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Yorgos Lanthimos parece ter incorporado com gosto a condição de maldito — ainda que seus filmes arrastem multidões aos cinemas, não se cansem de acumular prêmios e fiquem, para muito além do calor dos holofotes, na cabeça do público. Lanthimos foi se especializando em histórias excêntricas, cheias de personagens ambíguos, e faz de “Bugonia” uma ficção científica escatológica em que expõe alguns dos mal-estares contemporâneos do homem, suas frustrações, suas ojerizas, seus desejos mais obscuros e suas parcíssimas esperanças. Junto com os roteiristas Jang Joon-hwan e Will Tracy, o diretor investe num caos metódico, cheio de referências às perversões da vida em sociedade, levantando hipóteses sobre a (in)adequação de nossas escolhas.

Nós, os monstros

“Bugonia” é um novo capítulo na antologia de tipos obscuros iniciada com “Meu Melhor Amigo” (2001), sobre um vendedor de seguros que perde um voo para a França e passa pelas situações que atraem o olhar de plateias do mundo todo em maior ou menor grau nos perturbadores “Dente Canino” (2009), “O Lagosta” (2015) e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017). Aqui, episódios de um podcast obscurantista convencem Teddy, apicultor num lugarejo qualquer da América profunda, de que Michelle Fuller, uma poderosa executiva da indústria farmacêutica, é na verdade uma criatura de outra galáxia, mandada à Terra para nos destruir. Teddy junta-se ao primo, Donny, outro debiloide, captura Michelle e exige que ela revele o seu plano.

O horror 

Lanthimos reserva dois terços da história para detalhar a tortura de Michelle, mantida no porão da fazenda de Teddy, e obrigada a viver humilhações como ter a cabeça raspada, porque, segundo seu algoz, os cabelos longos servem para se comunicar com seus superiores. O humor involuntário de passagens como essa volta a “Salve o Planeta Verde!” (2003), a comédia macabra de Jang que presta-se a inspiração para “Bugonia”, mas logo deságua em cenas de tensão como as de “Eddington” (2025), dirigido por Ari Aster, um dos produtores. A certa altura, percebe-se que Teddy e Michelle irão novamente troca inverter os papéis, e Jesse Plemons e Emma Stone são hábeis em nos fazer acreditar no que se assiste no desfecho, mais melancólico que absurdo. Lanthimosiano.


Filme: Bugonia
Diretor: Yorgos Lanthimos
Ano: 2025
Gênero: Comédia/Ficção Científica
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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