A maioria e seus preconceitos continuam a ditar as regras, moldar as identidades e calar os afetos. Nesse contexto, a família constitui um campo minado, onde qualquer ofensa é como uma mácula que nem o sangue limpa. Existe um sem fim de maneiras de se contar as tantas histórias de inadequação com o vasto mundo que nos cerca, com a vida inclemente que nos devasta, com nossa própria natureza, de que nos escondemos, que renegamos, mas da qual não podemos fugir. O espanhol Fernando González Molina sabe muito bem aonde quer chegar com “Minha Querida Senhorita”, um drama sobre os desajustes de uma garota que se descobre e vê que está só. Molina refresca o argumento central do filme homônimo de Jaime de Armiñán (1927-2024), lançado em 1972, avançando mais no labirinto de assuntos que tocam à transexualidade e à intersexualidade, duas das muitas vertentes do que é hoje um movimento tão organizado como prestigioso.
Uma mulher fantástica
A despeito da sufocante ânsia por se destacar em meio à tacanhice e à sobrevalorização do excepcional, do inimaginável, do fabuloso, todos queremos ter a vida o mais normal, o mais comum, até o mais previsível quanto se puder, e uma vez que chega-se a esse paraíso, em que as ilusões restam sepultadas, as neuroses evolam-se como o perfume das rosas ao primeiro raio de sol e as mágoas somem como se cansadas de não mais causar dor, reflorando a esperança da felicidade pela qual tanto se luta, mas que sói escapar-nos por entre os dedos, como se fosse um tesouro pesado demais. Numa vida ainda curta, Adela teve todas essas experiências, e as processou como conseguiu, ajudada por uma família carinhosa e atenta. Desdobrando o trabalho de Armiñán, os roteiristas José Luis Borau e Alana S. Portero, uma mulher transexual, também situam o enredo no princípio dos anos 1970, acompanhando a protagonista até 1999, momento em que Adela surge como professora de artes de um colégio católico de Pamplona. Aparentemente, não há nada que a indisponha com a direção ou com os alunos e colegas, mas aos poucos fica claro que ela não está cômoda na própria pele, sensação que também alcança o espectador.
Sem cores de Almodóvar
O diretor equilibra o mal-estar com cenas em que Adela desabafa com José María, um padre gay e “efeminado”, como ele mesmo reconhece, numa das sequências mais despretensiosas e plenas de sentido, capaz de resumir o que se vai ver. Paco León complementa a performance de Elisabeth Martínez, intersexo na vida real — o papel fora dado a José Luis López Vázquez (1922-2009) no filme original —, da mesma forma que Anna Castillo, na pele de Isabel, a fisioterapeuta que se apaixona por Adela. Pródiga em seus vários tons de cinza e azul-petróleo, a fotografia de Carlos Rigo afasta comparações estéticas com Almodóvar ou Carlos Saura (1932-2023), o que sem dúvida merece registro.

