Quando se pensa em Ethan Coen, vem à cabeça o nome de seu irmão, Joel, com quem estabeleceu uma das filmografias mais singulares do cinema contemporâneo. O humor corrosivo e o olhar desencantado sobre a condição humana está presente desde os primeiros trabalhos da dupla, a exemplo de “Gosto de Sangue” (1984) e “O Grande Lebowski” (1998) àqueles que marcam sua maturidade artística, como “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007) e “A Balada de Buster Scruggs” (2018), e os pequenos golpes e assassinatos brutais que desenrolam-se nessas histórias revelam o egocentrismo e a moral nebulosa de tipos sem aptidão para a vida em sociedade. Como já havia feito em “Garotas em Fuga” (2024), em “Honey, Não!”, Ethan, sem Joel e com a corroteirista (e esposa) Tricia Cooke, volta a refletir sobre o absurdo da existência, juntando ironia à espiral de cenas frenéticas de uma trama cuidadosamente desleixada, cheia dos personagens vesanos que povoam uma América cristalizada em suas tão idiossincrásicas mazelas.
Pobres criaturas
A estrutura cíclica do texto de Coen e Cooke poderia revelar-se uma tragédia em mãos pouco diligentes, mas o diretor sabe muito bem como apontar em cada sequência um elemento qualquer que capta logo a atenção do público. Honey O’Donohue começa o filme investigando uma batida de carro que termina em morte, circunstância envolta num mistério crescente. Honey fareja a possibilidade de um crime, e chega a Drew Devlin, o reverendo de uma igreja neopentecostal pequena, mas já muito lucrativa, e sua experiência a faz apostar na culpa dele. Outros homicídios vêm à baila, e Coen se fixa nessas duas figuras, opostas, mas que vão apontando para um destino em comum. Margaret Qualley toma conta de boa parte do filme, até que Chris Evans aparece, novamente arriscando-se num trabalho mais denso e outra vez se saindo bem melhor que a encomenda. Esse comentário também vale para Aubrey Plaza, na pele de Mary Grace Falcone, a policial que movimenta o segundo ato e conduz a narrativa até a sua grande reviravolta.

