“Adoráveis Mulheres” acompanha Jo March (Saoirse Ronan) em Nova York, tentando vender contos para um editor pouco paciente que exige histórias mais simples e finais felizes. Ela aceita parte das mudanças porque precisa de dinheiro, embora cada corte no texto pareça arrancar um pedaço daquilo que gostaria de escrever. Greta Gerwig usa essa situação para apresentar rapidamente o centro emocional do filme. Jo quer independência financeira, deseja publicar livros e tenta preservar a própria liberdade em um período no qual mulheres raramente conseguiam viver apenas do próprio trabalho.
Enquanto Jo visita redações e pensões apertadas, o filme retorna constantemente para a casa da família March em Massachusetts. É ali que vivem Meg (Emma Watson), Beth (Eliza Scanlen), Amy (Florence Pugh) e Marmee (Laura Dern), a mãe que aguenta a rotina doméstica durante a ausência do marido, que está servindo na Guerra Civil. Mesmo em uma casa cheia de afeto, falta dinheiro, sobram tarefas e todas as irmãs sabem que o futuro virá acompanhado de renúncias bastante concretas.
Entre brigas e afeto
Greta Gerwig filma essa convivência com enorme proximidade. As refeições apertadas, os vestidos reaproveitados e os pequenos presentes de Natal ajudam a construir um ambiente acolhedor, mas nunca idealizado. As irmãs brigam, falam sem pensar, sentem inveja umas das outras e passam boa parte do tempo tentando descobrir qual espaço podem ocupar no mundo. Há um carinho entre elas, embora cada uma enxergue a vida adulta de maneira completamente diferente.
Jo prefere escrever e correr pelos campos ao lado de Laurie (Timothée Chalamet), o jovem vizinho rico que rapidamente se integra à família March. Laurie gosta da liberdade que encontra naquela casa barulhenta e afetuosa, muito distante da rigidez imposta pelo avô. A relação entre ele e Jo dá certo porque Greta Gerwig não transforma os dois em um casal perfeito de romance clássico. Eles compartilham ambições, inseguranças e uma certa dificuldade para aceitar limites. Em alguns momentos, parecem duas crianças fingindo maturidade enquanto o restante do mundo já começou a cobrar decisões definitivas.
Sonhos contrastantes
Meg, interpretada por Emma Watson, observa a vida de outro ângulo. Ela gosta de festas, roupas bonitas e ambientes elegantes, embora se sinta constrangida pela falta de dinheiro da família. Quando trabalha como governanta para pessoas mais ricas, percebe o tamanho da distância social que separa sua realidade daquela elite. Ainda assim, Meg deseja construir uma vida tranquila e menos instável do que a vivida pelos pais. O filme trata esse desejo com respeito. Greta Gerwig jamais ridiculariza personagens que sonham com segurança emocional e financeira.
Amy March, vivida por Florence Pugh, passa boa parte da história tentando provar que merece atenção. Ainda jovem, ela demonstra talento artístico e uma personalidade muito mais pragmática do que Jo gostaria de admitir. Amy compreende cedo que casamento, naquele período, também é questão de sobrevivência econômica. Florence Pugh entrega uma atuação cheia de ironia e orgulho ferido. Amy pode parecer arrogante em algumas cenas, mas suas decisões nascem de um medo bastante compreensível de fracassar socialmente.
Beth, interpretada por Eliza Scanlen, ocupa um espaço mais silencioso dentro da família. Ela prefere o piano, os cuidados domésticos e os momentos tranquilos ao lado das irmãs. Sua fragilidade física transforma a rotina da casa aos poucos. Quando Beth adoece, Jo abandona parte de seus planos profissionais para permanecer perto dela, e Greta Gerwig trata essa mudança com delicadeza rara. É apenas uma irmã tentando lidar com a possibilidade de perder alguém fundamental para sua vida.
Estrutura narrativa
A diretora também brinca com a estrutura temporal da narrativa. O filme alterna passado e presente constantemente, aproximando infância e vida adulta em cortes simples, mas muito bons. Um jantar feliz pode ser seguido por uma cena melancólica anos depois. Um momento de euforia juvenil logo dá lugar a decisões difíceis envolvendo trabalho, casamento ou distância familiar. Essa montagem ajuda a mostrar como o tempo transforma relações sem pedir autorização para ninguém.
Timothée Chalamet aproveita muito bem o charme impulsivo de Laurie. O personagem erra bastante, age por impulso e demora a perceber que afeto sozinho nem sempre resolve inseguranças pessoais. Quando tenta se aproximar de Jo em um momento decisivo da história, recebe dela uma resposta sincera e dolorosa. Saoirse Ronan interpreta essa sequência com enorme naturalidade. Jo gosta profundamente de Laurie, mas sabe que abrir mão da própria autonomia criativa poderia sufocá-la aos poucos.
Greta Gerwig mantém o filme sempre ligado aos pequenos gestos cotidianos. Cartas, manuscritos, partituras e conversas ao redor da mesa possuem enorme peso emocional porque representam lembranças concretas daquela família. O roteiro adapta o romance de Louisa May Alcott sem transformar as personagens em figuras inalcançáveis. Elas erram, sentem culpa, fazem escolhas precipitadas e tentam seguir adiante mesmo quando a vida adulta se mostra menos romântica do que imaginavam.
Perto do encerramento, Jo decide transformar suas experiências familiares em livro. A publicação daquele manuscrito possui enorme importância porque simboliza algo que ela perseguiu desde o início da história. Não apenas reconhecimento profissional, mas a chance de preservar aquelas mulheres, suas brigas, afeições e perdas dentro de páginas que ninguém poderá apagar.

