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Bula AchadosArte e percepção

Uma pintura de artista podia aparecer com a etiqueta de criança. Outra, feita por uma criança ou um animal, recebia o crédito de artista. A pequena fraude fazia parte de um experimento sobre uma frase que dispensa apresentação em qualquer museu de arte moderna. Ao dizer que o filho faria aquilo, o visitante acredita ter encerrado o assunto. As psicólogas Angelina Hawley-Dolan e Ellen Winner resolveram começar por aí.

Publicado em 2011 na revista “Psychological Science”, o estudo comparou as escolhas de estudantes com e sem formação artística diante de pares de imagens. Cada par reunia uma pintura expressionista abstrata e outra, visualmente semelhante, feita por criança ou animal. Primeiro, as imagens apareciam sem identificação. Depois, vinham acompanhadas de etiquetas corretas ou trocadas.

Havia duas perguntas. Qual das imagens o participante preferia? Qual considerava uma obra de arte melhor? Os trabalhos profissionais foram favorecidos nas duas avaliações, inclusive com as identificações invertidas. Estudantes de arte preferiram essas obras com maior frequência que os demais, mas os grupos não diferiram no julgamento de qualidade.

É uma distinção que merece alguns segundos de atenção. Gostar de uma coisa e reconhecer qualidades em outra são operações perfeitamente compatíveis. Um leitor pode admirar a construção de um romance que não tem vontade de reler. Um espectador pode perceber o trabalho de um filme que não escolheria para passar o domingo. A separação entre as perguntas dava espaço para esse tipo de resposta, sem exigir que admiração e prazer fossem sinônimos.

Nas explicações oferecidas pelos participantes, as escolhas de obras profissionais apareciam mais associadas à intenção de quem as produziu. Ao comentar a pesquisa, Winner descreveu essa percepção como o reconhecimento de pensamento, planejamento e decisões na composição. Trata-se da intenção percebida pelo observador, convém lembrar. Ninguém ganhou acesso à cabeça do pintor.

O detalhe desloca a discussão. Uma superfície coberta de marcas não precisa representar uma casa, um rosto ou uma árvore para sugerir que alguém tomou decisões ao produzi-la. Isso tampouco obriga o observador a gostar do resultado. Seria bastante desagradável trocar a intimidação de quem diz que só especialistas entendem pintura pela intimidação de quem anuncia que a ciência acaba de tornar obrigatório admirá-la.

A investigação prosseguiu. Em 2015, Leslie Snapper, Cansu Oranç, Hawley-Dolan, Jenny Nissel e Winner publicaram na revista “Cognition” três estudos que tornavam a pergunta mais direta. Em vez de escolher a pintura preferida ou julgada melhor, participantes sem familiaridade com o expressionismo abstrato precisavam identificar qual trabalho havia sido feito por um artista.

No primeiro estudo dessa série, as imagens apareciam aos pares. No segundo, eram mostradas individualmente. Nas duas situações, a identificação da origem das obras ficou acima do que se esperaria pelo acaso. O terceiro estudo relacionou a distinção à estrutura e à intencionalidade percebidas. A mudança de apresentação importa porque coloca à prova a possibilidade de reconhecer diferenças sem ter sempre uma segunda imagem ao lado para comparação.

Há limites evidentes para o tamanho da vitória. Escolher entre imagens selecionadas para um experimento não equivale a estabelecer o valor de toda pintura abstrata. Também não explica quanto uma tela deveria custar, quem merece uma retrospectiva ou quais artistas estarão nos museus daqui a cem anos. São perguntas diferentes, com histórias, instituições e interesses que uma tarefa de julgamento visual não consegue reunir.

E sobra um cuidado com a própria criança, convocada para a discussão sem ter pedido nada. Seu desenho pode ter graça, invenção, importância afetiva e lugar garantido na parede de casa. Nada disso depende de vencer um pintor profissional numa comparação. O experimento examinava a capacidade de distinguir trabalhos, não distribuía licença para desenhar.

A frase sobre o filho continua disponível, portanto, como provocação. Como explicação, ficou menos confortável. Diante das imagens, os participantes fizeram distinções que a piada costuma dispensar. Para sustentar a conversa, talvez seja preciso permanecer um pouco mais diante do quadro.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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