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Há livros que a gente lê cedo demais. A história passa pelos olhos, os personagens ficam mais ou menos no lugar, a importância é percebida, mas alguma coisa não chega inteira. Não é sempre falta de atenção. Às vezes falta ter sentado num corredor de hospital, ter visto uma ambição murchar, ter transformado um amor em assunto difícil, ter carregado uma vergonha sem encontrar frase boa para ela.

O tempo mexe menos no livro do que na pessoa que volta a ele. Uma cena antes lenta começa a incomodar por outro motivo, um personagem que parecia distante ganha rosto conhecido, uma frase que parecia exagerada encontra um episódio antigo e para ali. A leitura não ficou mais fácil. A pessoa que abriu o volume de novo já não veio com a mesma pressa.

Alguns romances passam anos na estante. Mudam de prateleira, de casa, de dono, de lugar na pilha. Quando voltam para a mão certa, não voltam para o mesmo leitor.

A Montanha Mágica, Thomas Mann

Hans Castorp sobe aos Alpes para visitar o primo e acaba ficando muito mais do que imaginava. O sanatório tem refeições, exames, repousos, conversas longas, neve, febre, pequenas vaidades e uma guerra se formando longe dali. Lido cedo, A Montanha Mágica pode parecer preso demais ao próprio ritmo. Mais tarde, aquela demora ganha outro sentido, porque muita vida também se perde assim, sem explosão, dentro de dias corretos, inteligentes e quase parados.

Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa

Riobaldo não recebe ninguém pela porta fácil. Sua fala exige ouvido, retorno, paciência, um tipo de entrega que não combina com leitura apressada. A dificuldade da língua, com o tempo, deixa de parecer uma parede e passa a ser o próprio caminho. Grande Sertão Veredas tem jagunços, guerra, amor, pacto e medo, mas o que cresce na releitura é a tentativa de um homem entender a própria vida enquanto conta. Riobaldo fala para descobrir se escolheu, se foi levado, se se enganou, ou se a travessia era tudo o que havia.

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

A primeira admiração costuma ir para a voz de Adriano. Ela é elegante, controlada, cheia de inteligência política e histórica. Em outra idade, porém, o corpo do imperador passa para o centro da leitura. Adriano escreve perto do fim, atento ao sono ruim, à dor, à respiração, às lembranças que ainda obedecem e às que já escapam. O império continua ali, mas começa a importar menos do que a intimidade de um homem poderoso diante de um corpo que não aceita ordens.

Ao Farol, Virginia Woolf

Ao Farol parece pequeno para quem entra procurando acontecimentos grandes. Uma casa, uma família, uma visita adiada, pensamentos que passam sem aviso de uma pessoa para outra. Woolf trabalha com o que fica preso entre as conversas e com aquilo que ninguém diz na hora certa. Anos depois, a leitura tende a mudar porque o silêncio doméstico já não parece tão discreto. Uma frase calada pode ocupar uma casa por muito tempo, e uma morte pode alterar até o modo de olhar uma mesa, uma janela, uma escada.

O Homem sem Qualidades, Robert Musil

O Homem sem Qualidades seduz pela inteligência, e essa sedução pode enganar. O mundo de Musil pensa muito, organiza comissões, discute projetos, troca ideias, prepara grandes movimentos e não sai do lugar. Ulrich tem inteligência suficiente para desconfiar de quase tudo, inclusive de si mesmo, mas isso não o torna mais capaz de agir. O livro se torna mais incômodo quando o leitor já viu frases brilhantes terminarem sem consequência nenhuma.

Extinção, Thomas Bernhard

A entrada em Extinção é pela irritação, pela recusa, pela frase que ataca sem descanso. O narrador volta contra família, origem, país, educação, religião e herança uma raiva que parece querer limpar tudo pela destruição verbal. Com o tempo, o alvo começa a parecer menos distante do ataque. A família que ele recusa não ficou para trás. Continua funcionando dentro dele, mesmo quando é ridicularizada, negada, desmontada frase por frase.

Pedro Páramo, Juan Rulfo

Juan Preciado chega a Comala atrás do pai e encontra vozes. A cidade parece feita de restos, murmúrios, dívidas, promessas e mortos que ainda não se calaram. Na juventude, o leitor talvez fique mais preso ao estranhamento. Mais tarde, Pedro Páramo pode doer por motivos menos literários. É um livro sobre um pai que falta e manda, sobre uma terra que não devolve nada, sobre gente que continua presa ao poder de alguém mesmo depois da morte desse alguém.

2666, Roberto Bolaño

2666 impressiona pelo tamanho, pela mudança de direção, pelos críticos literários, pelos escritores desaparecidos, pelos crimes, pelas pistas que se abrem e não se fecham. Mas a grandeza do livro não está só na escala. A leitura fica mais difícil de largar quando a repetição dos corpos e das buscas interrompidas começa a pesar mais do que a vontade de entender a arquitetura geral. Bolaño deixa muita coisa sem reparo, sem conclusão limpa, sem alívio preparado para o leitor.

Absalão, Absalão!, William Faulkner

Faulkner não conta Thomas Sutpen de maneira reta. A história chega por vozes que se corrigem, lembranças interessadas, frases tortas, suposições e pedaços de uma verdade que ninguém possui sozinho. Com o tempo, a tragédia familiar perde a aparência de drama privado. Aparecem a raça, a terra, a posse, a violência social que sustenta a casa antes mesmo de ela ruir. O passado em Faulkner não terminou, apenas mudou de boca.

