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“Bala Perdida 2” não perde tempo tentando parecer mais sofisticado do que é. O filme de Guillaume Pierret parte de uma ideia simples, quase primária: transformar a vingança de Lino em linha reta de ação, pancada e perseguição. Essa franqueza tem valor. Em vez de inflar a trama de corrupção policial com dilemas que o roteiro dificilmente sustentaria, a sequência de “Bala Perdida” aposta no que sabe fazer melhor: movimento, atrito, choque físico e carros que atravessam a narrativa como extensões do protagonista. O resultado é limitado, claro, mas raramente soa falso.

A história reencontra Lino ainda preso às perdas do filme anterior. Charras morreu, o irmão também, e o personagem segue tomado por uma mistura de luto, raiva e obsessão. Ao lado de Julia, agora envolvida na nova unidade de narcóticos, ele continua atrás dos responsáveis pelos crimes que desmontaram seu pequeno círculo de confiança. O ponto de partida é direto: policiais corruptos, contas pendentes, uma instituição contaminada e um homem que age como se justiça e impulso fossem a mesma coisa. “Bala Perdida 2” não disfarça a simplicidade dessa engrenagem. A aposta não está na surpresa do percurso, mas na força com que ele é atravessado.

Alban Lenoir sustenta boa parte desse pacto. Lino não é um personagem feito de grandes falas, nem o filme parece especialmente interessado em transformá-lo em estudo psicológico mais elaborado. Sua expressividade vem do corpo. Ele corre como quem não tem alternativa, bate como quem já desistiu de argumentar e encara cada confronto como continuação natural da própria perda. Lenoir dá ao protagonista uma presença áspera, sem enfeite. Não há muita interioridade verbalizada, mas há uma fisicalidade que comunica melhor do que várias cenas explicativas comunicariam. Em um filme tão dependente de impacto imediato, isso faz diferença.

Ação no asfalto

As melhores passagens de “Bala Perdida 2” aparecem quando o filme para de justificar sua trama e coloca sua máquina para funcionar. Perseguições, confrontos, oficinas, estradas, viaturas e espaços policiais formam um universo de colisão permanente. Tudo ali parece feito para ser usado, quebrado, empurrado ou atravessado. A ação tem matéria: metal contra metal, corpo contra parede, vidro estourando, motor forçado, punho respondendo antes da palavra. Não é um cinema de grande refinamento visual, mas há peso. As cenas funcionam porque parecem presas a uma lógica concreta, não apenas a uma sequência de cortes tentando simular urgência.

Pierret filma esse material com objetividade. A direção não tenta transformar cada movimento em assinatura nem enfeitar cada confronto com uma camada de estilo desnecessária. Há momentos em que essa secura empobrece o filme, mas ela também o livra de certa pose. A câmera trabalha a favor da legibilidade, e isso já conta bastante em um gênero que tantas vezes troca clareza por barulho. Quando o filme acelera, a geografia da ação continua compreensível. Quando a pancadaria domina, a brutalidade não vira coreografia limpa demais. Existe uma aspereza controlada, coerente com Lino e com o mundo em que ele se move.

Essa escolha também afasta “Bala Perdida 2” de produções maiores que tratam ação como acúmulo. O filme não tem o gigantismo de uma franquia hollywoodiana, nem tenta simular essa escala. Seu terreno é menor, mais funcional e mais seco. A ambição está em fazer o básico com força: perseguição, fuga, batida, confronto, retomada. Quando essa lógica engrena, a sequência encontra uma energia própria. Não reinventa nada, mas lembra que a ação ainda pode funcionar quando confia em ritmo, clareza e presença física, sem precisar transformar cada cena em demonstração de orçamento.

O problema é que a mesma economia que fortalece as sequências de ação enfraquece o drama. O filme corre tanto em direção ao próximo impacto que deixa pouco espaço para as perdas de Lino respirarem. Morte, lealdade, corrupção e desejo de vingança estão presentes, mas muitas vezes aparecem como motores prontos, não como conflitos em processo. Lino age porque precisa agir, porque a sequência precisa avançar, porque o gênero exige movimento. Falta ao roteiro uma pausa mais aguda, não para desacelerar o filme sem motivo, mas para fazer a violência pesar além da função narrativa.

O peso que falta

A relação com “Bala Perdida” também impõe limites. Para quem viu o primeiro filme, “Bala Perdida 2” preserva a continuidade emocional e deixa claro de onde vem a fúria de Lino. Para quem chega agora, parte desse peso pode parecer apenas informada, não vivida. A sequência não é indecifrável sem o longa anterior, mas perde densidade quando depende da memória do público para completar suas lacunas. Charras e o irmão de Lino funcionam como presenças ausentes, forças que empurram o protagonista adiante, só que o roteiro raramente transforma essa ausência em algo mais incômodo ou ambíguo.

Julia, interpretada por Stéfi Celma, ajuda a organizar o universo policial, mas também esbarra na falta de espaço dramático. A personagem tem importância na dinâmica com Lino e na estrutura da nova unidade, porém permanece mais presa à função do que à contradição. Ela equilibra, reage, tensiona, acompanha. O filme ganharia se olhasse para ela com a mesma atenção física que dedica ao protagonista. Parte dos personagens secundários sofre do mesmo problema: entra como peça de movimentação, cumpre uma tarefa e sai antes de adquirir peso próprio. Em um thriller tão voltado à ação, isso não destrói o conjunto, mas reduz seu alcance.

Ainda assim, “Bala Perdida 2” tem uma virtude que não convém ignorar: conhece o próprio tamanho. Não tenta vender uma densidade que não possui, não se alonga em discursos para justificar a pancadaria e não finge ser um estudo profundo sobre justiça. Seu mérito está em assumir uma forma popular de cinema de ação com certa honestidade narrativa e boa dose de energia. Quando erra, é por acreditar que a brutalidade resolve qualquer impasse. Quando acerta, mostra que há precisão em cortar explicações, preservar a tensão e deixar o movimento carregar aquilo que o roteiro não consegue desenvolver.

A avaliação mais justa passa por essa dupla percepção. “Bala Perdida 2” não é um thriller policial sofisticado. A corrupção que move a trama poderia ser mais bem explorada, os personagens ao redor de Lino poderiam ter mais densidade e a vingança, como motor dramático, começa a se esgotar antes que o filme termine. Mas o longa também não é descartável. Há competência na construção das sequências de ação, na presença de Alban Lenoir e na maneira como Pierret mantém o filme dentro de uma rota clara, sem desviar para ambições que não saberia cumprir.

“Bala Perdida 2” acelera mais do que pensa. Essa é sua força e sua limitação. A sequência entrega ação eficiente, com personalidade suficiente para se destacar no catálogo da Netflix, mas tropeça quando precisa dar espessura emocional ao que move seus personagens. É um filme de impacto imediato, não de longa permanência. Mesmo assim, há algo honesto em sua economia: ele entra, bate, corre e sai antes que a fórmula se desgaste por completo. Para um thriller de ação tão consciente de suas ferramentas, isso não é pouca coisa.


Filme: Bala Perdida 2
Diretor: Guillaume Pierret
Ano: 2022
Gênero: Ação/Crime/Thriller
Avaliação: 3/5 1 1
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