“Festim Diabólico” (1948) mudou o paradigma do suspense. Se antes filmes desse gênero eram apenas válvula de escape para as tensões de um mundo cada vez mais instável, o clássico de Alfred Hitchcock (1899-1980) encarnou o propósito de usar o crime para questionar as convenções, a hipocrisia de gente que se odeia, mas que têm de dividir o mesmo espaço, a ira diante do sucesso alheio. Hitchcock sabia equilibrar horror e inteligência como poucos, desafiando a lógica com seus situações tão absurdas quanto reveladoras, nas quais a maldade compõe a natureza humana de maneira indissolúvel, como reflexos no espelho. “A Hospedeira” reúne algumas das ideias do universo hitchcockiano, apostando as fichas mais valiosas numa personagem obscura, cujo passado cheio de lances funestos tenta voltar. Junto com Brendan Bishop e Finola Geraghty, o holandês Laurence Lamers burila seu argumento inicial até obter um roteiro caudaloso, preservando a aura de melancolia e insanidade que evolui para um crime infernal. Bem ao gosto do velho Hitch.
Prazeres clandestinos
Narrativas de mistério que transcorrem em ambientes restritos, confinando personagens no mesmo espaço em que serão obrigados a conviver por um tempo muitas vezes indefinido até que se esclareçam as circunstâncias turvas que os unem não são propriamente uma novidade. Se for verdade o que alegava o crítico e roteirista norte-americano Roger Ebert (1942-2013) — um dos homens que pensou o cinema com mais profundidade — ao dizer que “quase nunca importa sobre o que diz um enredo, mas de que maneira diz”, então “A Hospedeira” começa de maneira auspiciosa. Robert Atkinson leva uma vida frugal, mas sonha poder ostentar os luxos que o cercam, fazendo planos que nunca se concretizam. Talvez seu caso extraconjugal com Sarah, determinada a subir ao altar com o noivo para garantir alguma estabilidade financeira, represente a imagem mais fidedigna de seu desencontro existencial, completado com o vício em jogo. Quando uma cliente do banco onde ele trabalha deposita cinquenta mil libras numa conta recém-aberta, ele vê a chance de tentar a sorte num cassino de alto padrão e multiplicar o dinheiro. Outro tiro n’água.
O discreto charme da burguesia
Newbery deslinda as trapalhadas de Robert e leva a história de Londres para Amsterdã, onde ele é caçado pela máfia chinesa e conhece Vera Tribbe, uma milionária de hobbies extravagantes e doentios. O diretor busca o caos do Mestre do Suspense no meio do cinza matador destacado pela fotografia de Oona Menges, e deixa os personagens de Mike Beckingham e Maryam Hassouni numa atmosfera claustrofóbica de permanente tensão, até que não haja mais saída. “A Hospedeira” não é Hitchcock, mas chega bem perto.