Moby Dick, Herman Melville

Moby Dick frustra quem quer apenas a perseguição à baleia. Melville interrompe, cataloga, explica o trabalho no navio, muda de tom, abre capítulos inteiros para cetáceos, instrumentos, tarefas, crenças e cansaços. Essas pausas, vistas de outro modo, deixam de ser atraso. Elas mostram a obsessão de Ahab cercada por um mundo inteiro de trabalho e linguagem. A baleia cresce menos quando vira símbolo único e mais quando resiste a essa vontade de explicação.

Middlemarch, George Eliot

Middlemarch não precisa de uma cena espetacular para arruinar uma vida. Um casamento mal lido, uma expectativa depositada na pessoa errada, dinheiro, vaidade, generosidade sem cálculo, pequenas concessões. George Eliot acompanha esses desvios sem pressa e sem gritar. O livro ganha mais precisão quando o leitor entende que muita derrota importante acontece sem barulho, sem porta batida, sem data clara para marcar o começo do erro.

Sob o Vulcão, Malcolm Lowry

O cônsul de Malcolm Lowry atravessa o Dia dos Mortos no México afundado no álcool, na culpa e na recusa de ser salvo. O romance é cheio de sinais, presságios, símbolos, frases densas, mas em outra leitura a parte mais dura talvez seja menos literária. Há ajuda por perto, há amor por perto, há caminhos de volta, e mesmo assim ele segue para baixo. Certas quedas deixam de parecer acidente quando já viraram rotina.

O Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

Bernardo Soares pode ser uma companhia perigosa. De início, suas frases acolhem a melancolia, a vida imaginada, o prazer de transformar quase tudo em pensamento. Depois, a beleza começa a cobrar. A janela não abre exatamente o mundo, muitas vezes apenas confirma a distância. O Livro do Desassossego muda quando a recusa da experiência deixa de parecer delicadeza e começa a parecer confinamento.

A Paixão Segundo G.H., Clarice Lispector

Uma mulher entra no quarto da empregada, vê uma barata e perde o apoio das palavras com que se reconhecia. Quase nada acontece, e mesmo assim o livro não dá descanso. Clarice faz a personagem encostar em nojo, matéria, medo e identidade sem oferecer uma saída confortável. A Paixão Segundo G.H. fica mais difícil quando o leitor já sentiu que uma imagem de si mesmo pode cair por causa de um detalhe banal.

Os Irmãos Karamázov, Fiódor Dostoiévski

O pai odiado, o crime, os irmãos, a culpa religiosa, as discussões sobre fé e liberdade podem ocupar a entrada do romance. Depois, as perguntas deixam o tribunal e entram na casa. O que se deve aos outros, até onde alguém participa da queda que não executou com as próprias mãos, que liberdade sobra quando desejo, vergonha, crença e ressentimento se misturam. Dostoiévski não arruma essas perguntas para facilitar a vida de ninguém.

Guerra e Paz, Liev Tolstói

Guerra e Paz intimida pelo tamanho, mas não se impõe apenas por batalhas, salões e personagens numerosos. Tolstói acompanha famílias durante anos, observa casamentos, entusiasmos políticos, medo no campo de batalha, mudanças pequenas dentro de uma sala. A leitura muda quando o interesse se desloca do grande destino para o acúmulo dos dias. Uma vida se altera por decisões tomadas sem plena consciência, por mal-entendidos, por cansaço, por uma conversa aparentemente secundária.

Auto de Fé, Elias Canetti

Peter Kien vive entre livros e fora do mundo. A princípio, a figura parece grotesca demais, quase caricatural. Aos poucos, a biblioteca deixa de ser refúgio e passa a denunciar o tamanho do isolamento. Canetti mostra uma inteligência incapaz de lidar com o corpo, o dinheiro, o desejo, a rua, as outras pessoas. Kien sabe muito e vive pouco. Essa diferença fica mais cruel quando o leitor já viu cultura usada para evitar a vida, não para ampliá-la.

O Leopardo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa

A elegância de O Leopardo pode dominar a entrada. Os salões, o príncipe, a frase sobre mudar tudo para que tudo continue igual, a beleza melancólica de um mundo que se despede. Mais tarde, o livro fica menos decorativo e mais amargo. O príncipe de Salina entende a substituição em andamento, percebe que sua classe já perdeu o futuro e conserva apenas a lucidez de quem assiste ao próprio desaparecimento com bons modos.

Os Sonâmbulos, Hermann Broch

Em Os Sonâmbulos, ninguém precisa derrubar o mundo de uma vez. Broch acompanha pessoas obedecendo a costumes, cargos, ideias e sistemas morais já gastos, mas ainda em funcionamento. Elas trabalham, desejam, negociam, justificam escolhas, repetem formas antigas. O livro se aproxima quando o leitor já viu uma instituição continuar de pé depois de perder o motivo de estar de pé.

O Quarteto de Alexandria, Lawrence Durrell

Durrell volta aos mesmos acontecimentos e altera o que parecia sabido. Um volume corrige o outro, uma lembrança muda de lugar, uma paixão ganha outro desenho quando passa por outra voz. Primeiro vêm Alexandria, os amores, a espionagem, o calor da cidade, a sedução das versões. Depois, a parte mais incômoda é perceber que ninguém possui a história inteira. Um personagem lembra mal, outro deseja enquanto interpreta, outro conhece apenas o pedaço que lhe convém.


Alguns livros não dependem só de vocabulário, paciência ou repertório. Às vezes falta ter passado por uma situação parecida, ter reconhecido uma fraqueza própria, ter perdido a confiança numa pessoa, numa ideia ou numa versão de si mesmo.

Quando voltam, esses livros não voltam mais fáceis. Só encontram alguém que já passou por coisas suficientes para não ler certas páginas do mesmo jeito.

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