Discover

O corpo na piscina precisa mentir pelos próximos minutos. Em “Assassino a Preço Fixo”, Simon West apresenta Arthur Bishop, vivido por Jason Statham, durante um serviço que continua depois da morte. Ele entra, mata, mexe na cena e some. Mais tarde, Dean, personagem de Tony Goldwyn, manda que Bishop elimine Harry McKenna, amigo e mentor interpretado por Donald Sutherland. Bishop cumpre a ordem. No funeral, encontra Steve, filho de Harry vivido por Ben Foster. Steve quer vingança. Bishop sabe quem matou Harry. Mesmo assim, aceita ensinar o rapaz a matar.

A piscina dá a Bishop uma escala precisa. Não há explosão, não há discurso, não há raiva aparente. Há um corpo, seguranças por perto e uma versão falsa a sustentar até que alguém chegue. Statham ocupa bem esse registro. Fala pouco, não se explica, não tenta tornar Bishop simpático. Ele atravessa o serviço como quem já fez aquilo muitas vezes e sabe que o erro pode estar num detalhe deixado para trás.

A casa isolada, os carros, as armas e a música clássica cercam Bishop com coisas prontas para uso. Nada parece muito doméstico. Quase tudo pode servir a uma fuga, a uma espera, a uma eliminação. Harry entra por outro caminho. É amigo, mentor e alvo. A ordem de Dean tenta transformar isso em tarefa comum, mas a intimidade fica no caminho. Bishop mantém o rosto fechado e segue.

O funeral

Steve aparece com a raiva ainda solta. Foster deixa o personagem sempre perto de fazer algo antes de saber exatamente contra quem. Ele quer reagir. Bishop segura esse impulso e depois o recolhe para perto. A mentira passa a andar com os dois em carros, vigilâncias e missões. Steve aprende com o homem que matou seu pai. Bishop acompanha o filho do morto e mede quanto tempo ainda resta até alguma peça se encaixar.

O treinamento leva a ação para lugares menores. Seguir alguém. Voltar a um café. Repetir um comportamento até parecer casual. Usar um chihuahua como isca para chegar perto de um alvo. O cachorro ajuda porque tira a morte do golpe direto e a empurra para a rotina. Steve precisa caber no dia de outra pessoa antes de interrompê-lo. Precisa esperar. A espera não lhe cai bem.

Bishop ensina distância, regra, controle. Steve devolve pressa. Às vezes aprende. Às vezes estraga a aproximação. A parceria fica torta, e isso dá risco às cenas em que ninguém sacou uma arma. O perigo não vem só dos homens marcados para morrer. Vem do aprendiz ao lado, da pergunta atrasada, do momento em que a morte de Harry pode deixar de ser uma versão conveniente.

West empurra a história para a frente. A duração curta evita gordura, mas rouba alguma convivência incômoda entre Bishop e Steve. Faltam mais minutos de carro, de espera, de silêncio ruim. Quando entram perseguições, tiros e explosões, Bishop fica menos particular. O homem que controlava a cena da piscina vira mais um corpo treinado no meio do estrago. Statham aguenta esse terreno. Bishop perde alguma coisa nele.

O café e as armas

A lembrança de “The Mechanic”, de 1972, acompanha a nova versão pelo nome e pelo ponto de partida. West prefere impacto rápido. Passa menos tempo na frieza do ofício e na organização que transforma mortes em ordens repassadas. Dean aparece como funcionário dessa máquina. Dá a missão, administra a mentira, tenta descartar quem deixou de obedecer. A engrenagem surge, mas logo vêm outra fuga, outra arma, outro corpo.

Sutherland tem pouco espaço. Harry, porém, precisa pesar depressa. A cadeira de rodas, a amizade antiga com Bishop, o filho que sobra no funeral, tudo chega junto. O bastante para que a morte não pareça apenas troca de alvo. Bishop não para diante do que fez. Guarda a informação, muda de posição, continua trabalhando. A culpa aparece como segredo a proteger.

Foster aproveita a instabilidade de Steve. Ele quer entrar no ofício antes de entender o custo de cada erro. Pode confundir coragem com impulso. Pode transformar uma instrução em disputa pessoal. Ao lado dele, Statham fica mais seco. Os dois não formam uma dupla confortável. Dividem utilidade, segredo, armas e uma possibilidade permanente de traição.

As mulheres quase não passam por esse circuito. Quando aparecem, ficam em funções estreitas, como passagem, vítima possível ou sexo pago. A ausência não abre mistério. Apenas estreita o mundo. Bishop, Steve e Dean seguem entre homens, carros, ordens, favores, armas e corpos que precisam sair do caminho.

“Assassino a Preço Fixo” entrega ação competente. A montagem empurra, a fotografia dá acabamento, a trama não se arrasta. O que permanece vem das coisas menores. A piscina. O funeral. O café. O cachorro usado como pretexto. A casa de Bishop pronta para ser abandonada. Quando tudo explode, Statham segura o veículo. Antes do barulho tomar conta, havia um matador mais incômodo, ocupado em preparar uma morte para que os outros acreditassem em outra coisa.


Filme: Assassino a Preço Fixo
Diretor: Simon West
Ano: 2011
Gênero: Ação/Crime/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Leia Também