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Ser adolescente é, grosso modo, inquietar-se e transgredir, para o bem e para o mal. Aquele estranhamento de tudo e todos, o desconforto perante a sociedade e a si mesmo, o ímpeto de virar o que já existe pelo avesso e começar um novo mundo e uma nova era, sem muita ideia de por onde começar — o próprio quarto seria uma boa sugestão — pode dar numa revolução genuína ou em cadeia, a depender de como essa criatura frágil, presa de suas fantasias tão reais e tão plausíveis, vá absorver o que o universo deixa em sua porta. “Y2K – O Bug do Milênio” lida com grande parte desses temas a seu modo, ou seja, fazendo do escracho um instrumento poderoso quanto a fustigar os costumes e permitir que daí brotem conclusões nada desprezíveis. Kyle Mooney capta as agruras de personalidades ainda por se consolidarem, marcadas por hormônios fervilhando em corpos cujo vigor físico extrapola a carne e abaladas por um falso cataclismo tecnológico que tirou o sono de muita gente.

Anos loucos

Em menos de um segundo passam-se décadas e já não parecemos mais tão novos. Esperamos que alguém nos desperte antes de sair e não deixe que o sol se ponha nas nossas costas sem que antes vejamos aonde nos leva a estrada dos tijolos amarelos, iludidos e felizes. Mooney e o corroteirista Evan Winter elencam um rol de imagens nostálgicas na intenção de fazer o público voltar um quarto de século e ter saudade da aflição inocente que não era nada. Eli e Danny são como outros nerds quaisquer, mas estão diante de um problema específico. Dois grupos compõem a humanidade naquele 31 de dezembro de 1999, os que acreditam que o mundo realmente está à beira do colapso e os que sabem que isso cheira à teoria conspiratória mais vagabunda, mas acham graça da confusão. Como sói acontecer nesses enredos, dois tipos opostos mas complementares preenchem hora e meia de trapalhadas escatológicas e sexuais apostando no carisma e em piadas ingênuas, tarefa que Jarden Martell e Julian Dennison executam sem dificuldade. O ano 2000 não foi nada apocalíptico, mas Martell e Dennison nos fazem crer de que a plenitude não era um delírio.


Filme: Y2K — O Bug do Milênio
Diretor: Kyle Mooney
Ano: 2024
Gênero: Comédia/Ficção Científica/Terror
Avaliação: 3.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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