária (não se diz costumeiramente, mas pode ser visto como um romance de formação; e ecoa, ainda que ligeiramente, o realismo mágico latino-americano), definindo seu próprio percurso e dotada de uma prosa viva e envolvente. Os negros são heróis, mas, vá lá, também há negros que não são necessariamente heroicos e até exploram outros negros. A contenção da autora, denotando equilíbrio e relativa independência — relativa porque não há como negar que os negros, ao lado dos índios, são as grandes vítimas da história americana, dados a escravidão e o racismo. Faulkner (sobre o qual Toni Morrison escreveu sua dissertação de mestrado) notou, com sabedoria, que a escravidão é a “maldição” dos Estados Unidos. Tal maldição aparece ou reaparece, de maneira dilacerante, na prosa poética de Toni Morrison. O crítico James Wood observa que a escritora “gosta mais de sua própria linguagem que de seus personagens”. Talvez seja uma leitura redutora. A questão é outra: as histórias de Toni Morrison são tão fortes, impactantes, que parecem “dissolver” os personagens. Se a história americana “dissolve” os negros, Toni Morrison os reconstrói com palavras, quase gritando que eles existem e são homens e mulheres como os demais. Portanto, os personagens são fortes, muito bem construídos, mas a história os “dilui” e, em certa medida, os “dissolve”. Daí a percepção equívoca de que são menos importantes do que a linguagem e a narrativa. Milkman e Pilate são personagens poderosos. A segunda beira, às vezes, à caricatura, mas sua história impede que seja julgada assim.

James Baldwin e Ralph Ellison
James Baldwin, autor de “O Quarto de Giovanni”, e Ralph Ellison, autor de “Homem Invisível”, são autores de uma prosa poderosa e complexa

O que se está dizendo, enfim, não é que escritores não devam ser militantes, e sim que qualificar grandes autores, como James Baldwin e Toni Morrison, como exclusivamente guerreiros de uma causa, ainda que justa, é diminui-los como criadores artísticos, é reduzir a força de sua literatura. “A Canção de Solomon” e “Amada” são romances extraordinários e não meros panfletos disfarçados de literatura. Ouso sugerir que certos defensores de Toni Morrison (cujo nome é Chloe Ardelia Wofford) são seus adversários quando se trata de avaliá-la como prosadora.

Curiosamente, numa entrevista a John Freeman, publicada no livro “Como Ler um Escritor” (Objetiva, 309 páginas, tradução de Helena Londres), a criadora de “Compaixão” diz que não fala mais pelos militantes da “comunidade negra”: “Agora eles falam muito bem por si mesmos”. A questão é que ainda usam sua literatura para justificar a militância — o que ela certamente não desaprova. Pelo menos os militantes têm bom gosto.

Harold Bloom admira a literatura de Toni Morrison, mas menospreza sua militância — o que não faço, porque avalio que a militância mais enriquece do que empobrece seus romances. Mas se sua literatura fosse mera militância, aí sim, seria um desastre. No livro “Como e Por Que Ler” (Objetiva, 275 páginas, tradução de José Roberto O’Shea), o crítico escreve poucas mas percucientes páginas sobre “A Canção de Solomon” e está certo quando diz que “ler a serviço de qualquer ideologia não é ler”. (Por sinal, Harold Bloom, ou o tradutor, equivoca-se ao sugerir que o romance começa com uma “tentativa de suicídio de um agente de seguros de cor negra”. Na verdade, Robert Smith morre ao tentar voar. Curiosamente, no final do romance fica-se sabendo que Solomon voa-volta para a África, quer dizer, liberta-se da escravidão e do racismo. “Quando alguém se entrega ao ar, consegue cavalgá-lo.” O mágico em Toni Morrison está mais a serviço da imaginação narrativa, como metáfora, do que da magia em si.)