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Em algum momento da vida, todos já nos perguntamos se fazíamos a coisa certa. Conforme o tempo avança, tomamos a real dimensão quanto ao impacto de nossas escolhas, para nós mesmos, mas principalmente para aqueles que nos rodeiam. Se viver já parece uma aventura sem que tenhamos de fazer nada, esse aspecto meio fictício, até farsesco da vida recrudesce nas quadras em que fomos confrontados — primeiro por nós mesmos, e não muito mais tarde, por absolutamente todo mundo — acerca do que pensamos ser ético ou imoral. Na ausência de leis eficazes, a tirania se disfarça de proteção e surgem líderes improvisados, que prometem segurança em troca de obediência cega. O apocalipse surge como o cenário ideal para a revelação de verdades desprazerosas, para que chegue-se à natureza inescapável dos homens, aparte-se o joio do trigo e sejam banidos os falsos profetas. Martin Campbell tem um jeito bastante original de manifestar sua descrença na humanidade e “Resgate em Grande Altitude” é outro de seus trabalhos saborosamente pessimistas. Campbell transforma o roteiro de Matthew Orton, Simon Uttley e Paul Andrew Williams num filme ágil, mas sem prejuízo da solidez narrativa e da harmonia estética, e essa sua marca registrada vem nas primeiras cenas.

Trabalho sujo 

A crença de que a vida é sonho não deixa de ser um estímulo, que puxa-nos para cima, num movimento que traz aquela lufada da destruição inclemente que resta embaixo, onde a utopia tenta vencer a barbárie e o caos sem fim. Campbell empreende um rápido flashback para apresentar Joanna Rogue, que em criança foi burilando seu dom de literalmente subir pelas paredes e virou uma especialista em tática militar, mas agora limpa janelas de arranha-céus. Nunca se sabe ao certo o que se deu com Joey, mas ela só se exaspera mesmo quando recebe a notícia de que seu irmão, Michael, de Matthew Tuck, terá de sair da entidade voltada à assistência de jovens com limitações cognitivas e não tem mais um teto. Joey leva Michael para o trabalho, o edifício-sede de um tal Grupo Agnian, e tenta se distrair com a paisagem de Londres sob um ângulo exclusivo, mas os problemas chegam às alturas. Problemas muito maiores do que imagina.

Inferno vertical

O ataque de uma organização que prega a defesa ambiental e relativiza a morte dos poluidores invade o prédio e faz reféns centenas de executivos, cabendo a Joey dar a resposta. Campbell ora assume o caráter flagrantemente artificioso do que é contado, ora passa a uma direção mais sóbria e deixa que sua anti-heroína tome a frente, e então a narrativa ganha fôlego. Daisy Ridley não deixa nada a dever aos tipos durões e obscuros de Michael Keaton e Liam Neeson em “A Profissional” (2021) e “Assassino Sem Rastro” (2022), respectivamente, e compõe uma justiceira pela qual torcemos com ardor. Lamente-se, porém, o desperdício de Clive Owen.


Filme: Resgate em Grande Altitude
Diretor: Martin Campbell
Ano: 2025
Gênero: Ação/Drama/Suspense/Thriller
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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