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Da mesma forma que não existe crime perfeito, criminosos nunca são iguais uns aos outros. Por mais que se cerquem de métodos semelhantes a fim de alcançar seus execráveis objetivos, golpistas de toda ordem, estelionatários, ladrões ou assassinos seriais — todos psicopatas em maior ou menor grau —, sempre fazem questão de manifestar em seu comportamento bestial uma característica qualquer que os difira dos outros, como uma impressão digital, e é a partir daí que policiais bem-preparados, ciosos de seu ofício, começam suas intrincadas averiguações, tornadas um jogo de gato e rato onde as aparências estão sempre muito perto do engano, a verdade se irmana com a mentira, vilões passam por mocinhos sem inspirar muita desconfiança e o caos é o déspota das ledas intenções do gênero humano, imperando sobre a lei e a ordem. Em “Presságios de um Crime”, a vida mais parece uma caçada, cruenta e irracional, na qual estamos todos condenados a sofrer nas mãos uns dos outros. Depois da estreia promissora de “2 Coelhos” (2012), injustamente ignorada por Hollywood, em “Presságios de um Crime” Poyart faz do roteiro de Ted Griffin e Sean Bailey uma história em que mentes excepcionais assumem objetivos declaradamente antagônicos. E às vezes não se sabe quem é o verdadeiro predador.

A morte não pede passagem

Cada um inventa um jeito de lidar com seus traumas, congelados no limbo tétrico que também somos nós, à espera de que surja alguma coisa verdadeiramente nova no lugar, junto com a resposta que tirará nossas dúvidas. Uma série de crimes macabros inquietam Joe Merriwether e Katherine Cowles, dois investigadores do FBI, pela primeira vez meio hesitantes sobre seu tirocínio profissional. É a terceira ocorrência com a vítima morta por uma perfuração no bulbo raquidiano, o que denota a perícia extraordinária do assassino. Não existe nenhuma outra relação entre os eventos, monstruosos a ponto de ter envolvido uma criança, e os agentes não têm nenhuma pista. Poyart lança mão de chuvas e cenários urbanos depauperados para realçar a debacle moral que toma conta da Geórgia, por onde Merriwether e Cowles circulam como se estivessem em casa. Até que não conseguem mais virar-se sozinhos.

Um velho colaborador

John Clancy, um legista aposentado, atende ao chamado de Merriwether e retoma o batente, depois de ter perdido a filha para o câncer. Finalmente, ele vai sair da casa sem mobília numa área rural afastada com o propósito invulgarmente oportuno de unir a experiência como policial e o dom de antever tragédias, qualidade que faz dele o único adversário à altura do matador. Anthony Hopkins junta-se a Jeffrey Dean Morgan e Abbie Cornish como o anjo torto mandado por Deus (ou pelo diabo) para tentar conter o enigma incorporado por Charles Ambrose, o personagem de Colin Farrell. O diretor tem o condão de achar o momento exato de jogar luz nas diferenças e, em especial, sobre os pontos de contato a aproximar Clancy e Ambrose, e no desfecho uma longa cena com Hopkins e Farrell dá a “Presságios de um Crime” a aura filosófica pela qual o público esperava desde o início.


Filme: Presságios de um Crime
Diretor: Afonso Poyart 
Ano: 2015
Gênero: Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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