Em “Fúria Sobre Rodas”, Patrick Lussier não tenta transformar o longa em um suspense sombrio e sofisticado. O diretor prefere acelerar desde os primeiros minutos e deixar Nicolas Cage solto dentro de um universo onde carros cruzam estradas poeirentas, tiros atravessam janelas e homens retornam do inferno dirigindo muscle cars.
John Milton, personagem de Cage, foge do inferno depois que Jonah King, líder de um culto satânico interpretado por Billy Burke, assassina sua filha e sequestra sua neta recém-nascida. King planeja sacrificar a criança durante um ritual marcado para a meia-noite dentro de três dias. Milton passa a perseguir o grupo pelas estradas do sul dos Estados Unidos enquanto tenta recuperar a menina antes do ritual. A situação já seria suficientemente absurda, mas Patrick Lussier adiciona outra ameaça ao colocar no encalço do protagonista uma figura conhecida apenas como Contador, interpretada por William Fichtner.
O Contador surge vestindo terno escuro, falando baixo e exibindo um distintivo do FBI que pouco significa diante do que ele realmente é. O personagem atravessa cenas de violência com uma calma desconfortável. Enquanto Milton atropela portas e descarrega armas gigantescas, o Contador caminha entre cadáveres organizando informações quase como um funcionário irritado tentando recuperar um arquivo perdido. William Fichtner percebe rapidamente o tom do filme e cria uma figura divertida sem transformar o personagem em caricatura completa.
Romance sem sentimentalismo
A parceria entre Milton e Piper dá ao longa parte de sua energia. Amber Heard interpreta a garçonete presa em um relacionamento abusivo com Frank, vivido por Todd Farmer. Piper conhece Milton em uma lanchonete no instante em que tenta sobreviver a mais uma discussão agressiva com o noivo. O estranho armado aparece no meio da confusão e resolve a situação da maneira menos delicada possível. A partir daí, Piper abandona a rotina miserável que levava e entra em uma perseguição onde ninguém parece completamente humano.
Patrick Lussier trabalha essa relação sem perder tempo com sentimentalismo. Piper faz perguntas o tempo inteiro porque absolutamente nada naquela viagem parece fazer sentido. Milton fala pouco, fuma bastante e age como alguém cansado de tudo, inclusive da própria morte. Nicolas Cage interpreta o personagem com uma mistura curiosa de raiva, ironia e exaustão. Em vários momentos, parece um sujeito irritado por ter saído do inferno e descoberto que ainda precisa resolver problemas familiares pendentes.
Dinâmica combinada ao absurdo
O filme precisa manter o movimento constante para sustentar uma história tão exagerada. Quase toda cena acrescenta uma nova perseguição, uma troca de tiros ou algum obstáculo ligado ao culto de Jonah King. Os seguidores surgem armados em motéis baratos, oficinas abandonadas e bares perdidos no meio da estrada. Há sangue espalhado por praticamente todos os lugares onde Milton passa. Ainda assim, Patrick Lussier mantém um ritmo leve o bastante para impedir que o longa afunde em violência vazia.
Billy Burke interpreta Jonah King com uma tranquilidade perturbadora. O personagem fala pouco e mantém sempre um sorriso discreto enquanto manipula os integrantes do culto. King não surge apenas como fanático religioso. Existe algo de oportunista em sua postura. Ele percebe a fragilidade das pessoas ao redor e utiliza fé, medo e promessas sobrenaturais para manter autoridade sobre o grupo. Isso dá ao antagonista um ar mais perigoso do que muitos vilões barulhentos vistos em filmes semelhantes.
Existe também um prazer evidente do diretor em transformar cada perseguição em espetáculo. Carros atravessam estradas destruídas em alta velocidade enquanto Milton tenta alcançar pistas deixadas pelo culto. Em outra sequência, o protagonista participa de um tiroteio completamente absurdo sem interromper uma situação íntima que o filme apresenta de maneira propositalmente debochada. Patrick Lussier sabe exatamente o tamanho da maluquice que está dirigindo e prefere abraçar o exagero em vez de escondê-lo.
Road sem querer
Mesmo carregando elementos sobrenaturais, “Fúria Sobre Rodas” se aproxima do cinema de estrada. As melhores cenas surgem dentro de carros, postos de gasolina e lanchonetes decadentes onde personagens cansados tentam ganhar alguns minutos antes da próxima perseguição. O longa quase sempre parece quente, sujo e barulhento. Existe poeira nas roupas, sangue nos bancos dos carros e fumaça cobrindo boa parte dos ambientes.
O Contador cresce bastante na reta final. William Fichtner transforma o personagem em algo mais interessante do que simples perseguidor sobrenatural. Em diversos momentos, ele parece admirar a insistência de Milton em continuar lutando mesmo sabendo que provavelmente voltará ao inferno. Essa relação silenciosa cria algumas das melhores passagens do longa.
“Fúria Sobre Rodas” jamais tenta parecer elegante ou sofisticado. Patrick Lussier entrega um filme exagerado, violento e cheio de absurdos sobrenaturais, mas faz isso com convicção suficiente para tornar a experiência divertida. Nicolas Cage encaixa perfeitamente dentro desse caos. Seu John Milton atravessa estradas, atropela inimigos, dispara armas gigantescas e continua seguindo adiante porque ainda existe uma criança esperando ser resgatada antes da meia-noite.

