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“Assassino a Preço Fixo 2: A Ressurreição” não finge ser algo diferente do que é. O filme chega como ação direta, feito de deslocamentos rápidos, pancadas, armas, chantagens e um protagonista que resolve problemas com o corpo antes de qualquer palavra. Há certa honestidade nisso. Dennis Gansel dirige uma sequência que sabe vender Jason Statham como imagem central: o homem seco, resistente, calculista, quase sempre dois passos à frente dos inimigos. O entrave é que essa clareza de proposta não sustenta tudo. O filme tem movimento, mas nem sempre tem tensão. Tem escala, mas pouca densidade. Tem um astro funcional, mas um roteiro que trabalha no piloto automático.

Arthur Bishop reaparece tentando manter distância da antiga vida de assassino profissional. Como costuma acontecer nesse tipo de narrativa, a retirada é menos um destino do que uma pausa antes da próxima ameaça. Um inimigo ligado ao passado o força a voltar ao ofício e exige que três mortes sejam executadas de modo que pareçam acidentes. A premissa é boa para o gênero porque junta precisão, risco e espetáculo. Há algo de perversamente engenhoso na ideia de transformar assassinatos em operações limpas, quase invisíveis. Quando se concentra nisso, “Assassino a Preço Fixo 2: A Ressurreição” encontra seus melhores minutos.

Corpo em ação

Jason Statham é a razão mais evidente para o filme não se perder na lista de produtos genéricos de ação. Ele sabe ocupar esse lugar como poucos atores de sua geração. Não há grande variação dramática, nem parece haver essa ambição. Seu rendimento vem de outro registro: o gesto curto, a expressão fechada, a postura de quem avalia uma sala como se cada objeto pudesse virar instrumento de ataque ou fuga. Statham convence mais quando observa, mede e reage do que quando precisa sustentar qualquer conflito emocional mais elaborado.

Essa qualidade, porém, também expõe o tamanho da dependência. O filme existe em torno dele de maneira tão absoluta que quase tudo ao redor perde contorno. Os alvos são obstáculos. Os vilões são gatilhos. Os aliados e interesses afetivos entram e saem conforme a engrenagem precisa avançar. Jessica Alba interpreta Gina, personagem que deveria dar peso à chantagem contra Bishop, mas o roteiro a trata mais como função narrativa do que como presença autônoma. Ela move a história, sim, mas raramente ganha espaço para respirar fora do perigo que representa para o protagonista.

A estrutura de missões internacionais cria variedade visual. O filme passa por locações diferentes, explora ambientes chamativos e tenta dar a cada etapa um desafio particular. Isso rende algum prazer imediato. Há momentos em que a arquitetura, a distância, a altura ou o isolamento de um espaço importam mais do que os diálogos, e é aí que o longa parece mais à vontade. Bishop analisando um ambiente, preparando uma entrada ou calculando uma saída é mais interessante do que Bishop preso a explicações dramáticas apressadas.

Ainda assim, a ação raramente acumula força. O problema não está apenas na improbabilidade dos planos. O cinema de ação sempre teve seus pactos com o exagero, e seria injusto exigir realismo de um filme que claramente aposta no impossível como parte da diversão. A questão é outra: Bishop quase nunca parece realmente ameaçado. Ele é tão competente, tão preparado e tão imune ao erro que o risco perde temperatura. A cena pode ser bem desenhada, pode ter ritmo, pode até divertir, mas falta a sensação de que algo pode sair do controle.

Drama em falta

É no roteiro que “Assassino a Preço Fixo 2: A Ressurreição” mais se limita. A trama avança de forma limpa demais, como se cada complicação já viesse acompanhada da solução que a cena seguinte precisa entregar. Falta atrito. Falta surpresa. Falta uma zona de instabilidade que tire Bishop da posição confortável de máquina perfeita. O filme tenta compensar isso com mudanças de cenário e aumento de escala, mas a sucessão de lugares não substitui construção dramática.

Michelle Yeoh aparece com presença forte, mesmo em espaço reduzido, e Tommy Lee Jones surge como figura excêntrica, capaz de provocar alguma curiosidade na parte final. Mas ambos ficam aquém do que poderiam render. O filme parece saber que esses nomes acrescentam textura, mas não encontra uma maneira consistente de incorporá-los. Sam Hazeldine cumpre a função de antagonista dentro de um desenho previsível, mais útil para acionar a trama do que para criar uma ameaça memorável. O resultado é um elenco de apoio que orbita Statham sem competir de fato com ele, nem em presença, nem em conflito.

A simplicidade, por si só, não seria defeito. Muitos bons filmes de ação funcionam justamente porque eliminam gordura narrativa e apostam em objetivos claros. O problema surge quando a economia vira pobreza. Em “Assassino a Preço Fixo 2: A Ressurreição”, a clareza da missão nem sempre vem acompanhada de envolvimento. O filme quer que a urgência de Bishop pareça emocional, mas investe pouco nas relações que deveriam sustentá-la. Quer que a ameaça pareça pessoal, mas a organiza como mais uma etapa de um circuito de provas.

Quando aceita ser apenas um exercício de eficiência física, a sequência encontra algum pulso. Statham lutando, escapando, improvisando e colocando o corpo em risco ainda produz interesse. Há competência básica no modo como o filme encaixa certas cenas de ação e mantém a narrativa em deslocamento. O ritmo ajuda, principalmente porque o longa não se demora demais em explicações. Mesmo assim, essa velocidade também impede que qualquer consequência pese. Tudo passa rápido demais para marcar.

Como continuação de “Assassino a Preço Fixo”, o filme amplia o mapa, aumenta a ambição visual e tenta dar a Bishop uma aventura mais espalhada pelo mundo. Mas maior alcance não significa maior impacto. O que fica é a impressão de uma sequência construída para confirmar uma imagem já conhecida de Jason Statham: a do profissional frio, invencível, capaz de transformar qualquer ambiente em campo de operação. Essa imagem ainda tem força, mas o filme se acomoda nela.

O saldo é irregular. “Assassino a Preço Fixo 2: A Ressurreição” tem cenas que funcionam, uma estrela que entende o próprio registro e uma premissa com potencial para um suspense de ação mais inventivo. Mas o conjunto é raso, previsível e pouco interessado em transformar perigo em drama. Diverte em blocos, falha como narrativa mais consistente e depende demais da presença de Statham para parecer mais afiado do que realmente é. Para um filme sobre assassinatos planejados com precisão, falta justamente precisão no desenho dramático.


Filme: Assassino a Preço Fixo 2: A Ressurreição
Diretor: Dennis Gansel
Ano: 2016
Gênero: Ação
Avaliação: 3/5 1 1
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