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“O Fantasma Vermelho” funciona melhor quando aceita o que é: uma lenda de guerra filmada como ação, não um drama histórico interessado em grandes zonas de ambiguidade. Seu terreno é o do mito que nasce no frio, no medo e no boato. A Segunda Guerra Mundial aparece menos como campo de investigação moral e mais como cenário para uma fábula de resistência, em que soldados soviéticos tentam sobreviver enquanto uma figura quase sobrenatural ganha força ao redor deles. Essa escolha dá personalidade ao filme, mas também delimita seu alcance. O longa tem presença, atmosfera e senso de gênero; falta-lhe, porém, uma visão mais desconfiada do próprio heroísmo.

A história se passa em dezembro de 1941, na região de Vyazma, quando um pequeno grupo de soldados soviéticos tenta retornar às próprias linhas depois de escapar do cerco nazista. O ponto de partida já basta para criar tensão: frio, cansaço, desorientação, ameaça de captura e uma unidade alemã avançando por uma paisagem que parece sempre esconder alguma coisa. A esse quadro, o filme acrescenta o Fantasma Vermelho, combatente solitário que surge sem aviso, ataca os inimigos e desaparece antes que alguém consiga compreendê-lo por inteiro. A premissa é direta, quase seca. E, dentro dessa secura, encontra boa parte de sua força.

Guerra como lenda

O melhor de “O Fantasma Vermelho” está em não explicar demais sua figura central. O Fantasma não é construído como personagem psicológico convencional, desses que precisam de passado detalhado, motivação verbalizada e trauma organizado em fala. Ele funciona pela presença. Pelo efeito que causa. Pelo medo que espalha entre os inimigos e pela expectativa que acende entre aqueles que resistem. É menos um homem do que uma narrativa em movimento. Para os soviéticos, pode ser sinal de que ainda há reação possível. Para os alemães, uma ameaça invisível. Para o filme, é a chave que desloca a guerra para o campo da fábula sombria.

Esse deslocamento dá ao longa uma identidade mais marcada do que a de muitos filmes bélicos presos à gravidade automática do tema. Há algo de western de inverno na maneira como o espaço se organiza: a floresta substitui a rua empoeirada, a neve toma o lugar do deserto, o atirador fantasmático assume a função do pistoleiro lendário. A lógica não é a da batalha ampla, de escala monumental, mas a do confronto em território isolado. O perigo vem do inimigo visível, claro, mas também daquilo que a paisagem pode esconder. A qualquer momento, a vantagem pode mudar de lado.

Como cinema de ação, “O Fantasma Vermelho” ganha justamente por essa economia. O filme não se perde em explicações pesadas nem tenta transformar cada situação em discurso histórico. O conflito é simples: um grupo precisa sobreviver, uma unidade alemã representa a ameaça imediata, e o Fantasma entra como força de instabilidade. Essa clareza favorece o ritmo. A narrativa sabe que sua premissa não exige excesso de ornamentação. O interesse está na tensão, na espera, no modo como o mito vai se impondo ao redor dos personagens.

Mas essa mesma economia deixa marcas. Quando o filme concentra tanta energia simbólica no Fantasma, os demais personagens correm o risco de virar peças de função dramática, mais do que presenças realmente complexas. Eles importam para a dinâmica de sobrevivência, mas nem sempre ganham densidade suficiente para sustentar um drama humano à altura da ideia central. A guerra, nesse registro, vira uma prova de coragem. E coragem, isolada de dúvida, hesitação ou conflito íntimo, pode render cenas eficientes, mas raramente produz grande espessura dramática.

O peso do símbolo

O ponto mais delicado de “O Fantasma Vermelho” está no modo como seu impulso mítico encosta numa exaltação patriótica pouco problematizada. Não se trata de pedir neutralidade diante do nazismo, o que seria absurdo. A questão é outra. O filme parece menos interessado em examinar a experiência da guerra do que em organizá-la ao redor de uma imagem heroica, clara, quase reconfortante. A dor histórica passa por um filtro de revanche e resistência que funciona no plano do gênero, mas reduz o espaço para contradições.

Essa escolha não destrói o filme. Na verdade, ajuda a entender sua natureza. “O Fantasma Vermelho” não quer ser um estudo sobre a corrosão moral provocada pelo conflito, nem uma reflexão amarga sobre o custo íntimo da violência. Seu interesse está na criação de um mito popular de combate, uma figura capaz de condensar medo, esperança e punição. Visto por esse ângulo, o longa tem coerência. O problema surge quando se espera dele uma visão mais complexa da guerra. Aí, a narrativa parece estreita, satisfeita demais com uma divisão nítida entre algozes e resistentes.

Também convém não levar ao pé da letra o rótulo de terror. Há uma atmosfera de assombração em torno do protagonista, e o filme usa desaparecimento, retorno e presença invisível para contaminar a ação bélica com uma sombra sobrenatural. Ainda assim, “O Fantasma Vermelho” não se organiza como terror em sentido pleno. Sua energia vem do cinema de guerra e do thriller de ação. O medo está ali como ferramenta de encenação, não como destino principal. Quem chega esperando horror pode estranhar; quem aceita a mistura de combate, suspense e lenda encontra um filme mais interessante.

A direção de Andrey Bogatyrev rende mais quando deixa a dúvida circular. O Fantasma é homem, mito, invenção necessária, projeção coletiva? A resposta literal importa menos do que o efeito produzido por essa incerteza. A figura concentra o desejo de que, em meio ao caos, a guerra ainda possa oferecer alguma imagem de justiça. É uma ideia forte, mas perigosa. Ao transformar o combatente em emblema, o filme ganha impacto imediato e perde nuance. A imagem cresce; a complexidade diminui.

Por isso, “O Fantasma Vermelho” pede uma leitura equilibrada. É um filme de guerra enxuto, com boa noção de atmosfera e uma premissa forte o bastante para sustentar sua aura lendária. Não é, porém, uma obra de grande sofisticação dramática. Sua visão histórica passa mais pela mitologia do que pela dúvida, mais pelo gesto heroico do que pela complexidade humana. O que faz o filme funcionar como fábula é, ao mesmo tempo, aquilo que limita sua força como crítica da guerra.

Disponível no Prime Video, “O Fantasma Vermelho” vale mais como peça curiosa do cinema bélico russo contemporâneo do que como drama definitivo sobre a Segunda Guerra Mundial. Quando assume sua vocação de lenda armada, encontra personalidade. Quando pede que essa lenda seja tomada como grandeza incontestável, fica menor. É um filme de impacto moderado, eficiente na construção de tensão e símbolo, mas preso a uma ideia de heroísmo que olha pouco para os próprios riscos.


Filme: O Fantasma Vermelho
Diretor: Andrey Bogatyrev
Ano: 2020
Gênero: Guerra
Avaliação: 3/5 1 1
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