Para responder à pergunta, era preciso voltar mentalmente à casa dos 16 anos e contar os livros. Não valiam revistas, jornais nem os volumes usados na escola. A orientação ajudava quem já não tinha a estante por perto ou nunca havia feito inventário dela. Um metro de prateleira comportaria cerca de quarenta exemplares. A partir dessa lembrança bastante doméstica, pesquisadores investigaram uma relação que chegava à vida adulta e aparecia até em tarefas feitas no computador.
Joanna Sikora, da Universidade Nacional Australiana, M. D. R. Evans e Jonathan Kelley assinam o estudo, publicado on-line em outubro de 2018 e incluído na edição de janeiro de 2019 da revista “Social Science Research”. A equipe cruzou informações sobre as bibliotecas familiares da adolescência com testes de competências de adultos. Encontrou associação entre crescer cercado de livros e obter resultados melhores em leitura, matemática e resolução de problemas em ambientes tecnológicos.
Os dados vieram do Programa Internacional de Avaliação de Competências de Adultos, o PIAAC, ligado à OCDE, e foram coletados entre 2011 e 2015. A análise de leitura e matemática reuniu 162.955 pessoas, de 25 a 65 anos, em 31 sociedades. Para as habilidades tecnológicas, o conjunto era menor, com 106.585 participantes de 28 sociedades. O Brasil não integrava a amostra.
A pesquisa exigia mais do que reconhecer palavras ou declarar amor à literatura. Os testes avaliavam a compreensão de informações escritas e o uso de conhecimentos matemáticos em situações variadas. Na parte digital, entravam tarefas de busca, avaliação e organização de informações. Saber o nome de um romancista célebre, por mais conveniente que isso possa ser num jantar, não era a competência em julgamento.
O resultado mais interessante sobrevivia à inclusão de outras informações na análise. Os autores consideraram, entre outros fatores, a escolaridade dos pais, a formação e a posição ocupacional dos próprios participantes. A associação com os livros da adolescência continuou aparecendo. Portanto, descrever aquelas estantes apenas como um sinal de que havia diplomas na família deixava uma parte da relação sem explicação.
Como interpretar a comparação
Os adultos recordaram o tamanho da biblioteca da adolescência e realizaram testes de competências. Os modelos consideraram escolaridade, ocupação e outros fatores. O desenho observacional não permite isolar a presença dos livros como causa dos resultados.
A diferença associada ao aumento da biblioteca era maior entre as casas com poucos livros do que entre aquelas que já possuíam muitos. Esse detalhe tira um pouco da graça de imaginar a pesquisa como concurso de metragem. Uma biblioteca imensa pode ser motivo de orgulho, de prazer e de discussão sobre quem vai tirar o pó, mas o estudo não propõe uma corrida sem fim para preencher paredes.
Também seria precipitado transformar uma quantidade de exemplares em receita de criação dos filhos. Os participantes escolheram faixas aproximadas de tamanho da biblioteca, e os pesquisadores trabalharam estatisticamente com essas respostas. Não houve distribuição de caixas de livros a famílias sorteadas, seguida de décadas de acompanhamento. O trabalho encontrou relações entre informações obtidas numa pesquisa com adultos, que precisaram recordar uma circunstância de quando eram adolescentes.
Essa diferença importa. Uma estante pode indicar hábitos de leitura, conversas, incentivos e condições familiares que a contagem dos volumes não consegue separar por completo. Os próprios autores reconhecem as limitações da memória dos entrevistados e a possibilidade de influência de características familiares não medidas. O resultado não autoriza dizer que os livros, sozinhos, produziram todas as diferenças encontradas, muito menos que a capacidade de uma pessoa possa ser deduzida do móvel que havia na sala.
A interpretação proposta pela equipe envolve uma cultura doméstica em torno dos livros. Observar alguém lendo, conversar sobre histórias, brincar com palavras e encontrar materiais ao alcance são alguns dos mecanismos que os autores apontam para investigação. São hipóteses sobre como essa familiaridade poderia se formar. A pesquisa não acompanhou cada uma dessas atividades para determinar quanto contribuía para o desempenho posterior.
Há ainda uma pequena surpresa na parte tecnológica. Os livros de papel apareceram associados a competências exercidas diante de telas. A oposição habitual entre uma coisa e outra fica menos convincente quando se considera o trabalho envolvido em ambas. Localizar uma informação, compará-la com outra e decidir se ela responde ao problema são exigências que podem surgir em suportes diferentes. Isso não equivale a demonstrar que papel e tela produzam os mesmos efeitos.
Faltava aos pesquisadores saber que livros ocupavam aquelas casas. Não havia dados que permitissem distinguir romances de manuais, poesia de divulgação científica, leituras escolhidas pelos filhos de coleções herdadas pelos pais. Para quem gostaria de sair dessa história com uma lista infalível de títulos, a lacuna é inconveniente. O questionário chegava até a quantidade aproximada de volumes. Não abria nenhum deles.

