Há filmes fracos que terminam exatamente onde começam: na constatação de que não tinham muito a oferecer. “Inimigo Mortal” é um caso um pouco mais curioso, embora isso não o torne muito melhor. Dirigido por Leo Zhang, o longa tenta encaixar Jackie Chan em uma ação futurista, com conspiração biotecnológica, vilões de aparência tecnológica, perseguições internacionais e um melodrama familiar que busca dar peso emocional à trama. A intenção é evidente: deslocar o astro para um território mais global, mais digital, mais próximo de uma fantasia de ação contemporânea. Só que esse deslocamento cobra caro. O filme se ocupa tanto em produzir ruído ao redor de Chan que deixa em segundo plano aquilo que sempre fez dele uma presença singular.
A história coloca Lin Dong, vivido por Jackie Chan, no centro de uma operação que envolve proteção, perda, experimentos científicos e uma jovem ameaçada por criminosos. Haveria ali material para um thriller direto, com tensão emocional e espaço para cenas de ação bem desenhadas. “Inimigo Mortal”, porém, prefere acumular elementos. A cada nova explicação, a trama fica menos intrigante. A cada virada, a ficção científica parece menos uma escolha dramática do que uma tentativa de dar aparência moderna a um roteiro sem foco. O filme avança, mas quase nunca encontra precisão. Tem velocidade, tem escala, tem barulho. Falta saber para onde tudo isso está indo.
Máquina barulhenta
O maior incômodo não está apenas na confusão narrativa. Filmes de ação podem sobreviver a roteiros tortos quando entendem o corpo, o espaço e o tempo da cena. Esse sempre foi um ponto decisivo na carreira de Jackie Chan. Seu melhor cinema nunca dependeu apenas de pancadas, quedas ou perseguições, mas de uma inteligência física muito particular: a forma como um objeto comum virava arma, obstáculo ou piada; o modo como a coreografia construía pequenos problemas e soluções; a maneira como o risco permanecia legível dentro do quadro. Em “Inimigo Mortal”, essa herança aparece mais como lembrança do que como motor.
Chan ainda tem carisma. Mesmo quando o filme falha ao redor dele, há algo em sua presença que sustenta a atenção. Ele sabe ocupar a cena com uma economia que muitos astros de ação não possuem. O problema é que o longa não parece saber o que fazer com isso. Em vez de explorar a idade do ator, sua experiência e a possibilidade de uma ação ajustada a um corpo maduro, prefere cercá-lo de efeitos, cortes, conspirações e um imaginário de ficção científica bastante genérico. O astro está em cena, mas o filme muitas vezes o trata como peça de uma engrenagem sem personalidade.
A ficção científica também sofre com essa indefinição. “Inimigo Mortal” usa tecnologia, biotecnologia e visual futurista como sinais de modernidade, mas raramente transforma esses elementos em conflito expressivo. Há uma ideia interessante na relação entre corpo, memória, paternidade e experimento científico. O filme poderia trabalhar o medo da perda, a tentativa de conservar uma vida pela técnica ou o custo emocional de transformar afeto em missão. Essas possibilidades, porém, surgem de passagem, logo soterradas por vilões exagerados, explicações apressadas e uma urgência fabricada.
Corpo deslocado
O melodrama familiar é, paradoxalmente, uma das partes mais promissoras e menos resolvidas do filme. A ligação entre Lin Dong e a jovem protegida dá à narrativa um eixo emocional mais claro do que a conspiração tecnológica. Quando “Inimigo Mortal” se aproxima desse núcleo, encontra algo que poderia diferenciá-lo de uma aventura descartável de ação e ficção científica. O roteiro, no entanto, não confia o bastante nessa linha. Interrompe a emoção com mecânicas de thriller, troca intimidade por excesso e prefere explicar a deixar que as relações respirem.
Visualmente, o filme busca escala. As locações internacionais, a presença de Sydney e a tentativa de ampliar a ação para além do território mais familiar ao cinema de Chan dão alguma curiosidade à produção. Há uma dimensão de espetáculo capaz de atrair quem procura apenas um título de ação com aparência grande e ritmo acelerado. Ainda assim, escala não é invenção. A encenação raramente cria tensão a partir da geografia das cenas. Em vários momentos, a ação parece existir porque o gênero exige movimento, não porque a narrativa encontrou uma forma própria de se expressar por meio dele.
Isso torna “Inimigo Mortal” um filme frustrante. Não é uma obra sem energia, nem exatamente sem ideias. Tem uma premissa vendável, um astro reconhecível e uma mistura de gêneros que poderia render algo estranho, torto e divertido. O que falta é organização cinematográfica. A ação não tem a clareza esperada, a ficção científica não tem densidade, o melodrama não tem espaço e a direção parece mais empenhada em manter tudo girando do que em escolher o que realmente importa. O filme se comporta como se velocidade bastasse.
A avaliação pesa mais porque Jackie Chan não é um ator de ação qualquer. Sua presença traz memória, expectativa e uma forma muito específica de relação com o cinema físico. “Inimigo Mortal” até pode funcionar como curiosidade dentro de sua filmografia, especialmente para quem acompanha as fases mais tardias e internacionalizadas de sua carreira. Há algum interesse em vê-lo atravessar um universo de laboratórios, tecnologia e vilania de ficção científica. Mas curiosidade não sustenta um filme inteiro. O longa chama atenção pelo deslocamento, não pela realização.
Como entretenimento de catálogo, “Inimigo Mortal” é assistível em partes. Tem movimento, lampejos de carisma e uma estranheza que impede o desinteresse completo. Mas o conjunto é frágil. A impressão dominante é a de um filme que tenta atualizar Jackie Chan sem compreender que o melhor dele nunca dependeu de atualização cosmética. Não era o futuro, o brilho digital ou o tamanho da produção que tornavam seu cinema vivo. Era a precisão do gesto, a clareza da queda, a graça de transformar perigo em desenho cômico. Ao deixar esse gesto em segundo plano, “Inimigo Mortal” fica preso em uma contradição curiosa: quer parecer moderno, mas soa datado justamente por não confiar no que tinha de mais raro.

