Discover

“A Trilha” começa onde muitos suspenses gostam de começar: em um lugar bonito demais para parecer perigoso. Cliff e Cydney estão em lua de mel no Havaí, seguindo por uma trilha que leva a uma praia afastada, cercados por uma paisagem que sugere descanso, aventura e uma dose controlada de risco. David Twohy logo desloca essa expectativa. O que parecia cenário de férias ganha outra função. A beleza continua ali, mas passa a incomodar. O espaço aberto não tranquiliza; expõe. A viagem romântica, pouco a pouco, vira exercício de desconfiança.

O filme acompanha Cliff e Cydney, vividos por Steve Zahn e Milla Jovovich, enquanto o casal cruza o caminho de outros viajantes. Primeiro aparecem Kale e Cleo, interpretados por Chris Hemsworth e Marley Shelton, cuja presença já instala um desconforto inicial. Depois surgem Nick e Gina, papéis de Timothy Olyphant e Kiele Sanchez, mais expansivos, mais simpáticos à primeira vista, mas não menos difíceis de decifrar. Quando chega a notícia de que um casal recém-casado foi assassinado em Honolulu, a trilha deixa de ser apenas um percurso físico. Vira uma espécie de teste de leitura: quem está assustado, quem está fingindo, quem observa demais?

A força de “A Trilha” está nessa mudança de temperatura. Twohy entende que o suspense não precisa se apoiar de imediato na violência. Ele pode nascer de uma fala que soa um pouco ensaiada, de uma reação fora do lugar, de uma informação dada cedo demais ou tarde demais. O roteiro trabalha com esse tipo de suspeita miúda, que se acumula sem pedir licença. Em vez de anunciar o perigo a cada cena, o filme prefere espalhar sinais que podem significar tudo ou nada. É nesse intervalo que ele funciona melhor.

Paraíso sob suspeita

O Havaí de “A Trilha” não aparece apenas como contraste bonito para uma história de ameaça. A paisagem participa da construção do medo. A mata, os caminhos estreitos, as pedras, as encostas e os trechos de difícil acesso tornam a situação mais instável. Quanto mais os personagens avançam, mais distante parece a possibilidade de recuo. A trilha, que deveria conduzir a um prêmio, a praia isolada, a vista perfeita, o prazer da descoberta, começa a parecer uma armadilha sem paredes.

Esse uso do espaço é um dos acertos do filme. Em uma cidade, a suspeita se diluiria entre muitas pessoas, muitos ruídos, muitas rotas de fuga. Ali, não. Quem aparece no caminho fica marcado. Quem se afasta continua presente como possibilidade de retorno. Quem oferece ajuda pode estar sendo generoso, mas também pode estar se aproximando demais. “A Trilha” explora bem essa convivência forçada entre estranhos, na qual cada gesto cordial vem acompanhado de uma pergunta silenciosa.

O elenco sustenta esse jogo sem carregar demais nas tintas. Steve Zahn dá a Cliff uma insegurança que torna o personagem menos previsível do que pareceria à primeira vista. Há nele algo de deslocado, quase frágil, mas também uma atenção constante ao que acontece ao redor. Milla Jovovich compõe Cydney com uma reserva que evita transformar a personagem em simples acompanhante da ação. Timothy Olyphant, como Nick, domina muitas das cenas em que aparece: é comunicativo, confiante, sedutor, por vezes excessivo, e justamente por isso nunca se encaixa por completo na categoria do aliado ou da ameaça. Kiele Sanchez, como Gina, trabalha em registro menos exibido, mas importante para manter a tensão entre intimidade e estranhamento.

O filme se apoia nessa instabilidade de impressões. Ninguém parece inteiramente transparente, e essa opacidade interessa mais do que qualquer explicação. “A Trilha” não aprofunda seus personagens a ponto de transformá-los em figuras complexas, mas também não precisa disso para funcionar. Seu foco está na forma como eles são percebidos uns pelos outros. O que importa não é apenas quem eles são, mas como se apresentam, como se corrigem, como escolhem o que contar e o que esconder.

O truque e o limite

Há, porém, um limite evidente nessa construção. “A Trilha” é mais forte quando deixa o espectador desconfortável do que quando começa a organizar de modo mais explícito as peças do seu jogo. A primeira parte vive de uma tensão de observação, de pequenos deslocamentos de confiança, de detalhes que obrigam a rever a cena anterior. Depois, quando a engrenagem narrativa se mostra com mais clareza, o filme muda de chave. O suspense psicológico da convivência cede espaço a um thriller mais físico, mais direto, menos ambíguo.

Essa virada não compromete o conjunto, mas altera sua qualidade. O filme continua eficiente, só que um pouco menos interessante. Quando tudo depende demais do encaixe, a vida dos personagens diminui. Eles passam a parecer menos pessoas em uma situação perigosa e mais peças posicionadas para que a surpresa funcione. Twohy sabe conduzir o mecanismo, mas nem sempre consegue escondê-lo. Em alguns momentos, a esperteza do roteiro se impõe sobre a naturalidade da ação.

Ainda assim, “A Trilha” está longe de ser um exercício vazio. Dentro do território do suspense de gênero, há controle e senso de ritmo. O filme conhece suas convenções, como turistas em ambiente remoto, estranhos pelo caminho, crime recente e suspeitas cruzadas, mas não as trata com preguiça. Há uma boa compreensão de como o medo pode surgir antes de qualquer ameaça concreta. O desconforto vem da possibilidade de que o perigo esteja ao lado, caminhando no mesmo passo, contando uma história convincente, oferecendo ajuda no momento certo.

Também é por isso que classificá-lo apenas como terror empobrece a leitura. “A Trilha” tem violência e ameaça, mas sua lógica principal é a do suspense. O medo não nasce de uma figura monstruosa nem de um elemento sobrenatural. Nasce da convivência, da dúvida sobre o outro, da dificuldade de interpretar comportamentos quando o ambiente já está contaminado pelo pânico. O filme se interessa pela falha da percepção: vemos sinais demais, entendemos de menos.

O resultado é irregular, mas mais esperto do que sua aparência inicial sugere. “A Trilha” não reinventa o gênero, não tem ambição de grande drama psicológico e por vezes se entrega demais ao prazer do truque. Ainda assim, sabe transformar um cenário luminoso em território instável e fazer da suspeita seu verdadeiro motor. Sua melhor parte está no caminho, não na chegada; no momento em que todos ainda parecem possíveis culpados, possíveis vítimas, possíveis farsantes. Quando conserva essa dúvida, o filme encontra uma tensão seca e eficaz.

A avaliação mais justa talvez esteja nesse equilíbrio. “A Trilha” não merece ser inflado como um grande suspense, mas também não deve ser reduzido a passatempo descartável. É um filme de gênero bem armado, com elenco funcional, bom uso da paisagem e uma noção clara de como conduzir a paranoia sem pressa excessiva. Falha quando deixa sua engenharia aparecer demais. Acerta quando confia no desconforto de olhar para alguém e não saber se aquilo que parece simpatia já é, na verdade, uma forma de ameaça.


Filme: A Trilha
Diretor: David Twohy
Ano: 2009
Gênero: Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
Leia Também