Há filmes que nascem de uma premissa chamativa e passam o tempo inteiro tentando provar que ela basta. “Entre Nós — Uma Dose Extra de Amor” poderia cair nessa armadilha sem grande esforço: três jovens, uma noite impulsiva, um ménage, ciúme, constrangimento e uma gravidez inesperada pronta para virar fábrica de piadas. A comédia dirigida por Chad Hartigan fica mais interessante justamente quando se afasta dessa vitrine. A fantasia está lá, como ponto de partida e chamariz, mas o filme melhora quando percebe que o assunto não é a noite em si. É a manhã seguinte. Ou, mais precisamente, tudo o que vem depois dela.
Essa escolha dá ao filme uma graça menos óbvia. “Entre Nós — Uma Dose Extra de Amor” não escapa de irregularidades, nem sempre sabe até onde levar seus impasses e, em alguns momentos, parece suavizar conflitos que poderiam render mais. Ainda assim, há algo de honesto em sua tentativa de observar adultos jovens que falam a língua da liberdade afetiva, mas tropeçam quando precisam bancar as consequências. O desejo, aqui, não aparece como pecado nem como troféu. É uma decisão tomada no calor do momento, seguida por uma conta emocional que ninguém sabe exatamente como pagar.
Connor, interpretado por Jonah Hauer-King, é um tipo reconhecível da comédia romântica: sensível, hesitante, enamorado e pouco equipado para agir com clareza. Ele gosta de Olivia, vivida por Zoey Deutch, mas os dois habitam aquela zona confortável das relações sem definição, onde tudo parece possível enquanto ninguém exige nome, compromisso ou responsabilidade. A entrada de Jenny, personagem de Ruby Cruz, desmonta esse equilíbrio frágil. O que começa como uma tentativa torta de provocar ciúme deixa de ser jogo quando os três passam a lidar com consequências que não cabem mais na categoria da aventura.
Depois da fantasia
O título brasileiro, “Entre Nós — Uma Dose Extra de Amor”, sugere uma leveza quase genérica, como se o filme fosse apenas mais uma comédia de encontros, desencontros e confusões sentimentais. Em alguma medida, ele é isso mesmo. Há constrangimentos calculados, humor de situação e personagens que só dizem o que sentem quando a vida já os encurralou. Mas o filme tem mais interesse quando usa essa moldura conhecida para tratar de algo menos confortável: a distância entre querer viver sem amarras e descobrir que algumas escolhas criam vínculos antes mesmo de qualquer acordo formal.
O roteiro de Ethan Ogilby encontra seus melhores momentos quando evita transformar Olivia e Jenny em peças de uma disputa em torno de Connor. Esse seria o caminho mais pobre e previsível. A gravidez inesperada, elemento central da trama, poderia empurrar tudo para uma farsa barulhenta, feita de sustos, mal-entendidos e humilhações. Hartigan prefere um registro mais controlado. Nem sempre mais ousado, mas mais atento. A situação continua absurda o suficiente para sustentar a comédia, só que o filme tenta não reduzir suas personagens a funções narrativas. Olivia e Jenny têm desejos, medos e decisões próprias. Isso faz diferença.
Zoey Deutch é o principal motor dessa diferença. Olivia poderia virar apenas a mulher espirituosa, caótica, rápida nas respostas, figura que a comédia americana recente já transformou em fórmula. A atriz, porém, dá à personagem uma energia menos plana. Há humor, vaidade, impulso e uma necessidade constante de parecer no controle, mas também há insegurança. Olivia é interessante porque não cabe totalmente na imagem que tenta vender de si mesma. Quando o filme percebe isso, ganha densidade sem precisar anunciar profundidade.
Jonah Hauer-King trabalha em uma frequência mais baixa. Connor não é o personagem mais vibrante do trio, e isso às vezes deixa o filme dependente da energia ao redor dele. Mas essa passividade também tem função. Ele é alguém que gosta de se imaginar romântico, talvez até cuidadoso, mas precisa encarar o quanto a indecisão pode ser uma forma de egoísmo. Ruby Cruz ocupa um lugar delicado. Jenny poderia ser apenas a desconhecida que entra para bagunçar a relação alheia. O filme nem sempre lhe dá tudo o que poderia, mas entende que ela precisa existir para além do efeito que causa nos outros. Sem isso, “Entre Nós — Uma Dose Extra de Amor” seria bem menor.
O peso das escolhas
O ponto mais frágil está no tom. A comédia romântica pede leveza; a situação pede atrito. O filme passa boa parte do tempo tentando equilibrar essas duas forças, e nem sempre consegue. Em alguns trechos, a narrativa parece preocupada em manter os personagens simpáticos demais, mesmo quando eles deveriam soar mais confusos, mais egoístas ou mais difíceis. É como se a obra quisesse preservar sua aparência de comédia acessível sem mergulhar por completo no desconforto que a própria premissa cria.
Esse cuidado excessivo tira um pouco da força dramática. “Entre Nós — Uma Dose Extra de Amor” fala de desejo, autonomia, família, compromisso e responsabilidade, mas às vezes organiza demais a bagunça. A vida emocional dos personagens poderia ser mais áspera, menos bem acomodada. Ainda assim, o filme tem mérito por não tratar relações sem rótulo como simples charme contemporâneo. Aqui, a indefinição não é glamourizada. Ela aparece como terreno fértil para ruídos, expectativas tortas e pequenas covardias.
O melhor da obra está nessa percepção. Connor, Olivia e Jenny se acham livres enquanto nada exige consequência. Quando a realidade muda, cada gesto ganha peso. O flerte deixa de ser apenas jogo; a conversa adiada passa a cobrar juros. O filme entende bem esse deslocamento. Sua comédia nasce menos da situação extravagante do que da inadequação dos personagens diante dela. Eles não são monstros, nem vítimas puras, nem símbolos de uma geração. São pessoas tentando parecer adultas enquanto aprendem, meio aos trancos, o que a vida adulta exige.
Hartigan não reinventa a comédia romântica, e o filme provavelmente nem mira tão alto. Sua força está em fazer algo mais modesto, mas não desprezível: pegar uma premissa com cara de provocação fácil e tratá-la como problema afetivo. Quando acerta, “Entre Nós – Uma Dose Extra de Amor” encontra humor no embaraço e alguma ternura na falta de preparo de seus personagens, sem absolvê-los completamente. Quando erra, prefere uma solução mais limpa do que a história talvez pedisse.
A relação entre Olivia e Jenny é parte essencial desse equilíbrio. O filme funciona melhor quando não transforma o triângulo em fantasia masculina disfarçada de dilema sentimental. As duas importam. Suas decisões importam. Connor deixa de ser o centro absoluto e passa a ser um dos pontos de uma dinâmica que ninguém domina por completo. Essa distribuição de interesse dá ao filme uma temperatura mais adulta, mesmo quando o roteiro simplifica alguns caminhos.
“Entre Nós — Uma Dose Extra de Amor” é melhor do que seu título brasileiro sugere e menos ousado do que sua premissa promete. Entre essas duas medidas, encontra seu lugar. Como comédia romântica, tem carisma. Como drama sobre responsabilidade, poderia ir mais fundo. Como história sobre afetos mal combinados, rende bons momentos. O resultado é um filme simpático, falho e bastante assistível, que entende uma verdade simples e incômoda: a fantasia pode durar uma noite, mas as consequências acordam cedo.

