A melhor ideia de “Adão e Eva” está numa pergunta simples e ingrata: e se as duas últimas pessoas do planeta não se suportassem? A premissa tem impacto porque aproxima desejo, sobrevivência, obrigação e acaso sem precisar se explicar demais. Marina e Viktor, aparentemente sozinhos em uma cidade enorme, precisam primeiro entender como se vive depois do colapso; depois, como se encara uma questão ainda mais constrangedora, ligada à continuidade da humanidade. O filme dirigido por Ilya Farfell poderia transformar essa situação em comédia cruel, fábula romântica, ficção científica de poucos elementos ou comentário sobre a solidão levada ao extremo. Prefere o caminho mais leve. Não há nada errado nisso, em princípio. O problema é que “Adão e Eva” suaviza sua melhor ideia antes que ela possa incomodar de verdade.
A produção russa lançada em 2024 se organiza como uma comédia romântica de contornos pós-apocalípticos. Essa mistura explica tanto o que o filme tem de mais simpático quanto a sensação de chance desperdiçada. Há uma imagem forte no ponto de partida: uma cidade esvaziada, espaços antes coletivos transformados em território íntimo para duas pessoas que não escolheram estar juntas. Mas “Adão e Eva” não trata esse vazio como trauma, ameaça ou mistério de grande peso. A cidade importa menos como mundo em ruínas do que como mecanismo para aproximar Marina e Viktor. O apocalipse, aqui, funciona como a desculpa mais radical possível para uma convivência forçada.
Depois do fim
O filme encontra seu melhor rendimento quando aceita a escala de comédia romântica. A relação entre Marina e Viktor interessa porque nasce do incômodo, não da afinidade. A possibilidade de que o futuro da espécie dependa de duas pessoas que se estranham retira do romance qualquer idealização automática. Não existe vida social, concorrência amorosa, rotina comum ou mundo externo para diluir o desconforto. Existe apenas o outro, ali, insistente, inevitável, ocupando todos os espaços. “Adão e Eva” entende essa engrenagem e tira algum proveito do atrito cotidiano, da diferença de temperamentos e da intimidade construída mais pela insistência das circunstâncias do que por encanto imediato.
Nesse ponto, a leveza joga a favor do filme. Farfell não tenta transformar o fim do mundo em uma experiência solene. Sua direção prefere observar a solidão extrema como situação de convívio, quase como se a humanidade tivesse desaparecido para obrigar duas pessoas a negociar presença, irritação e dependência. A comédia nasce menos de grandes acontecimentos do que da fricção entre modos diferentes de estar no mundo. Marina e Viktor sustentam a narrativa porque quase tudo depende dessa dinâmica. Quando se concentra neles, “Adão e Eva” tem alguma graça: a de reduzir uma hipótese absurda a pequenos impasses práticos, impaciências, ajustes de convivência e uma aproximação sem brilho romântico excessivo.
O limite aparece quando essa mesma leveza vira proteção. “Adão e Eva” parte de uma premissa que pede mais consequência. A cidade vazia poderia ser uma presença dramática mais ativa, não apenas um pano de fundo curioso. A ausência de outras pessoas poderia gerar humor físico, medo, tédio, liberdade, delírio, irresponsabilidade ou paranoia. A pergunta sobre reconstruir a humanidade poderia ser tratada com mais desconforto, sem que o filme precisasse abandonar o registro cômico. Mas a narrativa prefere acomodar tudo dentro de uma lógica romântica reconhecível, na qual a estranheza do mundo vai sendo reduzida para que o casal avance por caminhos seguros.
Pouco risco
Essa acomodação pesa no roteiro. O contraste entre romance e ficção científica existe, mas raramente vira tensão real. A ficção científica fornece a situação; a comédia romântica determina o comportamento. Por isso, “Adão e Eva” não parece frágil por falta de clareza, e sim por excesso de cautela. O filme sabe o que quer ser, mas quer pouco. Há sempre a impressão de que a ideia central poderia abrir zonas mais esquisitas, mais engraçadas, mais ambíguas. A direção, porém, se contenta em usá-la como moldura. O fim do mundo vira uma forma extravagante de isolar um casal improvável, não uma força capaz de alterar de modo mais profundo a maneira como essas pessoas pensam, desejam ou escolhem.
A questão de tom também pesa. Ao evitar o drama existencial, o filme ganha leveza, mas perde densidade. Ao escapar do absurdo mais desconfortável, preserva certa doçura, mas reduz seu potencial de humor. Ao simplificar a sobrevivência, mantém o ritmo fluido, mas enfraquece a sensação de mundo. Essa soma deixa “Adão e Eva” numa zona intermediária: simpático demais para ser descartado, tímido demais para permanecer na memória. Ele funciona como curiosidade de catálogo, romance de premissa alta, exercício de convivência em escala fantástica. Falta, porém, levar a pergunta inicial a lugares menos previsíveis.
Isso não significa cobrar de “Adão e Eva” uma grande tese sobre extinção humana. Seria injusto exigir solenidade de uma comédia romântica que nunca parece buscar esse peso. A falha está em outro ponto. Mesmo dentro da leveza, havia espaço para mais invenção. O humor poderia nascer da reorganização da vida em uma cidade sem regras. O romance poderia carregar uma ambiguidade maior entre afeto, necessidade e conveniência. O espaço urbano poderia dizer algo sobre conforto, isolamento, consumo ou dependência social. O dilema de Marina e Viktor poderia ser menos uma escada para o casal e mais um problema moral embaraçoso, desses que a comédia pode enfrentar sem virar discurso.
Ainda assim, há eficiência na simplicidade do filme. “Adão e Eva” não finge ser uma parábola grandiosa, nem tenta inflar sua pequena máquina romântica com gravidade artificial. Visto por esse ângulo, seu defeito é também o reverso de sua qualidade: ele é leve porque não se complica; é limitado porque não se complica. A experiência depende bastante da disposição de aceitar o apocalipse como pretexto, não como assunto. Para quem procura uma comédia romântica com verniz excêntrico, o filme pode soar agradável. Para quem se interessa pelo choque entre fim do mundo e intimidade, sobra a sensação de que a melhor versão dessa história ficou apenas sugerida.
A crítica mais justa a “Adão e Eva” está nessa frustração medida. Não é um filme sem charme, nem uma ideia sem rendimento. Mas sua imaginação parece parar cedo demais. A premissa abre uma porta enorme, e a direção atravessa apenas o bastante para montar uma história de casal. O resultado tem momentos de leveza e um ponto de partida esperto, mas evita os riscos que poderiam torná-lo mais engraçado, mais estranho e mais marcante. O mundo acaba, o romance começa, e o filme segue como se a segunda parte fosse suficiente para resolver a primeira.

