A Random House recebeu um manuscrito, avaliou o que fazer com ele e mandou uma carta-padrão de recusa. Havia um inconveniente. A editora já tinha publicado aquele livro. E o livro havia ganhado o National Book Award. Para perder as duas credenciais, bastara reaparecer com outro nome de autor.
A experiência foi conduzida pelo escritor americano Chuck Ross. O escolhido era “Steps”, de Jerzy Kosinski, vencedor do prêmio de ficção em 1969, como registra a National Book Foundation. Em 1977, uma cópia datilografada do romance circulou como trabalho de Erik Demos. Segundo o relato de Ross, nenhuma das 14 editoras e nenhum dos 13 agentes literários procurados reconheceu a obra. Ninguém aceitou publicá-la ou representá-la.
O caso permite uma fantasia bastante desagradável para quem escreve. Imagine terminar um romance, conseguir uma editora, receber um prêmio importante e, anos depois, descobrir que o mesmo texto não consegue sequer atravessar novamente a porta de entrada. O currículo fora retirado. As frases continuavam disponíveis para exame.
Ross já havia feito uma tentativa menor em 1975. Mandara 21 páginas a quatro editoras e recebera quatro recusas. De acordo com a reportagem que a revista “Time” publicou em fevereiro de 1979, o próprio Kosinski sugeriu que, numa próxima rodada, fosse enviado o texto inteiro. A objeção era razoável. Um trecho pode deixar de mostrar justamente aquilo que faz um livro valer a leitura.
Dois anos depois, Ross enviou o romance completo. A mudança no tamanho da amostra não trouxe a aceitação esperada. Entre os destinatários estava a Random House, que havia lançado “Steps” em 1968. O livro retornara à própria casa nove anos depois, sem ser reconhecido.
O que esses números mostram
As duas rodadas são distintas. As 14 editoras e os 13 agentes pertencem ao envio do romance completo. As recusas não significam que todos tenham lido integralmente o manuscrito.
A resposta mais curiosa veio da Houghton Mifflin. Numa carta publicada pela revista “Commentary” em 1984, Ross recordou que a editora elogiara a escrita e encontrara uma semelhança com Jerzy Kosinski. Era uma comparação especialmente bem fundamentada. Ainda assim, o parecer considerava que os episódios não formavam um conjunto satisfatório. O autor tinha sido identificado como influência de si mesmo, sem que isso bastasse para abrir a porta.
É tentador encerrar o assunto com uma gargalhada contra os editores. O episódio oferece material suficiente. Mas convém separar o resultado da experiência da explicação que se queira dar a ele. Ross documentou uma sequência de recusas. Isso não permite medir quanto pesaram, em cada decisão, o anonimato, o gosto do leitor, as expectativas comerciais ou as condições de recepção do manuscrito.
As respostas também não foram todas avaliações literárias. A “Time” registrou agentes que não dispunham de tempo para ler ficção não solicitada e um escritório que dizia não encontrar registro do envio. Somar esses casos como se fossem pareceres críticos completos produziria uma certeza que os documentos não oferecem.
Há ainda uma diferença entre reconhecer um livro e querer publicá-lo. Um prêmio não obriga leitores futuros a gostar da obra, nem elimina divergências de gosto. Uma editora pode recusar um bom texto por razões que não cabem numa carta. O problema aparece quando a resposta, quase sempre breve e definitiva para quem a recebe, parece encerrar um julgamento muito mais amplo do que aquele que foi efetivamente possível fazer.
Para um autor desconhecido, sobra pouca maneira de distinguir as situações. A mesma recusa pode significar leitura atenta, incompatibilidade com o catálogo ou falta de tempo. Ross teve a vantagem pouco comum de conhecer o passado do manuscrito que voltava. Na Random House, havia inclusive um exemplar publicado para comparação.

