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— Como assim “swing”, Jonas?! Você não me ama mais?!
Cássia ficou fula quando o esposo surgiu com a proposta durante o jantar. O macarrão à bolonhesa perdeu completamente o sabor.
— É claro que eu te amo, Cássia.
— Então, que história é essa de swing? Acabou o tesão por mim?
— Não, querida. Não acabou o tesão por você. Só acho que a gente pode variar um pouquinho, entende?
— Estou me esforçando pra entender, mas, confesso abestalhada que estou decepcionada.
— Viva o Raul.
— Você quer dormir com outra mulher, Jonas?
— Dormir, não.
— Puta merda…
— Você também vai se divertir, amor. Mas, só quando eu estiver por perto. Sou um cara ciumento, você sabe.
— Você endoidou de vez, Jonas. Será que é esse tal Alzheimer?
— Pare de zoar comigo. Muita gente faz swing. É que o povo não conta, pra manter as aparências. A troca de casais é praticada no mundo inteiro.
— Troca de casais? Você quer me trocar por outra, Jonas?
— Sim. Mas, é uma troca temporária, consentida e, acima de tudo, mútua. Pau que dá em Chico dá em Francisco.
— Muito engraçado esse seu trocadilho. Que porra é essa, Jonas? Não quero te trocar por outro cara, nem fodendo. De onde você tirou essa ideia? Ficarmos pelados na frente de estranhos…
— No início, podemos fazer isso em quartos separados, até pegarmos o jeito e nos sentirmos mais confiantes, mais desinibidos, se é que me entende.
— Tá de brincadeira, né? Só pode ser uma pegadinha. Você tá gravando a gente? Não tem graça, Jonas. Isso não tem a menor graça.
— Tô falando sério, mor. Olha só: acho que um casal precisa ousar, precisa experimentar, senão, o amor acaba. Aquela história de comer arroz com feijão todo santo dia, sabe como é.
— Espere só até as crianças saberem disso.
— Você vai contar, Cássia? Eu não. Os nossos filhos são adultos, independentes, já saíram de casa. E a vida sexual dos pais não é da conta deles.
— Me serve um copo de água com açúcar, por gentileza. Acho que a minha pressão caiu. Droga de menopausa. Vamos recapitular. Deixa ver se eu entendi direito. A gente vai frequentar um clube de swing?
— Não necessariamente. Existem grupos de aficionados nas redes sociais da internet. Podemos conversar via chat.
— Grupo de aficionados? Chat?
— O mundo mudou, amorzinho.
— Vamos conhecer algumas pessoas, bater papo e, se pintar um clima, se Deus assim permitir, vamos trepar com gente que nunca vimos mais gorda?
— Não coloque Deus na conversa, mulher.
— Me chamando de mulher, Jonas? Sentiu o baque, homem?
— Você é muito cabeça-dura, sabia? Só quero sair da mesmice, apimentar a nossa vida sexual, botar um temperinho a mais.
— Sexo não é culinária, Jonas. Não se pega sífilis comendo um prato de feijoada.
— Você entendeu.
— Não. Eu não entendi. Na verdade, não estou entendo mais nada, Jonas. Deve ser por causa da idade, né? Já fiquei velha e feia demais pra você. Como anda a próstata, hein? Desinchada? Tudo em cima. PSA tranquilo? Me diga, Jonas. Vamos conversar sobre checapes.
— Pelo amor de Deus, Cássia.
— Foi você quem disse para não botar Deus no meio.
— Desisto. Vamos fazer o seguinte: faz de conta que eu não te disse nada.
— Faz de conta que não te conheço, Jonas. Você tem outra, né? Quem sabe, outras, no plural…
— Caralho!
— Olha só quem fala sobre caralhos. Você espera que, nessa altura da vida, depois de tudo que a gente passou juntos, eu faça amor com desconhecidos, Jonas?
— Amor, não; sexo. Amor, quem faz com você, sou eu, somente eu e mais ninguém. A gente não vai sair por aí trepando a torto e à direita.
— A torto e a direito.
— Que seja. Você não se casou com o Professor Pasquale. Olha só, não é assim que a coisa funciona. Tem regulamento. A gente vai conhecer outras pessoas, gente bacana, suave, de cabeça aberta, que esteja disposta a inovar, a compartilhar uma nova experiência de vida, na intimidade, entre quatro paredes.
— Suruba mudou de nome, Jonas?
— Isso não é suruba. Suruba é sexo coletivo. Swing é outra pegada, algo mais personalizado e privativo.
— Tá sabendo das coisas hein, marido? Quem diria. Já participou de quantas surubas, meu amor?
— Não apela, Cássia. Tá fazendo feiura.
— Feiura? Eu? Bora praticar um pouquinho de empatia, Jonas.
— Como assim?
— Imagine que fosse o contrário. Imagine que eu propusesse pra gente sair e transar com outras pessoas, que eu demonstrasse interesse em fazer sexo com outros caras. Será que você ia gostar?
— Normal.
— Normal uma pinoia. Vocês, homens, simplesmente não suportam quando uma mulher se comporta livremente.
— Já chega. Essa conversa virou várzea, Cássia.
— Sentiu o golpe, foi?
— Não sei onde eu tava com a cabeça ao te fazer essa proposta. Deixa pra lá. Vou lavar as vasilhas.
— Isso mesmo. Lava tudo. Lava bastante, meu bem. Lava até sair esse verniz de inovação da sua cara de pau. Vou pra cama. Durma no sofá, por favor. Boa noite.
Jonas ensaboava os pratos. Cássia chorava no quarto. E o cantor Wilson Simonal demonstrava todo o seu talento, carisma e swing num documentário exibido por uma emissora de TV brasileira.

•O título desse conto é um verso da canção “Mordida de amor”, gravada pela banda Yahoo, nos anos 1980

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

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