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“Bala Perdida 3” não finge ser outro filme. O terceiro capítulo da franquia dirigida por Guillaume Pierret sabe onde estão suas melhores armas: motores nervosos, pancadas secas, perseguições filmadas como confronto e um protagonista que parece mais confortável dentro do caos do que fora dele. Essa consciência joga a favor do longa. Também deixa suas fraquezas mais expostas. Como encerramento de uma trilogia, o filme ganha força quando acelera, bate e coloca seus personagens sob pressão. Quando precisa organizar motivações, relações e consequências, perde parte da firmeza.

Lino, interpretado por Alban Lenoir, continua sendo o eixo físico da série. Ele não é um personagem que se impõe por frases de efeito ou grandes explicações emocionais. Sua presença vem da resistência, da habilidade mecânica, do corpo marcado por brigas e fugas, da teimosia de quem transformou o acerto de contas em única rota possível. “Bala Perdida 3” entende essa natureza e não tenta sofisticá-la de modo artificial. Lino pensa com as mãos, com o volante, com o impulso de quem já passou há muito tempo do ponto em que seria possível recuar sem pagar um preço.

Essa escolha combina com o cinema que Pierret vem construindo desde “Bala Perdida”. A franquia nunca dependeu de elegância clássica, nem parece interessada em polir demais sua brutalidade. Seu território é outro: uma ação direta, apoiada na materialidade dos carros e na sensação de impacto. “Bala Perdida 3” preserva essa identidade. Os veículos não funcionam apenas como instrumentos de fuga ou perseguição; eles carregam a raiva, a urgência e a lógica de sobrevivência daquele mundo. Quando um carro avança, derrapa ou colide, o filme diz algo sobre Lino sem precisar colocar essa dor em palavras.

Corpo e Metal

A direção encontra seus melhores momentos quando deixa a ação trabalhar sem enfeite. As perseguições têm peso porque não parecem existir apenas para cumprir uma obrigação do gênero. Elas nascem do conflito e carregam a brutalidade de um universo em que a lei já não oferece proteção confiável. A montagem busca velocidade, mas ainda permite acompanhar a geografia das cenas. O som dos motores, o choque das colisões e a fisicalidade das lutas sustentam uma tensão que vem menos da surpresa do que da insistência.

Alban Lenoir é decisivo para esse efeito. Ele dá a Lino uma dureza funcional, sem transformar o personagem em pose. Há cansaço em sua maneira de atravessar a trama, e esse detalhe importa. “Bala Perdida 3” não precisa tornar seu protagonista simpático o tempo inteiro; precisa torná-lo crível dentro de um ambiente em que a violência virou linguagem comum. Lenoir segura essa proposta com presença. Mesmo quando o roteiro empilha conflitos, sua atuação preserva uma linha emocional simples e reconhecível: Lino está sempre reagindo a uma perda, a uma traição, a uma dívida que continua aberta.

O problema é que o filme confia demais nessa energia para compensar uma construção narrativa irregular. Como capítulo final, “Bala Perdida 3” precisa retomar Areski, vivido por Nicolas Duvauchelle, lidar com corrupção policial, reposicionar alianças e oferecer algum sentido de fechamento ao percurso iniciado nos filmes anteriores. É muito material para uma estrutura que funciona melhor na compressão do que na explicação. Em alguns momentos, a trama parece correr atrás da própria urgência. Os personagens entram e saem como peças de uma engrenagem, nem sempre com espaço suficiente para ganhar densidade.

A dependência dos capítulos anteriores também pesa. Quem acompanhou “Bala Perdida” e “Bala Perdida 2” reconhece melhor o valor de certas relações e entende por que algumas contas ainda precisam ser acertadas. Quem chega agora encontra um filme já em movimento, pouco disposto a desacelerar para situar afetos, culpas e ressentimentos. A escolha preserva o ritmo, mas reduz a autonomia do longa. “Bala Perdida 3” quer ser conclusão, não porta de entrada. Ao assumir isso, aceita também certa dose de atropelo.

Fechamento Irregular

Mesmo assim, seria injusto reduzir o filme aos seus problemas de roteiro. A franquia encontrou sua identidade na ação física, e o terceiro capítulo honra esse pacto. Há uma honestidade quase mecânica na maneira como “Bala Perdida 3” se organiza: um homem movido pela vingança, carros preparados para o caos, instituições contaminadas e uma sucessão de colisões que aproximam justiça e destruição. O filme não é sutil, mas faz da falta de sutileza um método. Quando reduz tudo a deslocamento, impacto e sobrevivência, entrega seus trechos mais fortes.

A vingança, nesse sentido, funciona como motor e limite. Ela dá direção a Lino, concentra sua raiva e transforma cada perseguição em parte de uma rota emocional. Mas também estreita o campo dramático. O filme raramente se permite investigar o que sobra depois de tanta obstinação. Prefere seguir adiante, como se qualquer pausa ameaçasse quebrar seu pacto com o gênero. Essa opção mantém a narrativa em estado de pressão, mas deixa alguns conflitos mais funcionais do que realmente dramáticos. A dor existe, só que quase sempre aparece convertida em ação.

O elenco secundário sente esse desequilíbrio. Stéfi Celma e Gérard Lanvin ocupam posições importantes nessa rede de lealdades quebradas e traições, mas o filme nem sempre lhes oferece a mesma atenção dedicada à mecânica da perseguição. Nicolas Duvauchelle, como Areski, segue ligado ao centro moral da história, embora o roteiro às vezes trate sua presença mais como necessidade de fechamento do que como chance de aprofundar o confronto. “Bala Perdida 3” sabe quem precisa estar em cena, mas nem sempre encontra algo interessante para todos além de empurrar a trama até o próximo choque.

Ainda assim, dentro do catálogo da Netflix, o filme tem uma vantagem clara: não parece apenas mais um thriller de ação sem rosto. A trilogia construiu uma marca reconhecível, apoiada em carros, brutalidade seca e um protagonista definido por competência prática. Muitos filmes recentes do gênero tentam soar grandiosos e acabam parecidos entre si. “Bala Perdida 3” é menor em ambição dramática, mas mais firme em identidade. Essa diferença conta. O longa pode derrapar no excesso de amarrações, mas não perde completamente o controle do próprio estilo.

Como encerramento, o resultado é satisfatório sem ser redondo. O filme entrega uma sensação de fim, respeita a trajetória de Lino e preserva aquilo que fez a franquia encontrar público: ação direta, ritmo nervoso e uma fisicalidade que não depende apenas de pose visual. Faltou mais cuidado na costura dramática, especialmente na distribuição dos conflitos e na construção dos personagens que orbitam o protagonista. Mas há pulso. E, em “Bala Perdida 3”, pulso conta bastante.

O longa é melhor quando para de tentar explicar todos os danos e simplesmente coloca seus personagens em rota de colisão. Essa pode ser uma limitação, mas também é sua forma de coerência. “Bala Perdida 3” não fecha a trilogia com refinamento. Fecha com motor, pancada e convicção suficiente para sustentar a própria brutalidade. O roteiro derrapa, sim. A ação, quase sempre, segura a pista.


Filme: Bala Perdida 3
Diretor: Guillaume Pierret
Ano: 2025
Gênero: Ação
Avaliação: 4/5 1 1
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